Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Julián Fuks: “Há uma certa sanha pelo retorno do autoritarismo”

tiago miranda

Lançou “A Resistência”, venceu o Prémio Literário José Saramago e foi pai. À conversa com o Expresso, o brasileiro Julián Fuks falou sobre o seu caminho na literatura, a política e os perigosos passos dados pelo mundo nos últimos tempos. Ao fundo, o horizonte que vê é distópico

O que lhe trouxe de novo o Prémio José Saramago? Sente que já mudou alguma coisa?
Aqui em Portugal muda bastante, aparentemente. Sinto que esse prémio dá uma projeção grande, e com uma certa razão, porque a lista dos outros autores que ganharam anteriormente parece uma lista muito certeira. A minha escolha é à parte. E tenho a impressão de que a literatura às vezes precisa de um gatilho para que as pessoas cheguem no livro. Que de facto se entreguem naquela leitura. Talvez gostem, talvez recomendem. E funciona um bocado como um gatilho à parte. Pode ser que isso ajude, acredito que pode ajudar.

E este “A Resistência”, o que tem de diferente?
Sinto que desde o início foi um livro diferente, porque me exigia a máxima sinceridade possível no ato da escrita. Um compromisso comigo mesmo que eu não tinha com ninguém. Era preciso falar as coisas tal como elas se deram, pelo menos em algum nível. Com certos ajustes e deslocamentos que são próprios da ficção, mas a princípio tentando ser o mais fiel possível ao sentido das coisas que aconteceram, a um certo passado que é meu e não é meu. E sinto que a leitura do livro se deu também a partir dessa sinceridade. As pessoas entregam-se ao livro aberta e francamente em função disso. Acho que há algo no livro que convida a uma intimidade. Os leitores têm aceitado esse convite.

Transpor essa sinceridade de que fala para o livro foi um processo moroso?
Menos que outros, mas eu sou sempre lento. “Procura do Romance” demorei quatro anos para escrever e são livros curtos de um modo geral. “A Resistência” demorei dois anos e meio, algo assim. É um livro mais curto ainda, só que o processo em si é um processo razoavelmente rápido. A questão é que quando estou escrevendo um livro não passo necessariamente todos os dias nele. Há momentos de aproximação e de afastamento. Sinto às vezes que tenho de parar, que tenho que elaborar comigo mesmo por onde seguir. Não tenho a clareza absoluta do caminho que devo tomar. O livro em si é um processo de elaboração não só daquelas vivências do passado mas também da própria escrita e do sentido do que se está construindo. Às vezes vale a pena parar e pensar um pouco e não precipitar na página algo que depois vai ser difícil de corrigir.

Como é que se mantém essa disciplina na escrita?
Tem um imperativo, algo que comanda a escrever, que comanda a levar a sério aquele projeto que no fundo é muito pessoal. Ninguém te exigiria a escrita de um livro. Você se propõe escrever esse livro e esse compromisso exige certa disciplina, como você disse. Não é uma disciplina austera no meu caso. Não é uma coisa que eu deva cumprir todos os dias. Eu sou indolente comigo mesmo. Sou permissivo e digo ‘Bom, se neste dia não fui capaz, não me veio, tive um momento de clareza para escrever, não escrevo e escrevo outro dia’. Ultimamente tem sido por outras razões. Tive compromissos de outras ocupações, de filha que nasceu, e vou me afastando da literatura. Mas algo ali ao fundo sempre está me dizendo que devo escrever, esse algo para mim está claro que não vai desaparecer. Em algum momento vou chegar a escrever de novo, vou voltar para o livro que eu interrompi.

Muda alguma coisa na cabeça de um escritor, quando o escritor se torna também pai?
Muda na cabeça de qualquer um. Não sei dizer em específico na cabeça de um escritor. Pessoalmente, sinto que há algo que se relaxa quando se tem um filho, quase que contraditoriamente até pela responsabilidade grande de cuidar de uma criança. Se rompe uma certa fronteira entre privado e público. Quando tenho a minha filha nos braços tenho de ser a mesma pessoa dentro de casa e fora de casa, tenho de brincar com ela da mesma maneira. Então há algo da domesticidade que acaba extravasando esse espaço doméstico e se apresentando em público, em espaços públicos. E isso para mim foi um relaxamento e foi muito positivo, me sinto melhor quando estou com ela. Claro que tem uma série de outras coisas que mudam, mas essas ainda estou assimilando e um dia vou escrever sobre isso, mas ainda preciso de elaborar.

tiago miranda

Já está a escrever algo de novo?
Estou escrevendo um romance já há algum tempo, embora tendo avançado não muito nele mas já com bastante pensamento a respeito. Um romance que tem como título “A Ocupação” e que tem alguma relação com “A Resistência”. O ocupar e o resistir, que seria o ato político mais fundamental de momento, está refletido ali nos dois livros. “A Ocupação”, como “A Resistência”, deve ser entendido ambiguamente.

De que tipo de ocupação estamos a falar?
É a ocupação de um edifício no centro de São Paulo, onde eu fiz uma espécie de resistência artística — passei alguns meses convivendo com esses moradores que antes eram sem teto —, mas é também a ocupação do corpo de uma mulher grávida, a questão da gravidez. Sinto que podia conhecer um pouco melhor e assim já posso escrever a respeito. Ainda não tanto sobre a paternidade, mas as questões de paternidade aparecem também. A escrita se converte numa espécie de autoexílio. Essa ocupação do centro de São Paulo se converte numa ocupação central da vida desse escritor e se propõe também a uma noção de literatura ocupada. Ocupada pela política, ocupada por esses temas prementes do presente. Essa noção mais vaga e ampla que guiaria o novo romance.

Como vê a situação política atual?
Com uma extrema preocupação. Vejo um conjunto surpreendente de retrocessos que se dá praticamente em toda a parte. No Brasil em particular, num processo completamente antidemocrático desde o golpe parlamentar e uma sequência de cassação de direitos. Há uma escalada de um autoritarismo, ou de um desejo de autoritarismo que talvez seja ainda mais grave. Há uma certa sanha de parte da população brasileira pelo retorno do autoritarismo, que a gente acreditava já superado. E seria já assustador olhar só para o Brasil mas você ergue o olhar e vê, em tantas partes do mundo, fascismos renascendo e ganhando força. É tudo um pouco assustador nesse momento, um momento em que o mundo pode tomar caminhos imprevistos bastante trágicos. Claro que há bons exemplos de lugares onde uma certa racionalidade continua prevalecendo. Parece que Portugal é um dos pontos que a gente pode ver que conseguiram-se reerguer e se organizar depois de uma crise. Penso que há saída. Não gosto do pessimismo absoluto no campo da política, me parece que política com pessimismo é talvez a pior das combinações.

O que leva as pessoas a identificarem-se com um regresso ao autoritarismo? É o desespero, é a falta de uma consciência histórica…
Acho que são duas boas hipóteses e provavelmente que se conjugam. No Brasil surge dos grupos mais apolíticos, dos grupos que menos entenderam a história do país, que não sabem bem o que isso significa. Vem de um exercício constante da desinformação, da informação equivocada. As tomadas de posição desses grupos são sempre mal-informadas, são sempre a partir daquilo que tem se chamado de pós-verdade. Um facto que se cria e que é difundido. Depois as pessoas reagem fortemente a algo ao qual não deviam reagir. Aconteceu recentemente com manifestações artísticas, tentativas de fechamento de exposições, de museus, interrupções de peças teatrais. Toda uma série de atos de censura que não se imaginaria vindos de uma população, que historicamente viriam de um Estado, de um governo.

Que explicação vê para essas mudanças no comportamento da população?
Talvez não deixe de ser fruto daquilo que sempre se falou de fim das utopias. As pessoas não encontram mais projetos aos quais possam se vincular simbolicamente, não conseguem sonhar com outro mundo que faça mais sentido do que este e surge algum niilismo político. Acho que vários dos resultados recentes em consultas públicas parecem ter uma resposta a esse niilismo. Nada me interessa, então eu quero mudar tudo. O que quer que seja. A eleição do Trump parece-me que tem isso. As pessoas não tinham uma apreciação particular por ele, apenas queriam mudar esse sistema que não me interessa mais. Mas mudam sem norte ou sem perceber que estão só agravando o problema. A saída do Reino Unido da União Europeia parece-me também responder a esse fenómeno. Um voto um pouco sem pensar, imprevisível, só para mudar algo sem pensar nas consequências dessa mudança.

É uma troca da utopia pela distopia?
Pode vir a ser, faz sentido. Pelo menos é a troca neste momento de um horizonte utópico por um horizonte distópico.