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Nell Gwynn, uma das primeiras atrizes profissionais inglesas, chamava a Carlos II de Inglaterra o seu Carlos III

Uma vez, para afastar da cama do rei uma sua rival, deu-lhe um bolinho com laxante quando a noite se aproximava… Apesar de analfabeta, era uma mulher que sabia o que queria e aproveitou bem o tempo como amante de Carlos II de Inglaterra, quando este era casado com a filha de João IV de Portugal. Nell Gwynn foi das primeiras atrizes profissionais a ganhar popularidade (ou mesmo a primeira). Morreu há precisamente 330 anos, com 37 de idade, dando origem a uma importante casa da monarquia britânica

Carlos teria 37 anos quando por ela se encantou. Eleonora era mais nova duas décadas, uma jovem atriz de teatro já bastante conhecida, sobretudo em comédias. Chamar-lhe-á o seu Carlos III. Ele já era rei e casado, com a portuguesa Catarina de Bragança, e também um mulherengo. Ela, de origem humilde, é uma das primeiras atrizes inglesas profissionais a atingir a popularidade e há de ser uma das mais importantes amantes de reis, mãe de um filho feito duque e de um neto que chegará a bispo. A “bonita e espirituosa Nell” morreu a 14 de novembro de 1687, faz esta terça-feira 330 anos.

Carlos é o rei de Inglaterra, segundo deste nome, sentado no trono em 1661, aos 31 anos de idade, após uma experiência republicana que o obrigara a um exílio de nove anos. Eleonor, conhecida por todos pelo diminutivo Nell, nasceu a 2 de fevereiro de 1650, no ano seguinte à decapitação de Carlos I, filha do capitão realista Thomas Gwynn, que acabou preso, e de Ellen Smith, mulher que teria problemas com a ingestão de álcool. Da sua infância pouco se sabe, mas há a certeza de ter sido pobre e dura, havendo quem diga que ela iniciou a carreira com 14 anos, na rua, onde também se prostituía.

Carlos foi quem restaurou a monarquia em Inglaterra e… o teatro. A arte de representar em palco estava proibida desde que Oliver Cromwell se transformara no Lord Protetor da comunidade da Inglaterra, Escócia e Irlanda e os puritanos tomaram conta do antigo reino, finda a chamada segunda guerra civil. Carlos II foi mais longe do que conceder licenças teatrais: abriu as portas às mulheres, que passaram assim a poder desempenhar os papéis das personagens do sexo feminino que, anteriormente, antes da proibição dos puritanos, eram interpretados por homens.

Carlos II

Carlos II

Nell, mal começou a sua carreira, atraiu logo fãs. Era uma das primeiras mulheres a pisar um placo, era uma rapariga bonita, sempre sorridente, com talento para cantar e dançar, em especial. Antes, andaria de taberna em taberna, ganhando umas coroas em troca de atuações e intimidades, quando foi descoberta e lançada no palco real. Numa versão mais poética da sua vida, afirma-se que ela começou aos dez anos por vender laranjas no teatro, tendo como patroa uma prostituta, e que a beleza do seu rosto e da sua voz atraíram as atenções de atores, como Carlos Hart, sobrinho neto de William Shakespeare, que será o Carlos I na lista dos seus namorados.

O seu Carlos II surgirá logo de seguida, na pessoa de Charles Sackville. O Lord Buckhurst, sete anos mais velho do que Nell, conheceu a atriz quando esta ia nos 16 anos e logo começou a pensar em retirá-la do palco para ser apenas sua amante. Oferece-lhe uma mesada elevada, mas ela não aceita. É sua amante, mas mostrar-se-á renitente quanto a esta pretensão. Acabará, porém, por ceder em 1668… depois de ter feito o rei rir a bom rir, durante uma sua atuação no Teatro Drury Lane. Todavia, segundo leituras mais recentes, Buckhurst aproximou-se da atriz já com a missão de a “passar” ao rei, seu amigo, que queria trocar por outra Barbara Villiers, amante que já vinha do tempo do exílio, futura condessa de Cleveland que, por esta altura, já está com quase 30 anos e é mãe de cinco filhos de Carlos.

Nell Gwymn, de facto uma boa atriz, especialmente na comédia, era uma miúda analfabeta mas bastante esperta e sempre com a resposta na ponta da língua, como diz o povo. Um dos episódios representativos desta sua capacidade escreveu-o no diário o seu contemporâneo Samuel Pepys, trata-se de uma troca de “galhardetes” com a sua rival de palco Beck Marshall. Esta última, ao passar pela colega, chamou-lhe a “amante de Lord Buckhurst” e logo levou por resposta (numa tradução livre): “Sim, sou, mas sou amante de um só homem, mas fui criada num bordel para encher de aguardente os cavalheiros, e tu és amante de três ou quatro, embora sejas a filha religiosa de um presbítero”.

Assim, chegou ao seu Carlos III, como a própria diria rindo-se, para mágoa de Catarina de Bragança, apesar de esta estar casada há seis anos e “habituada” a conviver com as amantes do marido, já que quando se opunha aos avanços de alguma, ele respondia-lhe que não admitia que desafiasse a sua autoridade… Provavelmente, o consórcio nunca se teria realizado se o filho do decapitado Carlos I e de Henriqueta Maria de França não precisasse tanto de dinheiro... nem o facto, à partida impeditivo, de ele ser protestante e ela católica venceu essa necessidade. A situação da Grã-Bretanha era de grande instabilidade, o tesouro encontrava-se depauperado e o dote de Catarina representava o dobro das ofertas de outros reinos — cifrou-se em dois milhões de cruzados e incluía a cedência de Tânger e de Bombaim. E Catarina sonhava com o momento em que iria conhecer o marido que lhe escrevera uma carta sedutora. O rei era mesmo um sedutor, disso terá a certeza logo ao chegar à corte.

Catarina de Bragança

Catarina de Bragança

Cerca de um ano após a assinatura do acordo, a infanta Catarina partiu ao encontro de Carlos e, após uma má primeira impressão de parte a parte, a vida entre ambos até correu bem durante um tempo. Mas era dura, as amantes coexistiam na corte e enfrentavam-se sem pudor. Nell não tinha papas na língua nem, pelo que se conta, tento nos atos. Com Moll Davis, por exemplo, outra atriz favorita real, encetou uma “guerra” para a afastar de Carlos, conseguindo o que Catarina nunca conseguiria, pô-la fora do leito real. Num dia do ano de 1668, sabendo que Moll ia dormir nessa noite com o rei, à tarde convidou-a a provar uns doces que confecionara… com uma dose excessiva de laxante… Resultado: a cantora e comediante passou uma noite desgraçada e o monarca, habitualmente bem-humorado, aborreceu-se com a impossibilidade de concretizar o seu desejo e “despediu-a sumariamente” com uma pensão anual de mil libras.

Em 1674, a entrada em cena de uma nova amante do rei vem alterar a “estabilidade” amorosa no palácio. Não é que Carlos II se mantivesse fiel a Catarina e a Nell, mas a escolha da jovem Louise Renée de Pennancoet de Kéroualle irritou a atriz, sobretudo, e tornou-se o seu ódio de estimação. Luísa — escrevamos assim, já que em português está definido que se deve traduzir os nomes próprios — era francesa, aia da duquesa de Orleães, bonita e católica, uns meses mais velha do que a rival direta. A religião de Luísa e de Nell ganhara importância, uma vez que em Inglaterra a rivalidade entre católicos e protestantes se agudizou nesta altura. Um dia, a atriz ia na sua carruagem quando ouviu o povo gritar ofensas contra a ocupante do veículo e ela safou-se pondo a cabeça de fora e gritando “estão enganados, eu sou a puta protestante!”.

Louise Renée de Pennancoet de Kéroualle

Louise Renée de Pennancoet de Kéroualle

Gwynn regressou aos palcos em 1670, mas no ano seguinte abandonaria a carreira para sempre. O seu filho, nascido a 8 de maio de 1670, é o sétimo do rei que era pai com cinco das suas amantes, nunca chegando a ter descendência com Catarina, tanto que será o irmão Jaime a herdar o trono. Ela não ganhou qualquer título, como outras das amantes reais (Luísa foi duquesa de Portsmouth), mas seu primeiro filho (o segundo morreu jovem), Charles Beauclerk, será barão de Heddington, conde de Burford e duque de St. Albans, cujo descendente hoje é Murray Beauclerk. O seu herdeiro, batizado com o nome do fundador filho de Nell, tem agora 52 anos e é deputado e escritor, tendo dado nas vistas ao opor-se ao fim dos lugares hereditários na Câmara dos Lordes e por defender ser descendente de Edward de Vere, o homem que diz ter escrito a obra editada em nome de William Shakespeare.

Eleonor Gwynn, cuja popularidade ainda se fazia notar na sociedade inglesa do século XIX, morreu no dia 14 de novembro de 1687, dois anos depois do rei Carlos II, na casa que este lhe deu em Pall Mall. Após a morte do marido em 1685, Catarina ainda permaneceu em Inglaterra (onde ganhou a fama de ali ter introduzido o chá como bebida incontornável) por mais sete anos, regressando a Portugal já depois de o cunhado ter sido deposto. Volta com 54 anos, no reino viverá como quer e lhe apetece e até governará em nome do irmão Pedro II, em 1705, ano da sua morte.