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O desconhecido Veiga Simões

Compreendeu cedo a política racista e os campos de concentração do III Reich. Foi escritor, jornalista, político, diplomata e historiador. Enquanto embaixador em Berlim, assinou os vistos que salvaram muitos judeus na II Guerra Mundial. Salazar demitiu-o e o seu nome não ficou para a história

FOTO Município de Arganil / Biblioteca Municipal

Alberto da Veiga Simões (Arganil, 1888-Paris, 1954), intelectual e historiador, pertenceu à geração de António Sérgio (1883-1969) e Jaime Cortesão (1884-1960). Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, entrou, cedo, para a carreira diplomática. Entretanto, colaborou na imprensa, publicou os primeiros livros, incluindo poesia, memórias da vida estudantil coimbrã, teatro e os resultados dos primeiros passos dados na investigação histórica. Entre os últimos, destaca-se um estudo sobre as recentes tendências literárias, publicado em 1911 com o título “A nova geração: estudo sobre as tendências actuaes da literatura portuguesa”. A sua participação na revista “A Rajada” (1912), ao lado de Vergílio Correia e do muito jovem Almada Negreiros, revela também a sua ativa participação em movimentos literários e artísticos. Poucos anos depois, em resultado da sua colocação na Amazónia brasileira, os seus relatórios foram publicados em formato de livro, constituindo-se num monumento de análise económica e social — “Dàquem & dàlem mar: Portugal & a Amazónia: estudo de política económica”, em 1916, e “Interesses portugueses na Amazónia”, no ano seguinte.

O seu prestígio como diplomata foi reconhecido politicamente, o que lhe valeu a pasta de ministro dos Negócios Estrangeiros (1921), durante a Primeira República, num governo que não foi além dos cinquenta e nove dias: “O tempo suficiente para publicar a sua reforma”, defende Lina Madeira em “O mecanismo de (des)promoções do MNE: O Caso Paradigmático de Aristides de Sousa Mendes”, obra publicada em 2013 pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Uma reforma que, segundo informação que me foi prestada por Mário Matos e Lemos, incidiu na reorganização dos serviços consulares.

A partir de 1926, Veiga Simões remeteu-se a uma posição mais discreta dentro do MNE, foi colocado na Europa e concentrou-se nas suas investigações acerca dos primórdios da expansão portuguesa. A ele se deveu a ênfase posta na figura do infante D. Pedro, cuja biografia terá deixado em manuscrito, em oposição à figura de recorte salazarista do infante D. Henrique, enquanto príncipe casto. Em andanças por várias capitais europeias, na companhia da mulher — D. Maria Antónia, uma das divas da geração do Bristol — proferiu conferências, entre 1931 e 1932, na Haia e em Bruxelas, as quais foram reunidas em livro sobre relações internacionais, publicado em 1932, em francês, com o título “Les nouvelles orientations de la politique économique internationale”.

Em 1933, Veiga Simões foi nomeado ministro plenipotenciário em Berlim (Portugal não tinha na Alemanha representação ao nível de embaixada). Nos seus relatórios para Lisboa, passou a analisar a ascensão de Hitler. As políticas de expansão imperial alemãs, conforme escreveu de Berlim em abril 1938, assentavam no “primarismo confortável da doutrina nazista”, recorda Lina Madeira num outro livro, “Alberto da Veiga Simões: esboço biográfico”, de 2002. A sua oposição ao nazismo era, pois, inequívoca. Advertiu também que Portugal se deveria demarcar da Alemanha e optar por um alinhamento com a França e a Grã-Bretanha.

A partir de 1938, a sua correspondência com o MNE revela um envolvimento direto na concessão de vistos a judeus que procuravam emigrar e fugir da política racista do Reich. Porém, não se sabe quantos vistos terão sido passados por sua iniciativa nem em que condições concretas. Em Lisboa, nos círculos do MNE e da PVDE, existiam interpretações diferentes acerca da mesma política de concessão dos vistos, a par de diferentes sensibilidades em relação à figura de Veiga Simões.

Os gémeos Sousa Mendes

César de Sousa Mendes, irmão gémeo de Aristides, ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1932-1933, foi inimigo de Veiga Simões. Para César Mendes, “Veiga Simões estava associado a tudo aquilo que ele desprezava na I República, como as clientelas políticas e a discriminação contra os monárquicos como ele próprio” — citado por Rui Afonso em “Injustiça. O caso Sousa Mendes”, de 1990. César não se coibiu de perseguir o ex-ministro da I República, na sua passagem pelas Necessidades, instaurando-lhe um processo disciplinar e acusando-o de ligações aos comunistas franceses, como recorda Lina Madeira nas suas obras.

Inimigos. Os irmãos Sousa Mendes. César, à direita, era inimigo de Veiga Simões, cujo papel na concessão de vistos a judeus é muitas vezes esquecido quando se discute Aristides de Sousa Mendes

Inimigos. Os irmãos Sousa Mendes. César, à direita, era inimigo de Veiga Simões, cujo papel na concessão de vistos a judeus é muitas vezes esquecido quando se discute Aristides de Sousa Mendes

FOTO Município de Arganil / Biblioteca Municipal

A ascensão e queda de César Mendes do cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros surgiu, aliás, num contexto de intrigas nas Necessidades que transcendiam em muito a sua inimizade com Veiga Simões. Valeu-lhe o laço forte que tinha com Salazar e o facto de se poder vangloriar de ter trabalhado para “o triunfo do 28 de Maio”, escreve ainda. A antipatia de César Mendes em relação a Veiga Simões era recíproca e manifesta. E a mesma animosidade, embora em menor escala, era partilhada pelo seu gémeo, Aristides. Numa carta particular para a mãe, datada de novembro de 1924, César refutou as acusações de Veiga Simões respeitantes à sua participação em movimentos monárquicos e, lembrando um folheto da autoria do irmão gémeo que servia na carreira consular, intitulado “Para a história”, escreveu “o infame — referindo-se a Veiga Simões – nem o Aristides poupa e acusa-o de espião dos monárquicos quando esteve na Galiza”.

Em 1925, César participou numa cabala para desacreditar Veiga Simões. Um caso que se arrastou pelos jornais, com acusações feitas ao último na imprensa monárquica acerca do seu envolvimento em práticas de corrupção, homossexualidade e ménages à trois, num processo que foi inconclusivo por falta de provas. Foi neste contexto que Veiga Simões esbofeteou, tendo acabado por matar, Aníbal Soares, jornalista e diretor do “Correio da Manhã” e, depois, do “Diário Nacional”, autor da conhecida novela “Ambrósio das Mercês: Memórias”, de 1903, com prefácio de Carlos Malheiro Dias.

Será ainda de notar que tais conflitos e animosidades tinham, em geral, como contrapartida relações com amigos comuns, mantidas em função de interesses partilhados. Assim terá acontecido com o escritor e historiador da literatura Fidelino de Figueiredo, que manteve contactos tanto com César Mendes como com Veiga Simões. Existem cartas do último para Fidelino que foram publicadas, enquanto este último ficou a dever a César Mendes, pelo menos, a notícia de uma tapeçaria representando Vasco da Gama existente no Museu de Estocolmo, como se lê em “A Épica Portuguesa no século XVI”, de 1950.

Suspenso e demitido

O certo é que, em julho de 1940, Veiga Simões foi suspenso do seu posto, que serviu durante quase oito anos, e obrigado a abandonar Berlim. Em fevereiro de 1946, chegou a ser readmitido no MNE e nomeado embaixador na China de Chiang Kay-shek. Um cargo que se recusou a servir por se tratar de uma nomeação para um país extraeuropeu de um ex-diplomata que tinha servido num país como a Alemanha. A recusa valeu-lhe a demissão da carreira diplomática, embora seja difícil pensar nela sem que tivessem existido conversações prévias de Veiga Simões com o próprio Salazar. É que, na geopolítica mundial da época, a China de Chiang Kay-shek, sobretudo na sua oposição ao Japão, tinha o valor de potência mundial, a par dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da Rússia.

Por explicar ficam outros factos de diferente relevância, mas que sugerem o pouco que conhecemos das andanças internacionais e da real dimensão de Veiga Simões como intelectual, historiador, político e agente internacional. Refiro-me, antes de mais, à sua longa permanência em Berlim, entre 1933 e 1940, o que sugere interesse de Salazar pelo seu desempenho enquanto diplomata. Ou seja, o que levou o Estado Novo a manter num posto tão importante como Berlim um diplomata conotado com a Primeira República ou mesmo com os círculos da oposição? Esta é a primeira questão que se coloca.

Depois, muito pouco se sabe acerca dos seus últimos catorze anos de vida, os quais decorreram desde a sua suspensão e passaram pela sua demissão, por não ter ocupado o posto para o qual foi nomeado em 1946. Uma informação enigmática, que me foi em tempos comunicada pelo Professor João de Castro Nunes, mas que permanece por confirmar em termos de prova documental, revela que, logo após a II Guerra Mundial, Veiga Simões se encontrava próximo de Molotov, ministro dos Negócios Estrangeiros da União Soviética. Tal proximidade traduziu-se no facto de terem sido vistos no mesmo camarote da Ópera de Paris e de Veiga Simões ter integrado a delegação soviética em importantes encontros internacionais que se seguiram à II Guerra Mundial. A confirmarem-se tais factos, o que levou Veiga Simões a ir tão longe no apoio manifestado ao bloco soviético?

Casamento. Alberto da Veiga Simões e a mulher, D. Maria Antónia, uma das divas da geração do Bristol

Casamento. Alberto da Veiga Simões e a mulher, D. Maria Antónia, uma das divas da geração do Bristol

FOTO Município de Arganil / Biblioteca Municipal

Importa também não perder de vista a sua vida parisiense: a biblioteca que ali reuniu, a sua amizade com Merícia de Lemos, mulher portuguesa do grande antiquário internacional Kugel, e as suas relações com os círculos do antiquariato internacional. Terão ou não algumas das obras provenientes dos museus russos — como as que foram reunidas por colecionadores, nomeadamente magnatas norte-americanos — passado pelas suas mãos enquanto intermediário?

Por último, não esqueço as informações orais que, há mais de vinte anos, Ferreira da Costa, da antiga Livraria Sá da Costa, me facultou acerca de Veiga Simões. Falou-me, então, dos cadernos em manuscrito que chegou a ver, os quais continham algumas das suas obras inéditas, entre as quais a biografia do infante D. Pedro (1392-1449). Acrescentou, também, um desabafo acerca das excentricidades de Veiga Simões, quando fazia, daquela livraria ao Chiado, o seu escritório. Não sei como conciliar os hábitos mundanos e citadinos de Veiga Simões, por parte de quem andara pela Europa, com a ideia de que a sua casa de Arganil permaneceu durante anos sob apertada vigilância por parte da polícia secreta de Salazar. Mas o mais importante é pensar que a grande cumplicidade do casal Veiga Simões — que subsistiu às difamações de que Artur da Veiga Simões foi alvo em meados da década de 1920 — talvez ajude a compreender o suicídio da mulher, ocorrido em casa do empresário Amadeu Gaudêncio, dois anos depois da morte do marido. Ou seja, um caso de paixão e de desespero!

Vida e obra escrita

Desde que Vitorino Magalhães Godinho, na introdução aos “Factores democráticos na formação de Portugal”, volume primeiro das obras completas de Jaime Cortesão, se referiu às investigações históricas de Veiga Simões — sublinhando a sua originalidade e colocando-as a par das do próprio Cortesão —, existe um interesse dos meios historiográficos pela sua obra. Aliás, as obras de ambos foram elogiadas por historiadores como Lucien Febvre e Fernand Braudel. Mais recentemente, as principais publicações de Veiga Simões foram reunidas num pequeno livro, em edição cuidada, pelo historiador Marques de Almeida. Paralelamente, foi-lhe dedicada uma minuciosa biografia e a sua autora, Lina Madeira, prestou um grande serviço ao publicar os referidos relatórios de Berlim. A mesma historiadora é também autora de uma monumental e bem conduzida tese sobre Aristides de Sousa Mendes, na qual a solidez da investigação arquivística destrói, em definitivo, mitos e invenções acerca do cônsul de Portugal em Bordéus. Nesta mesma sequência, importa notar que algumas investigações têm aprofundado a estada de Veiga Simões em Berlim, enquanto diplomata, e discutido as razões da sua demissão.

Quanto aos relatórios de Veiga Simões sobre a Amazónia, trata-se de documentos que estão por estudar, à luz das tendências económicas daquela vasta região, no primeiro quartel do século XX, a começar pela produção e comercialização da borracha. Pouco ou nada se sabe acerca das suas sociabilidades intelectuais, muito em particular da sua proximidade com o historiador da arte Vergílio Correia (com correspondência trocada entre ambos, na Torre do Tombo). Foi, aliás, Câmara Reys quem se referiu aos seus bens e papéis, mais aos da sua mulher, como tendo sido doados “à viúva de um seu outro amigo, de vida tão curta, Vergílio Correia”, mas o certo é que a sua biblioteca acabou por ser leiloada em Paris — como se comprova em “Veiga Simões, Estudos de História”, de 2004. Terão os descendentes de Vergílio Correia conservado os célebres manuscritos? Há cerca de trinta anos, foi-me garantido que sim, mas perdi o rasto e os contactos.

Outros núcleos de correspondência e de manuscritos são conhecidos: as suas cartas para António Sardinha estão na biblioteca da Universidade Católica; a sua correspondência com Fidelino de Figueiredo encontra-se no Instituto de Estudos Portugueses da Universidade de São Paulo; as suas trocas epistolares com Rocha Madahil foram localizadas por Lina Madeira na Biblioteca Municipal de Coimbra; Daniel Pires colecionou algumas cartas suas; e comprei, há anos, uma coleção das suas cartas para Domingos Lavadinho, diretor do Arquivo de Elvas, ao falecido Silveira, alfarrabista na Rua da Misericórdia. Porém, a grande expectativa, em termos de materiais inéditos e de correspondência privada para a sua mãe, além de registos fotográficos que poderão provar o seu envolvimento a nível internacional depois de Berlim, diz respeito ao acervo reunido pelo professor e arqueólogo João de Castro Nunes, cuja catalogação e tratamento se impõem.

Interpretações e hipóteses

Se o pouco que conhecemos acerca de Alberto da Veiga Simões continua a estar rodeado de incertezas, estou convencido de que a sua grandeza intelectual, tanto quanto a sua coragem moral e política sugerem algumas hipóteses interpretativas que futuras investigações terão de verificar. Um aspeto de particular sensibilidade diz respeito à sua atuação em Berlim. Ao coligir informação e escrever pormenorizados relatórios, Veiga Simões desmontou a construção de um sistema político totalitário, nazi, e denunciou, precocemente, a existência de uma política racista ligada à organização de campos de concentração.

Quanto à concessão de vistos a judeus, trata-se de um facto documentado na sua correspondência para o MNE. Uma correspondência, como não poderia deixar de ser, pejada de ambiguidades de sentido que importa ler com cuidado, incluindo uma espécie de jogo retórico derivado de o seu autor estar consciente de que se encontrava numa corda bamba, que acabou com a sua suspensão do cargo de ministro plenipotenciário em Berlim. Por apurar está, ainda, o número de vistos que passou, em Berlim, no centro do furacão, e por interpretar estão as suas referências, na correspondência com Lisboa, aos interesses que deveriam sustentar uma política de concessão de vistos, que nada deveria ter de humanitário, pois apenas se deveria atender à proteção aos mais ricos — importante, a este respeito, é mais uma vez a interpretação fundada numa certeira crítica das fontes de Lina Madeira, em “Alberto da Veiga Simões...”.

As comparações que têm sido feitas entre Veiga Simões e Aristides de Sousa Mendes no que respeita à questão da atribuição de vistos a judeus também merecem um exame atento. O primeiro, ministro plenipotenciário, da carreira diplomática, tinha responsabilidades bem diferentes das atribuídas a um cônsul de carreira; e Berlim, no centro do império nazi, não era Bordéus. Não caberá, aqui, passar em revista os estudos de Avraham Milgram, Irene Pimentel, Cláudia Ninhos, e Ansgar Shaefer que procuraram fazer comparações entre a atuação de ambos. Sobre as operações de mitificação de Aristides de Sousa Mendes enquanto opositor de Salazar não poderão ser ignoradas as opiniões dos embaixadores Carlos Fernandes e João Hall Themido. Este último insistiu no conhecimento que haveria nas Necessidades do fluxo anormal de refugiados na fronteira, causado pela concessão de vistos, que os cálculos mais irrealistas elevaram até 30 mil e que, segundo relatos britânicos referidos em “Uma autobiografia disfarçada”, de 2008, incluiriam vistos pagos.

O mais importante é que dispomos, hoje, de estudos bem documentados da autoria de Lina Madeira. Neles ficam demonstrados dois argumentos principais. Primeiro ponto, a concessão de vistos por parte de Aristides Mendes em Bordéus corresponde a um quadro processual e legal que era integrado e conhecido por Salazar e pelo Estado Novo, incluindo pela PVDE. Por isso, o mito de um Aristides opositor de Salazar e capaz de atuar individualmente, de modo isolado, é uma invenção tardia que a análise histórica rigorosa não confirma. Pelo contrário, as afinidades dos gémeos Sousa Mendes com o Estado Novo foram muitas. Segundo ponto, a política de neutralidade seguida por Salazar obrigou a que, uma vez passados os vistos, Aristides fosse deixado cair, para que o Estado português pudesse ser ilibado e não perdesse a face. Conforme provou Lina Madeira, referindo-se à intervenção capital daquele que era, então, embaixador em Madrid, Pedro Teotónio Pereira: “Ilibava-se o embaixador de Portugal em Madrid, culpava-se o cônsul, de carreira, em Bordéus”. Acrescente-se, ainda, que, durante o tempo em que foi alvo de um processo disciplinar, Aristides foi suportado pelos irmãos, César e outro, pois esteve sem salário nos meses após ter sido colocado na disponibilidade; a pena de inatividade durante um ano valeu-lhe um corte de metade do vencimento; mas, ao fim de um ano, recuperou a totalidade do salário.

Por todas estas razões, talvez valha a pena suspender os juízos acerca de Veiga Simões e as comparações com Aristides Mendes, pois estas acabam por diminuir a grandeza daquele, além de se basearem numa leitura demasiado linear da sua correspondência oficial com Lisboa. Ao procurar outros ângulos de interpretação, esclareço, corro o risco de que o meu fascínio pela figura em causa — ou seja, a minha convicção de que, sob a capa de uma personalidade excêntrica, se escondem grandeza e heroísmo — interfira com o rigor crítico e analítico. Ora o modelo a seguir, fundado em provas e verificações documentais, deverá inspirar-se na investigação rigorosa de Lina Madeira sobre Aristides de Sousa Mendes.

Historiador por cumprir e agente internacional

Da perseguição, demissão e exílio de Veiga Simões, não resultou a escrita de nenhuma grande obra de história (como aconteceu com Pirenne, Bloch ou Braudel — ver caixa). Porém, algumas passagens da sua correspondência revelam que o seu interesse pela investigação histórica se manteve vivo, ao longo da década de 1940. Nas suas cartas há mesmo indícios de que andava à cata de documentação que demonstrasse a existência de plantações de cana de açúcar no Sul de Portugal, já no século XV. Talvez tentasse, a todo o custo, prosseguir as suas investigações acerca dos primórdios do capitalismo à escala do Atlântico. Porém, as condições de instabilidade em que se encontrava e possivelmente a atração suscitada por um envolvimento direto nos grandes assuntos de política internacional não lhe permitiram prosseguir o trabalho rotineiro requerido pela investigação e escrita da história.

Ao contrário de Braudel — que privilegiou o estudo das grandes estruturas de formação e desenvolvimento do capitalismo, apelando à longa duração e ao processo de construção da modernidade —, Veiga Simões acabou por ser sugado pelo ritmo nervoso dos acontecimentos políticos do seu tempo. Ou seja, a sua participação nos grandes eventos internacionais desviou-o do seu laboratório de historiador. Quanto ao seu envolvimento político, diga-se de passagem que já anteriormente se queixara, em carta de agosto de 1927, do “Pátio das osgas da política nacional” e assumira “que o pouco do muito que desejo fazer ao meu país, só lho posso fazer cá fora”, acrescentando: “Tenho vivido, de alguns anos para cá, numa trepidação constante. Entreguei-me demasiado a duas coisas absorventes: a política e a diplomacia”.

Tão pouco se poderá dizer que a sua oposição ao regime de Salazar tenha sido determinada, apenas, por uma militância demo-republicana. Talvez fosse mesmo melhor falar a este respeito, como numa carta de Veiga Simões para António Maria Monteiro, nos valores do “republicanismo” e do “patriotismo sempre moço”, associado à “fé imaculada nos destinos da pátria” (Coleção de Daniel Pires). Foi o que sucedeu com António Sérgio e Jaime Cortesão, autênticos heróis pela sua coragem moral e política. Ambos vilipendiados pelos seguidores de António Sardinha, tais como Manuel Múrias que se referiu com inusitada violência e desprezo em relação ao primeiro na “Nação portuguesa”, em 1925 , aludindo à sua “impermeabilidade craniana (...) que outros de meias letras arvoram em mentor da inteligência portuguesa”.

Os contactos de Veiga Simões com a União Soviética — determinados, talvez, pela ideia de que um alinhamento com o Leste seria a grande forma de oposição aos regimes autoritários, de inspiração nazi e fascista — sugerem outra ideia de resistência, concebida a uma escala internacional, da qual veio a resultar a Guerra Fria. Dúvidas também existem — apesar do pouco que se sabe do seu empenho na concessão de vistos, contra as ordens recebidas de Lisboa — a respeito do modo como Veiga Simões concebeu a proteção aos judeus nos anos finais que serviu em Berlim. Porém, a ter em conta a teia de ligações internacionais que foi estabelecendo, Veiga Simões mais parece ter passado a ser um agente com capacidade para operar a nível internacional. As suas ligações a Molotov, apesar de terem sido referidas para um período posterior, sugerem que a esfera em que ele passou a operar era de outro teor. É que a atuação de Veiga Simões só a custo pode ser reduzida a um mero confronto no interior do regime de Salazar, bem como aos termos da antinomia constituída pela perseguição racista desencadeada pelo nazismo versus a resistência dos judeus.

Em suma, a hipótese de trabalho que aqui sugiro e que investigações rigorosas terão de confirmar é que Veiga Simões considerou e agiu como se a II Guerra Mundial não se explicasse, apenas, pelo Holocausto — embora estivesse bem consciente da dimensão de tal barbárie e precocemente a tivesse denunciado —, mas como um conflito internacional do qual resultou a Guerra Fria. Nesse mesmo conflito, terá Veiga Simões alinhado com o bloco soviético, acabando por voltar as costas à Europa e aos Aliados, com as suas tradições parlamentares e demo-republicanas? Terá ele pensado que a União Soviética se constituía no garante de oposição aos regimes autoritários, nazis ou fascistas, como defendeu, até ao fim da vida, esse outro grande historiador de inspiração marxista, Eric Hobsbawm? São estas as interrogações que ficam por esclarecer.

Não se exclua, porém, a possibilidade de o mesmo Veiga Simões ter chegado a atuar como uma espécie de agente duplo. Ao ponto de Salazar, logo que pôde, após a II Guerra Mundial, o ter nomeado para um posto tão vital para Portugal e os seus interesses no Extremo Oriente, quanto a China. A confirmarem-se tais hipóteses, é de reconhecer que talvez não se consiga apontar outro português com a lucidez e a visão para se transformar num agente internacional e com a capacidade para sobreviver à II Guerra Mundial, atuando entre as duas novas grandes potências (mais recentemente, só José Cutileiro se terá erguido ao mesmo estatuto de grande negociador internacional).

Última nota, a respeito de possíveis comparações a fazer entre Veiga Simões e Aristides Mendes: não será que ambos acabaram por representar duas modalidades diferentes de pôr em prática a mesma política de neutralidade adotada por Salazar? Por um lado, Veiga Simões na sua longa estada em Berlim, parece ter representado a figura do diplomata capaz de manter Salazar objetivamente informado por quem era explicitamente contrário ao nazismo. De outro modo, não fosse o desejo de recolher a mesma informação, afigura-se muito difícil que Salazar o pudesse ter mantido num posto tão sensível quanto o da Alemanha durante um período tão longo quanto crucial. Mais: o seu envolvimento na questão dos vistos a judeus ricos, à primeira vista, não revelará que a política de simpatia e atração de Salazar em relação ao nazismo não incluía todas as suas componentes; muito em particular, ficava de fora o racismo antijudaico que dificilmente podia ser partilhado pelos meios oficiais portugueses.

Por outro lado, o cônsul Aristides de Sousa Mendes — que, a par do irmão gémeo, era um apoiante do Estado Novo e nunca parece ter tomado posição contra o nazismo — agiu em Bordéus em conformidade com a política de neutralidade de Salazar. Por isso, foi capaz de facilitar o exílio de uns milhares de judeus, num momento decisivo do avanço das tropas nazis em território francês. Aliás, ambos foram suspensos dos seus postos, para que Salazar pudesse prosseguir a sua política de neutralidade. Ambos acabaram por ser readmitidos nas suas carreiras e só Veiga Simões acabou por ser demitido e não ter direito a uma pensão. Entretanto, os contactos internacionais deste último, mais os seus alinhamentos individuais permitiram-lhe encontrar outras saídas e outros modos de vida. Pelo caminho, abandonou ou não conseguiu concretizar os seus projetos de investigação histórica. E, na falta de herdeiros diretos, sempre na companhia de sua mulher, terá tido uma vida mais solta e aventurosa, porventura mais livre de preconceitos.

Talvez, por isso, não se constitua nem num enigma nem num modo gratuito de o rebaixar aceitar como verdadeira, e não despicienda, uma outra informação que também me foi transmitida por Ferreira da Costa, da antiga Livraria Sá da Costa. Já na década de 1950, quando conseguiam passar por Lisboa, aos fins de tarde, Alberto da Veiga Simões e Maria Antónia subiam o Chiado e, ao virar da esquina, já na Rua da Misericórdia, depois da Igreja do Loreto, davam um pé de dança no Bico Dourado... A velha tradição do Bristol não desaparecera! E, se importa saber ao certo se era Shegundo Galarza ou Eugénio Pepe quem ali tocava, mais importante se afigura perceber como é que a grandeza de alguém como Veiga Simões era compatível com os prazeres da vida mundana. Longe, muito longe — felizmente —, dos que pretendiam fazer crer que só na austeridade solitária dos gabinetes se poderiam assumir responsabilidades sérias de condução da vida pública, pois só assim se conseguia alcançar a famigerada elevação sagrada, associada a uma suposta seriedade moral, própria da vida monástica.

histórias da História

Três dos maiores historiadores europeus foram perseguidos durante as grandes guerras do século XX. A ponto de algumas das suas obras só poderem ser compreendidas à luz desse mesmo contexto de perseguição e luta. O belga Henri Pirenne conheceu as prisões alemãs durante a I Guerra Mundial (1914-1918), onde escreveu uma história da Europa, muito crítica do expansionismo germânico, que só veio a ser publicada postumamente. Marc Bloch foi preso e fuzilado por pertencer à Resistência francesa na II Guerra Mundial (1939-1945). Deixou em manuscrito “L’étrange défaite” — um dos maiores manifestos da consciência cívica e do sentido da responsabilidade dos intelectuais europeus frente aos regimes autoritários do século XX (não existe tradução portuguesa). Fernand Braudel, passou parte da II Guerra Mundial internado num campo de concentração nazi. Foi lá que escreveu “O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Filipe II” (tradução portuguesa da Dom Quixote). Nesta obra-prima, o historiador francês relativizou a importância dos acontecimentos políticos – dos quais ele próprio era vítima, pois encontrava-se preso – para sublinhar o papel determinante ocupado nos processos históricos pelas grandes estruturas geográficas, económicas e civilizacionais. A esta pequena lista poder-se-iam somar os nomes de muitos intelectuais judeus, tais como Erich Auerbach, Hannah Arendt ou Norbert Elias. A maior parte deles conheceu os caminhos do exílio, com pontos de chegada variados, indo de Istambul aos campos universitários norte-americanos. E as suas obras carregam as marcas da perseguição de que foram alvo ou mesmo do Holocausto.

Entre os intelectuais portugueses perseguidos pelo Estado Novo contam-se alguns dos mais importantes historiadores portugueses. Até muito tarde, ao contrário do que sucedeu com Pirenne, Bloch e Braudel, os portugueses trabalharam à margem das instituições académicas, uma vez que se confrontaram com uma inserção tardia do ensino e da pesquisa histórica na universidade. António Sérgio, ensaísta movido por um espírito de síntese que o levou a abraçar a história, e Jaime Cortesão, talvez o maior historiador português da primeira metade do século XX, foram alvo de perseguição pelo regime de Salazar. Por isso, ambos enveredaram pelo exílio, fugaz no caso do primeiro e mais prolongado no do segundo.

Só com a entrada em cena de gerações mais novas, os historiadores portugueses passaram a trabalhar na universidade, o que despoletou novas formas de perseguição em relação aos que não se encaixaram nas expectativas oficiais do Estado Novo. Nestes casos, a demissão ou marginalização dos que resistiam ao “bom” funcionamento da instituição académica anteciparam a necessidade de fuga ou o exílio. Foi o que sucedeu com Vitorino Magalhães Godinho quando rumou a Paris. Enquanto os que se acomodavam ou favoreciam as lógicas do regime – os historiadores Damião Peres e Virgínia Rau, o jurista Adriano Moreira, o geógrafo Orlando Ribeiro ou o economista dobrado de sociólogo Sedas Nunes – abriram as portas à institucionalização académica da pesquisa.

*Historiador

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 28 de ouubro de 2017