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O cheiro inesquecível das rosas de Timor

Maria das Dores Afonso dos Santos e Luís Filipe Rocha, na praia de Dili, em Timor

d.r.

O documentário “Rosas de Ermera” revela-nos a saga da família do músico José Afonso, nos anos da II Guerra Mundial e da invasão japonesa em Timor. O filme segue a narrativa de três irmãos e ao Expresso, Mariazinha, a mais nova, recorda o regresso ao lugar onde esteve prisioneira num campo de concentração. A estreia é este sábado

Uma mulher caminha em direção ao mar. Poderia tratar-se de um movimento banal numa praia exótica e luminosa no longínquo Pacífico. Mas nada é banal na história que se irá contar a partir deste breve momento, fixado na figurinha quase etérea da mulher de cabelo branco a caminhar descalça numa praia da costa norte de Timor e que abre o documentário “Rosas de Ermera”, de Luís Filipe Rocha.

“Rosas de Ermera” é a história de uma separação e de um reencontro com um território simultaneamente trágico e inaugural e é um filme que se foi esboçando e construindo ao longo de três décadas.

Zeca e os seus irmãos

No princípio está uma família. A família de José Afonso, o músico e cantautor revolucionário, que morreu em 1987, com 58 anos. Percorrendo em “flashback” o fio desta narrativa, encontramos a família Afonso dos Santos, os pais e os três irmãos, em África no momento que antecede uma separação. Lourenço Marques (hoje Maputo), 1939. Maria das Dores, Mariazinha, tem 7 anos, João, 11, Zeca 10, e estão de partida para destinos diferentes. O pai, José Nepomuceno Afonso dos Santos, acabara de conquistar o lugar de juiz de Díli, que não tem liceu, e os rapazes embarcam para a Metrópole, Coimbra, onde ficarão a viver em casa de uns tios. Mariazinha segue com os pais para Timor e a família despede-se no porto. Para trás ficam as memórias congeladas de uma infância passada em família e idealizada pelo tempo da inocência porque os anos que se seguem ficarão marcados pela separação dolorosa e assombrados pelo silêncio.

A família reunida em África

A família reunida em África

d.r.

Um mês depois de se separarem, rebenta a segunda Guerra Mundial e em fevereiro de 1942, o Japão invade a província ultramarina portuguesa no sudoeste asiático. Timor fica isolado do mundo. A Portugal não chegam notícias nem cartas, subitamente, deixa-se de falar dos que lá ficaram e João e Zeca são tratados como órfãos.

Entre Coimbra, na casa da tia Avrilete, divorciada mas muito católica, e Belmonte, na casa do tio Filomeno - notário e presidente da câmara, franquista, germanófilo que os leva às vindimas e às feiras e os ensina a cantar - vivem confinados a um universo fechado, salazarento, onde pouco se passa. Zeca refugia-se nos amigos que conhece no liceu e começa a libertar-se do peso familiar. Sobre aquele ambiente dirá ao amigo realizador: “O Buñuel, ao pé daquilo é uma brincadeira.”

No fim da guerra, a notícia que os pais estão vivos é dada através de uma escassa nota oficiosa do Ministério das Colónias, publicada no “Diário de Notícias”, onde na lista dos vivos de Timor aparecem os nomes dos desaparecidos. Só em fevereiro de 1946, quando todos regressam a Lisboa, ficarão a saber que durante aqueles três longos, tinham sido prisioneiros e vivido num campo de concentração. Durante longos anos, Timor ficará tacitamente silenciado, como intimidade vivida em conjunto mas que não se consegue partilhar.

Zeca, Mariazinha e João no reencontro em 1946

Zeca, Mariazinha e João no reencontro em 1946

d.r.

Um filme em forma de puzzle

No início dos anos 80, o realizador Luís Filipe Rocha, amigo de casa de José Afonso, quis fazer um filme sobre o músico e começou a gravar conversas entre os irmãos e pela primeira vez, cruza-se com esse testemunho tão particular e contornos de romance, sobre os anos das infância e adolescência dos Afonso dos Santos. O filme acabou por nunca ser feito, mas o embrião dessa história ficou armazenado na imaginação do realizador. Uma década depois, já depois da morte de Zeca, volta à saga familiar do amigo, ao ter acesso a uns cadernos que Mariazinha, a irmã mais nova, oferecera aos seus filhos e onde pela primeira vez, contara em pequenos fragmentos as suas memórias de Timor.

A hipótese de realização de um documentário assombra-o novamente, agora deslocando o território da narrativa para um universo mais amplo onde o contexto histórico também tem um lugar. Partindo do mesmo ponto em que ficara o testemunho de Zeca, Mariazinha e João reúnem-se em estúdio para gravar, em separado, a narrativa daqueles anos, onde a evocação do irmão se impõe na ausência.

Mas a história só ficará inteira quando Luís Filipe convence Mariazinha a regressar a Timor, 70 anos depois de ter lá estado. É a partir dessa viagem que o documentário “Rosas de Ermera” produzido pela Fado Filme, é finalmente realizado.

Regresso a Timor

“Quando o Luís Filipe me perguntou se eu queria voltar, achei que seria uma coisa impossível, uma fantasia. Pedi-lhe dois dias para pensar. Fui ao médico para saber se o coração aguentava a viagem. Mesmo pensando que era uma coisa incrível voltar, era também uma coisa bonita, muito forte, natural, e fiquei muito calma Regressar a Timor foi um feito de vida.”

Durante dez dias, o tempo em que dura a viagem, a equipa de filmagens percorreu os lugares onde Maria das Dores viveu com os pais entre os 7 e os 14 anos, e é partir desta evocação que brota da memória de Mariazinha que a narrativa se constrói.

Mariazinha em Timor

Mariazinha em Timor

d.r.

A casa em Lahane, a escola, o tamanho das árvores, os passeios a cavalo sem sela, a chuva que “quando começava era de tal modo forte que parecia um muro de água à nossa frente antes de começar a molhar”, onde ela, criança solitária, aprendia a amar essa natureza, tão perto do coração selvagem.

Em Ermera, onde passaram as primeiras férias fora de Dili, procurou novamente o cheiro das rosas da montanha, que lhe ficara gravado para sempre como o aroma inesquecível da frescura deslumbrante. Ao longo da vida, o cheiro das rosas trará sempre de volta à memória, esse cheiro de Ermera, o último lugar da inocência.

Em dezembro de 1941 os japoneses atacam Pearl Harbor e em fevereiro, desembarcam em Timor. Essa noite aterradora é evocada no quintal da casa de Díli, com o relato do ruído dos aviões a sobrevoarem o céu, a casa a ser evadida, o caos que se instala com a rendição dos holandeses e dos australianos. As filmagens seguem Mariazinha nas sucessivas e extenuantes fugas da família e do grupo de portugueses, à procura do abrigo numa plantação de café, depois até Baucau onde ficam refugiados numa quinta, para novamente se deslocarem num pequeno barco até Liquiçá, a pequena vila de praia deslumbrante na costa norte de Timor. Mas o azul cristalino do mar é uma quimera que nunca poderão alcançar.

Em Liquiçá, permanecerão durante três anos, prisioneiros de guerra, confinados a um território rodeado de arame farpado.

Quando Mariazinha chegou a Liquiçá para filmar o sítio tinha passado a transição da infância para a adolescência, quis atravessar a pequena vila sozinha. Procurou um a um os lugares onde tinha assistido a espancamentos, doenças, humilhações, sentido a angústia e a dor dos pais, onde passara uma fome inominável e vivera a maior solidão que conheceu.

Nessa deambulação emocional, foi seguindo o faro da memória, como se tivessem sido semeadas pequenas pedras que lhe indicavam os caminhos, e encontrou o mercado onde assistira às lutas de galos, a casa onde vivera, o lugar da horta que plantara, as árvores que subira para procurar as mangas verdes e nós das raízes para matar a fome e que aprendera a conhecer. Apesar do inferno por que tinham passado, a presença mais forte que guardara desses anos fora a aprendizagem da natureza e o espanto daquela paisagem.

“Eu era uma criança muito sozinha e vivi tudo aquilo tão intensamente que tudo ficou quase intacto na minha memória. Agora sei,tudo aquilo que sou devo a Timor”, recorda.

Também Luís Filipe Rocha, o realizador, lembra-se da forma impressionante como, nesses dias emocionantes e mágicos, aquela mulher de 83 anos, se tinha transfigurado quase na menina que fora, tão perto se encontra do seu núcleo mais primordial.

No último dia, em que fora prisioneira, quando o pai lhe dá a a notícia do fim da guerra, Mariazinha desata num pranto sem conseguir parar, deixando-se invadir por aquela torrente de água que também lhe trouxe “a forte sensação de estar viva.” Depois começa a caminhar descalça na estrada de terra, deixando que as sanguessugas lhe trepem pelas pernas e lhe suguem o sangue, pasmada com toda aquela força vital. Sozinha deambula pela floresta. Como uma despedida.