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Serralves propõe uma viagem ao mundo do realizador Jonas Mekas

O cinema de Jonas Mekas estará em destaque em Serralves

D.R.

É uma semana dedicada à cinematografia de um homem com 94 anos de idade, tido como o mais importante realizador de vanguarda norte-americano. Após ter chegado a Nova Iorque em 1949 como um exilado da Segunda Guerra Mundial, iniciou um longo percurso que o levou a trabalhar com artistas como Salvador Dalí, Andy Warhol, John Lennon ou Yoko Ono

André Manuel Correia 

“Em Nova Iorque ainda é inverno, mas o vento está cheio de primavera.” Esta é uma das frases encontradas em “Walden - Diaries, Notes and Sketches” (1969), o primeiro diário fílmico do cineasta Jonas Mekas. O filme integra o ciclo “Cinema na Linha de Fogo”, ao qual se somam outras nove produções do autor de 94 anos, colocado em grande plano em Serralves, no Porto, entre 13 e 19 de novembro. Um autor com uma abordagem direta. Crua. Com uma constante busca pela sublimação do real, onde a arte e a vida do autor se diluem na pureza de um aparente amadorismo, aperfeiçoado ao longo de décadas.

Aos 94 anos, Mekas é o mais representativo realizador norte-americano do cinema de vanguarda, tendo contactado e colaborado com artistas como Salvador Dalí, Andy Warhol, John Lennon ou Yoko Ono, após ter chegado a Nova Iorque em 1949 como um exilado da Segunda Guerra Mundial. Nasceu no paraíso, viveu o inferno e encontrou a glória nos Estados Unidos da América, onde mesmo aí foi obrigado a fintar a censura. Sempre distante dos holofotes de Hollywood, tornou-se num ícone da cultura underground, com um estilo singular e impressionista.

Programada por António Preto, a retrospetiva “Cinema na Linha de Fogo” acompanha as diferentes facetas criativas de um autor marcado pela experimentação, desde a fase inicial até produções mais recentes. A seleção de filmes tem início na próxima segunda-feira, pelas 21h30, com a projeção de “Guns of the Trees”, (1962), a longa-metragem de 87 minutos de estreia do artista. O filme marca uma diferença em relação a toda a restante obra de Jonas Mekas, focado, após o seu primeiro trabalho, na prática de “diários cinematográficos”, com uma vincada componente biográfica. No dia 15, o público é levado até “Reminiscences of a Journey to Lithuania (1972), enquanto no dia seguinte será exibido “Walden”, o primeiro dos filmes diarísticos de Jonas Mekas.

Em entrevista ao Expresso, António Preto, 42 anos, realça a pertinência de revisitar a obra de Jonas Mekas, cineasta que define como “revolucionário”, exemplo de um deslocado que sofreu na pele um processo de “descaracterização das pessoas” e alguém que “sempre perseguiu a necessidade de cada um construir a sua própria imagem e a sua própria representação”. “Não é de modo nenhum natural”, prossegue o programador de cinema do Museu de Serralves, “que sejam os outros a produzir a minha imagem e representações com as quais me devo identificar”. Numa época dominada pelas redes sociais, “talvez olhar para os filmes do Jonas Mekas permita pensar essa produção maciça de auto-representações que atualmente são a regra nas sociedades contemporâneas”, acrescenta o especialista.

O inverno trouxe o inferno

A 24 d de dezembro 1922, numa pequena aldeia agrícola, sem eletricidade, localizada no norte da Lituânia, nascia um menino. Cresceu naquele pequeno meio, onde viviam aproximadamente 20 famílias. Em 1941, no contexto do horror causado pela Segunda Guerra Mundial, tudo mudou, quando Estaline decretou a ocupação territorial dos estados bálticos.

“Considero que cresci no paraíso. Depois, os [soldados] soviéticos chegaram e trouxeram o inferno. E o meu paraíso acabou”. As palavras são do próprio realizador, no documentário “The Story of Jonas Mekas”, sempre com a jaqueta de trabalho azul vestida e a boina colocada na cabeça. O fascínio pela sétima arte foi semeado pelo irmão mais velho, o também realizador Adolfas Mekas. “Ofereceu-me uma câmara de filmar no meu aniversário. Na mesma semana, os tanques soviéticos chegaram através da velha estrada de terra. Foi quando captei as primeiras imagens com a minha pequena máquina”, recorda. “Os soldados vieram até mim, agarraram-me, tiraram-me a câmara das mãos, rasgaram a fita, atiraram a máquina ao chão e esmagaram-na com as suas botas. Foi o início da minha carreira cinematográfica, com aquelas primeiras imagens desfeitas debaixo das botas russas, cobertas pelo pó da minha aldeia”, conta o cineasta, poeta e crítico de ascendência lituana.

Em 1944, Jonas Mekas tenta abandonar o país, juntamente com o irmão, rumo a Viena, mas acabam capturados pelas forças nazis. São enviados para um campo de trabalho em Hamburgo, onde permanecem durante oito meses, antes de conseguirem escapar para uma quinta próxima da fronteira com a Dinamarca, na qual viveram escondidos. Passaram ainda por campos de deslocados no meio de uma Alemanha devastada, até que em 1949 a salvação chegou.

A primavera nova iorquina

O futuro era incerto. Vários grupos de refugiados começaram a ser enviados para a Austrália. Outros para o Canadá. A sorte de Mekas morava ao lado. “Era suposto irmos para Chicago, onde tínhamos emprego assegurado numa padaria”, lembra o realizador, no documentário acima referido. “Podia ter-me tornado num grande padeiro, mas assim que vi Nova Iorque pensei: ‘é de loucos ir para Chicago’. Cheguei a Nova Iorque como uma esponja, pronto para absorver tudo o que havia”, acrescenta o realizador, que teve de pedir dinheiro emprestado para comprar uma “Bolex” de 16mm. “Na nossa mentalidade, o cinema era Hollywood. Era tudo aquilo de que ouvíamos falar. Levei alguns anos até tomar contacto com o cinema avant-garde e várias sociedades cinematográficas nova iorquinas. Foi quando percebi o que realmente queria fazer”.

E o que Jonas Mekas queria fazer era captar fragmentos da realidade. A máquina de filmar acompanha-o para toda a parte. “A câmara é uma extensão das minhas mãos, tal como o pincel é o prolongamento da visão de um pintor. É tudo intuitivo”, explica o fundador da revista “Film Culture” e figura de proa do movimento “New American Cinema”, surgido em 1961, do qual também fez parte o artista plástico Andy Warhol, expoente máximo da pop art, influenciado pelos filmes de Mekas.

Um dos filmes exibido neste ciclo de cinema, a 17 de novembro, é “Lost, Lost, Lost” (1976), filmado ao longo de 15 anos, numa viagem desde o preto e branco até às imagens a cores. É como uma odisseia cinematográfica pela vida de Jonas Mekas, desde o momento em que chegou sem nada aos Estados Unidos. “Escapei da guerra, sobrevivi ao pós-guerra, suportei as memórias e as depressões. Foi como pegar em mil pedaços e conseguir uni-los. É aí que o filme termina. Podemos dizer que termina junto às portas do paraíso”, descreve o realizador de 94 anos, em “The Story of Jonas Mekas”.

A programação completa da seleção de filmes intitulada “Cinema na Linha de Fogo” pode ser consultada AQUI