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Xutos. De sempre. Para sempre

rita carmo

O maior grupo de rock português está à beira de completar 39 anos. Neste artigo, Tim escreve sobre os dez momentos mais marcantes de uma história que começou numa noite de chuva. A digressão de 2017 acabou na semana passada, no Coliseu dos Recreios, e este texto foi escrito antes desse momento especial. Mas pode ser lido em qualquer dia - aliás, mais do que “pode ser lido”, é melhor estar escrito “deve ser lido”. Porque o aqui há de ler é único

Tim

Vou começar pelo fim. O concerto deste sábado marca o fecho da tour 2017, mas no início não sabíamos se a saúde do Zé Pedro ia aguentar o esforço necessário; esta incerteza marcou a digressão, mas graças aos deuses e ao ânimo do Zé tivemos grandes concertos por todo o país, e ele só não tocou em Toronto por imposição nossa. As viagens eram um risco desnecessário. Sítios como Cantanhede ou Lagoa, onde já tocámos muitas vezes, cheios mesmo em dias menos favoráveis, como o domingo, e com comentários ao concerto tão bons que pensámos que nos estavam a mentir. Foi um concerto montado para, de alguma forma, proteger a saúde do Zé (e a nossa), com um pequeno espaço acústico no meio para recuperar o fôlego, algumas canções novas, o solo do Kalú e do Zé no ‘Tonto’ e ainda canções do “Gritos Mudos” e do “Dados Viciados”, além das do costume. Sem querer, fomos ao encontro do público, e ele agradeceu. É este concerto que vamos apresentar em Lisboa, também como tributo a toda a equipa que o realizou no desenho cénico, no som e em tudo aquilo que não se vê!

1 Senófila, 
22 de Dezembro de 1978

d.r.

Era de noite e chovia. O meu recente amigo Zé Leonel aguardava por mim naquele rés do chão ali para as bandas da Judiciária... Lá dentro, um tipo moreno, magro e alto, de gabardina e galochas, esperava que vagasse a sala de ensaio alugada. Eu nem sabia que havia salas de ensaio para alugar, por isso tinha pedido um baixo emprestado em Almada e lá fui com ele no cacilheiro e no elétrico. Como era costume com o Zé Leonel, começámos por fazer um ‘cachimbinho’ de prata e convivemos um bocado, até que o tal moreno, que se chamava Zé Pedro, começou a arranhar umas guitarradas, que eu tentei acompanhar no baixo. Entretanto, chega um outro com um cachecol enorme e que depois de algumas palavras se senta à bateria... Ninguém me disse que era o primeiro ensaio, pensava que ele era já da banda, tudo aquilo era tão natural que parecia que sempre tinha existido. Repetimos o encontro talvez mais uma ou duas vezes, e aí soubemos que tínhamos sido convidados para tocar numa festa nos Alunos de Apolo... O resto é história.

2 pavilhão do Restelo, 
23 de Fevereiro de 1980

A saída de Zé Leonel ‘obrigou’ Tim a acumular a função de baixista com a de vocalista

A saída de Zé Leonel ‘obrigou’ Tim a acumular a função de baixista com a de vocalista

d.r.

Por esta altura, em Portugal, as bandas estrangeiras tocavam no pavilhão do Dramático de Cascais ou no pavilhão de Os Belenenses, ali no Restelo. Este processo havia começado com os Cascais Jazz e tinha-se estabelecido ao longo do tempo com concertos que espelhavam a evolução do rock: Genesis em 75, Soft Machine em 78, Stranglers em 79 e Dr. Feelgood e, em 1980, Wilko Johnson (guitarrista dos Dr. Feelgood) a solo. Com o estourar do rock português, as bandas nacionais eram convidadas para abrir estes concertos e normalmente eram recebidas com vaias e assobios... Connosco foi parecido, mas a nossa atitude, com o Zé Leonel destemido, eu e o Kalú seguros e o Zé a pedir um minuto de barulho pelo Bon Scott (AC/DC), que tinha morrido nessa altura, transformaram aquela meia hora naquilo que os Xutos iam procurar fazer no resto da carreira: concertos onde a banda se impunha. Lembro-me depois de estar já sentado na bancada a ver o Wilko, mas em vez de eufórico com o que tinha acontecido estava satisfeito e calmo, como quem sabe exatamente o que tinha feito e como o fazer. Dali para a frente era aquela a nossa dimensão. Pelo menos, nas nossas cabeças.

3 Primeiras gravações 
no Angel 1, Lisboa, 1981

Francis, que ainda gravou os discos iniciais, foi o primeiro guitarrista solo 
dos Xutos & Pontapés, que funcionaram como um trio até à entrada de Gui e de João Cabeleira

Francis, que ainda gravou os discos iniciais, foi o primeiro guitarrista solo 
dos Xutos & Pontapés, que funcionaram como um trio até à entrada de Gui e de João Cabeleira

d.r.

Pela primeira vez, com o crescimento da banda, sentimos também a necessidade de crescer musicalmente. Não nos esqueçamos de que éramos autodidatas, punks, mas os temas iam aparecendo e corriam o risco de ficarem todos iguais. Por sugestão do Kalú, convidámos o Francis para guitarra solo. A coisa até funcionou, mas a banda já não contava com a energia do Zé Leonel, que acabou por sair, ficando eu com o duplo trabalho de tocar baixo e de cantar — era o único que sabia as letras, de as cantar nos coros. O António Sérgio quer gravar os Xutos & Pontapés (sem mexer no nome), e aí vamos nós para o Angel 1 do José Fortes, ali ao Alto de São João, num fim de semana, maravilha das maravilhas, ouvir a banda ao pormenor, trabalhar no estúdio, inventar vozes, pedir efeitos, ouvir mais alto e mais forte. Foi outra revelação! Como tinha acontecido com o concerto do Wilko Johnson, a banda encontrou um caminho e um saber estar em estúdio que se veio a repetir em todas as outras gravações, do Brasil a Inglaterra, de Paços de Brandão a Sintra.

4 Entrada do João Cabeleira, do Gui e do Vítor Silva e o “Cerco”, 1983

d.r.

Com a saída do Francis, os Xutos ficaram em trio. Sabíamos que musicalmente não chegava para ir muito longe. Demos um concerto no Rock Rendez-Vous com alguns convidados, entre eles o Gui, e percebemos que a banda estava bloqueada. Fui incumbido de ir falar com o Gimba, que estava nos Vodka Laranja e que já tinha ensaiado connosco ainda na Senófila. Eles ensaiavam no Rossio, com vista para a Praça da Figueira. Entreguei os discos ao Gimba, para ele aprender as músicas, e fiquei por ali a assistir ao ensaio deles... Fiquei impressionado com a maneira de tocar do João Cabeleira, era diferente de tudo e era realmente novo. Falei com a banda, e eles aceitaram-no sem espiga. Os Xutos estavam preparados para a new wave! Pela mesma época, aparece a Fundação Atlântica, que nos propõe a gravação do ‘Remar, Remar’, que depois vai dar na criação da agência Malucos da Pátria, com o Zé Pedro, o Pedro Ayres e o Vítor Silva. Este tornou-se nosso manager e foi ele que nos incitou a gravarmos o “Cerco” para a independente Dansa do Som, já que as grandes discográficas não estavam dispostas a editar uma banda nem com aquele nome nem com um baixista-vocalista! Levou-nos do “Cerco” até ao “Circo de Feras”, passando pelo pavilhão do Belenenses e por Espanha.

5 Do “Circo de Feras” ao “Gritos Mudos”, 1987 a 1990

Depois de “Gritos Mudos”, os Xutos & Pontapés conheceram uma das suas maiores crises e chegaram a equacionar o fim. O regresso aconteceu no Johnny Guitar, em Lisboa, clube de rock que era propriedade de Zé Pedro, Kalú e Alex dos Rádio Macau

Depois de “Gritos Mudos”, os Xutos & Pontapés conheceram uma das suas maiores crises e chegaram a equacionar o fim. O regresso aconteceu no Johnny Guitar, em Lisboa, clube de rock que era propriedade de Zé Pedro, Kalú e Alex dos Rádio Macau

d.r.

Com a assinatura pela Polygram, com o Tozé Brito, os Xutos puderam voltar a gravar num dos melhores estúdios de Lisboa, o Angel 2. Com produção do Carlos Maria Trindade, fizemos o “Circo de Feras”. Devido aos ‘Contentores’ e à promoção da companhia, passámos de banda de culto a banda de massas. Foram os anos loucos de concertos e autógrafos, que depois se tornaram obrigatórios para qualquer artista de sucesso. Nós aproveitámos também a ocasião para, com o Carlos Vales (Cajó) e o Fernando Rascão, nossos homens do som, criarmos uma estrutura que proporcionasse o melhor concerto possível em qualquer ponto do país, sem aumento dos custos, o que transformou a incipiente atividade de bailaricos naquilo que hoje são os concertos. Com o Cajó gravámos aquela que se tornou a nossa música mais conhecida, uma versão de ‘A Minha Alegre Casinha’, que já tocávamos ao vivo desde a fase em trio. Rapidamente compusemos o material que nos levou ao “88”, para o que chamámos o Paulo Junqueiro do Brasil, para vir produzir, com o Ramón Galarza, e assim apareceram o ‘Para Ti Maria’ e o ‘À Minha Maneira’, e a digressão correu loucamente todo o Portugal e ilhas... A banda parecia não ter fim, mas o cansaço, nosso e do público, juntamente com o maior peso que pusemos nas composições do “Gritos Mudos”, como ‘O Vento’, o ‘Pêndulo’ e o próprio ‘Gritos Mudos’, levaram a uma estranheza entre o público em geral e os Xutos — coisa que não esperávamos que acontecesse. Dois meses antes éramos os maiores e agora comparavam-nos ao Marco Paulo... Na altura, apareciam novas bandas e era mais apetecível falar na novidade. Os Xutos, ainda por cima, debatiam-se com problemas no escritório, de tal forma que tivemos de suspender a tournée, e com isso afastámo-nos ainda mais do público. Não conseguimos defender o disco nos concertos, e aí quase acabámos. Mas as lições foram aprendidas, como se viu mais à frente.

6 A Marta Ferreira, Sintra e o recomeço, 1992

O Portugal ao Vivo, no Estádio de Alvalade, foi uma manifestação de força da música portuguesa: naquele 26 de junho de 1993, os Xutos envergavam t-shirts que defendiam a causa de Timor-Leste

O Portugal ao Vivo, no Estádio de Alvalade, foi uma manifestação de força da música portuguesa: naquele 26 de junho de 1993, os Xutos envergavam t-shirts que defendiam a causa de Timor-Leste

rita carmo

Os Xutos tinham o seu escritório numa sala alugada à firma de exportação de cortiça do pai do Kalú, em Lisboa. Quem trabalhava aí era uma das irmãs dele, a Marta Ferreira, que acompanhou de perto toda a crise que se seguiu ao “Gritos Mudos”. A Marta, que era uma pessoa decidida e prática, disse um dia ao Zé que, se era preciso apenas atender o telefone, marcar concertos e tratar das contas, então ela podia fazer isso! Nem sabia onde se ia meter! Mas, com muita determinação, organizou as contas, os impostos, o funcionamento da estrutura e libertou-nos daquele pesadelo. Ainda tínhamos compromissos com a discográfica. Por isso, quando nos reunimos para tocar, avançámos com temas novos (‘Estupidez’) que, com algum trabalho de ensaio no então em construção Régiestudio, nos levou aos temas do “Dizer Não de Vez”. Para gravarmos o disco já não podíamos ir para o nosso querido Angel 2, que estava a ser desmanchado. Pegámos na mesa de mistura Harrison e no gravador que eram do Angel 2 e fomos para uma moradia em Sintra, onde fizemos uma residência de um mês para gravar o disco. Aí criámos uma nova aproximação aos temas, talvez menos imediata, mais em conjunto, e depois decidimos arriscar e tocar o disco integralmente nos concertos. Foi essa determinação e esses temas que nos tiraram da década de 80 e nos levaram para a frente.

7 Almada, salas 
de ensaio e Portugal 
ao Vivo, 1993

No início de maio de 2011, Zé Pedro daria entrada no Hospital Curry Cabral para ser submetido a um transplante de fígado

No início de maio de 2011, Zé Pedro daria entrada no Hospital Curry Cabral para ser submetido a um transplante de fígado

tiago miranda

O concerto Portugal ao Vivo foi extraordinário por muitos motivos. O primeiro estádio — cheio —, a hora — à tarde —, o público. Os Xutos sabiam que podiam fazer a diferença. Podíamos aproveitar para nos desafiarmos, e então preparámos algumas surpresas: bolas de futebol chutadas para a assistência, bonecos insufláveis, strippers, convidados. Em 40 minutos usámos todos os truques e foi marcante. Mas as canções escolhidas eram a força do concerto, especialmente a versão da ‘Chuva Dissolvente’, com o João Aguardela na guitarra acústica e o Fernando Júdice no baixo, o grande solo do Cabeleira e a sensação de estar ali a nascer um clássico. Os preparativos para este concerto já foram em Almada, na garagem ao lado dos bombeiros, a nossa nova sala de ensaios à altura — que mantivemos durante 12 anos e onde compusemos os discos “Direito ao Deserto”, “Dados Viciados”, “Tentação”, a música para o filme “Inferno”, “XIII”, “Mundo ao Contrário” e, finalmente, “Xutos & Pontapés”. A sala de ensaios foi sempre o nosso coração, o sítio onde resolvíamos os problemas, inventávamos o futuro e que muitas vezes nos abrigou em tempos de incerteza. Desde a Senófila que assim é, passando por Carcavelos, numa garagem do Centro Comercial Plim, com a luz a vir de uma baixada do centro, onde criámos todo o “Circo de Feras”, ou a Academia Dramática Familiar 1º de Novembro, em Pedrouços, onde fizemos o “78/82” e o “Cerco” e depois o “88”, até agora à Casinha, onde já compusemos e gravámos o “Puro” e onde trabalhámos com muita gente, dos Titãs à Resistência, Deolinda, Paulo de Carvalho e tantos outros.

8 O problema 
do Zé Pedro, 2001

O 35º aniversário seria celebrado a 7 e 8 de março de 2014, na então MEO Arena

O 35º aniversário seria celebrado a 7 e 8 de março de 2014, na então MEO Arena

rita carmo

Eu estava em casa, entre concertos, quando a Marta me telefonou a dizer que o Zé Pedro tinha entrado no hospital em estado crítico. Anos e anos de abusos e uma perspetiva de vida no future estavam a cobrar a conta. Felizmente, safou-se. A partir daí surgiu um Zé Pedro diferente, aquele que as pessoas mais conhecem, sem aditivos nem álcool e cheio de amor pela vida. Infelizmente, porém, a saúde dele foi muito afetada, e a partir dessa altura a banda passou a conviver com a imponderabilidade do estado do Zé. Nós e ele tivemos sempre sorte, conseguimos ir fazendo tudo, mas tem havido momentos de grande tensão, em que a vontade dele de fazer isto ou aquilo choca com a nossa de o proteger. Tem sido muito forte e corajoso, tem sofrido, mas não se tem sacrificado. Porque a vida dele é tocar nos Xutos & Pontapés.

9 Restelo, 28 de Setembro de 2009, e os Aniversários

A digressão de 2017 termina no Coliseu dos Recreios com um concerto que inclui um número acústico

A digressão de 2017 termina no Coliseu dos Recreios com um concerto que inclui um número acústico

rita carmo

Os aniversários sempre foram importantes para nós, especialmente os de números redondos. O maior deles (por enquanto) foi o do concerto no estádio do Belenenses, no Restelo. Tinha tudo a ver: o Restelo sempre foi um sítio onde trabalhámos. Fizemos concertos no pavilhão, ensaiámos em Pedrouços, a família do Kalú morava ali, muitos dos nossos apoiantes iniciais vinham daquele bairro. Mas aquele concerto foi demais, foi enorme. Tudo correu de uma forma memorável (exceto a segurança, que atrasou a entrada do público). Foram dias de trabalho em que toda a equipa levou mais longe a ambição. Já noutros aniversários tínhamos esticado a corda. Nos 20 e 25 anos, no antigo Pavilhão Atlântico, com discos em estreia e cenografias nunca tentadas por aqui. Mas o mais marcante para mim foi o que passámos no Coliseu do Porto, nos 15 anos, com aquela primeira parte maluca em que as bandas da altura tocaram temas nossos!

10...e ainda

Aqui cabem muitos momentos que não puderam ser descritos. Ficam à laia de lembrança: os concertos no Rock in Rio; os concertos no Porto e o carinho e a força que sempre ali nos dedicaram (não desfazendo em ninguém); as viagens de carrinha e de avião; as sessões de autógrafos com mais ou menos gente; as tascas, os companheiros de balcão e a sua verdade; as discotecas e as suas incongruências; as entrevistas, as sessões fotográficas, os vídeos e quem os fez; as bandas; os clubes de rock... A amizade!

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 de novembro de 2017