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Inês Barata Raposo: “Mais do que prazer, escrever é uma necessidade”

LUíS BARRA

Venceu o prémio Branquinho da Fonseca com “Coisas que acontecem”. Inês Barata Raposo trocou Lisboa por uma aldeia e ganhou tempo, sobretudo

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

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Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

Há um gato que quer saltar da camisa verde de Inês. Quer apanhar uma borboleta, que esvoaça à altura do colarinho. À semelhança do felino, Inês também deu o salto. Aos 24 anos, trocou Lisboa por uma aldeia da Beira Baixa com menos de 300 habitantes. E, de uma penada, ganhou vários prémios, com histórias que ali escreveu. Não sente falta de nada. Na casa para onde se mudou, as águas-furtadas ganharam um novo habitante: os livros.

Ganhou o Prémio Branquinho da Fonseca na categoria juvenil com a obra “Coisas que Acontecem”. Que história conta?
É sobre amizade e o fim da amizade, um tema um bocadinho tabu. A personagem principal é uma adolescente, que se zanga com uma amiga. Comecei pelo título. Andei uns dias com a expressão na cabeça, são “coisas que acontecem”, aquilo que nos dizem muitas vezes para desdramatizar, que minimiza o que sentimos. Comecei por desconstruir essa ideia. É tudo passado num dia.

É natural de Castelo Branco, onde viveu até vir para a universidade. Quando é que os livros entram na sua vida?
Sempre fui uma criança sossegada. Sou filha única. Negociava com os meus pais ler mais uma história, ou ler uma mais longa. Também tive sempre contacto com a terra e com o campo — os meus pais e avós eram de aldeias. Gostava muito de ouvir. A partir do momento em que me desenrasquei a ler, pelos 7 anos, estava entregue. Quando os meus pais me queriam ter sossegada, davam-me um livro. Ainda hoje, ando sempre com um na mala.

Quando surge a escrita?
Na adolescência. Ouvia muita música, e reproduzia as letras das músicas, ou tentava escrever as minhas. Ouvi hip hop e rap em língua portuguesa. Interessava-me a métrica, e também me mostrava um mundo ao qual 
eu não tinha acesso.

Em Lisboa, tira uma licenciatura de Ciências da Comunicação, uma 
pós-graduação em Artes da Escrita, e mestrado em edição de Texto. Como foi a mudança?
Adaptei-me muito bem. Não senti um choque entre a cidade pequena e a cidade grande. Não me fez diferença estar sozinha.

Depois, começou a escrever sobre Life & Style. Como foi essa experiência?
Gostei. Tive sorte, escrevi muito sobre família e relações, que são temas muito transversais. Deu-me a possibilidade de entrevistar e conhecer muitas pessoas. Depois, foram surgindo outras oportunidades, que achei mais interessantes. Nunca tive a ideia fixa de ter que ser jornalista. Fui experimentando.

O que a faz mudar-se, aos 24 anos, para uma aldeia da Beira Baixa?
Aranhas é a aldeia do meu pai, com menos de 300 habitantes. Ele tinha lá uma casa não habitada. E eu queria mudar. Foi um desafio.

Mas o que provocou o clique?
Estava a deixar-me consumir pela vida da cidade. Tinha cada vez menos tempo para as coisas que me interessavam — tempo para não fazer nada, tempo para mim, tempo para ler e escrever... Comecei a pensar como poderia resolver isso. Um verão, depois de uma semana nessa casa, perguntei-me: “Porque não?” Arrisquei. O meu namorado estava mais ou menos no mesmo comprimento de onda, e fomos.

E como é um dia típico lá?
Todos os dias, depois de tomar o pequeno-almoço, saio para passear a minha cadela. Tento fazer o meu trabalho da parte da manhã, para libertar a tarde para o desejado “tempo livre”. Ganhei tempo, sobretudo. Também tenho uma horta, onde costumo ir ao fim do dia. Serve de escape. Tirámos as culturas de verão — tomate, alface, beringela, pimento, abóbora, pepino. Agora, ficaram as couves, os brócolos, as cebolas.

Que trabalho faz uma redatora freelancer em Aranhas?
Escrevo sobretudo conteúdos para empresas. Para as minhas necessidades, chega perfeitamente. Já escrevi para uma empresa 
de lápides ou para uma churrasqueira portuguesa nos EUA. Ultimamente, tenho trabalhado com o segmento da moda de luxo. Só preciso de internet.

Este livro com que ganhou o prémio foi escrito lá?
Sim, ao longo de vários meses. Não o fiz a correr, nem a pensar 
no prémio. Foram 46 obras a concurso. Fiquei surpreendida, claro, 
mas há sempre uma parte de nós que acredita que é possível.

A mudança para a aldeia propiciou a escrita?
Não acho que um escritor se torne escritor por estar no campo. Essa ideia romântica, do escritor de janela aberta, a receber inspiração, não existe para mim. A única coisa que o campo tem a mais do que a cidade é o tempo.

As pessoas da cidade têm uma visão errada do campo?
Talvez... Mas não é vida para toda a gente. Nem tem de ser. Tenho amigos que me vêm visitar e depois regressam à cidade e perguntam “como é que consegues?”

No dia 28 foi lançado outro conto seu...
Sim. É um conto que integra uma antologia organizada pelo Centro 
de Estudos Mário Cláudio, perto de Paredes de Coura. O tema era 
a infância e fui selecionada. Chama-se “Uma Maçã por Dia”.

A infância interessa-a particularmente?
A passagem da infância para a adolescência é um território muito rico em emoções. Muito do que nos define está nesta fase da vida. A adolescência é o campo da amizade por excelência, a noção de grupo, de integração, 
de “quem sou eu no mundo”. Interessa-me muito, pelo lado híbrido.

Também foi selecionada para um concurso de Jovens Criadores, 
do Clube Português de Artes e Ideias, na categoria de Literatura.
Enviei um conto sobre a morte, o outro extremo. O confronto com a morte e o seu aspeto físico, o funeral, o nosso distanciamento face à morte. 
O facto de já não se morrer em casa. Era um texto que já tinha escrito.

Escrever para si é prazer ou dor?
Há um aspeto de cada. Não consigo conceber a ideia de cada palavra ser uma tortura. Mas há uma parte de sofrimento, que tem a ver com 
a expectativa, o que esperamos ser ou não capazes de produzir. Mais 
do que prazer, escrever é uma necessidade.

Como nascem as ideias?
Podem começar com uma frase que ouvi e depois tento desconstruir. Tiro notas, que meses depois encontro e me fazem pensar em algo. Tento escrever todos os dias, mas não me obrigo a isso. Não tenho um limite 
de páginas. Fico tão contente se escrever duas linhas ou duas páginas. Até porque podem ser duas páginas que depois são reduzidas a duas frases.

Passa tanto tempo a rever como a escrever?
Mais, normalmente. Tento pôr a ideia no papel e depois trabalhá-la. 
O corte é muito importante. Gosto de deixar passar algum tempo entre escrita e edição.