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Porto/Post/Doc: sentir o pulso do cinema do real no coração do Porto

"The Beguiled", da realizadora Sofia Coppola

Ben Rothstein / Focus Features

A quarta edição do Porto/Post/Doc volta a invadir a baixa portuense com aproximadamente uma centena de filmes, entre 27 de novembro e 3 de dezembro. A programação arranca a com antestreia nacional de “The Beguiled”, de Sofia Coppola

O coração da Baixa do Porto volta a medir a pulsação ao cinema documental, através da quarta edição do festival Porto/Post/Doc (PPD), com uma programação muito centrada no tema da memória, com filmes que recorrem a imagens de arquivo, encarando a sétima arte como uma arca videográfica da própria humanidade. É a celebração do cinema do real, mas também um espaço para parar, ver e pensar, de 27 de novembro a 3 dezembro. O festival arranca com a antestreia do filme “The Beguiled”, pelas 21h30, no Rivoli, da multipremiada realizadora norte-americana Sofia Coppola, inserido na nova secção programática “Highlights”.

Além dos 12 filmes a concurso na competição internacional — todos em estreia ou antestreia — e das diversas programações paralelas, existem também três focos dedicados a outros tantos cineastas, sendo que um deles incide no trabalho do realizador francês Jean Rouch, intitulado “Cinema-Verdade: 100 Anos de Jean Rouch”, no qual serão exibidos vários filmes recentemente restaurados, tais como “Cronique D’un Été” (1961) e “Moi, un Noir” (1958). “Trata-se de um cineasta e antropólogo muito importante, que trabalhou imenso os temas da realidade e do confronto de culturas, nomeadamente entre a Europa e a África”, explica o codiretor artístico Dario Oliveira, em entrevista ao Expresso.

Os filmes não podem mudar o mundo, mas ajudam a pensá-lo

As outras retrospetivas incidem sobre a cinematografia de dois artistas contemporâneos, o checo Miroslav Janek — com destaque para o filme “The Unseen”, exibido a 1 de dezembro, pelas 16h30, no Rivoli — e o canadiano Peter Mettler, este último com presença confirmada no festival e com um trabalho muito focado nas alterações climáticas.

Também com as preocupações ambientais como pano de fundo, é apresentado “An Inconvenient Sequel: Truth to Power” (2017), um documentário protagonizado por Al Gore. “Os filmes que mostramos podem não mudar o mundo, mas fazer-nos pensar. É quase um serviço público”, considera Dario Oliveira. “Ultrapassam o simples transcrever dessas realidades e são trabalhos que provocam uma experiência intelectual e emocional memorável, fazendo-nos pensar o sentido da vida de uma forma muito mais arrojada e informada”, complementa o curador do PPD.

No total, são aproximadamente 100 filmes para ver ao longo de uma semana, com a programação maioritariamente centrada no Teatro Municipal Rivoli, mas alastrando-se também ao Passos Manuel, Maus Hábitos e ao auditório da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, local onde vão decorrer ‘masterclasses’, sessões e aulas de cinema. O evento conta igualmente com cinco concertos/performances audiovisuais, como por exemplo

Um festival de cinema que sabe dar música

O Porto/Post/Doc é um festival de cinema que também sabe dar música, através da secção programática “Transmission”, na qual são exibidos diariamente no Passos Manuel, sempre pelas 22h, documentários sobre bandas e músicos, sendo disso exemplo “Grace Jones – Bloodnight and Bami”, de Sophie Fiennes, que percorre os últimos dez anos de vida da estrela pop dos anos 1980, ou ainda “B-Movie – Lust & Sound in West Berlin 1979-1989”, um documentário que espelha o panorama musical na parte ocidental da cidade dividida pelo muro durante a Guerra Fria.

O documentário “White Riot: London” (2017), de Rubika Shah, é exibido a 2 de dezembro no Passos Manuel e leva o público a viajar até à capital do Reino Unido, recuando até ao ano de 1977, quando o discurso neonazi ganhava popularidade e uma comunidade de artistas — ligados ao movimento punk — decide criar uma fanzine insurgente e de denúncia intitulada “Temporary Hoarding”.

Também em estreia, no dia 28 de novembro, é apresentado no Porto/Post/Doc o documentário “Long Way From Home”, um trabalho que mostra a história dos 25 anos do emblemático festival Paredes de Coura, realizado por João Diogo Marques e Luís Sobreiro. “Não Consegues Criar o Mundo Duas Vezes”, de Catarina David e Francisco Noronha, faz uma viagem até à génese e ao crescimento da cultura hip-hop nas cidades do Porto e Vila Nova de Gaia, onde despontaram grupos como Dealema ou Mind da Gap.

O sonho adiado por Rio chegou a bom Porto

Fazer atracar o mundo no Porto e colocar o público da cidade a refletir é um dos desígnios do jovem festival Porto/Post/Doc (PPD), uma mostra de eleição para o cinema documental de autor, com o incessante objetivo de formar novos públicos, preservar a irreverência do evento e manter-se afastado do lado mais comercial da sétima arte. O objetivo, explica o diretor artístico Dario Oliveira, passa por “dar continuidade à vertente de cinema independente e que desafie o cinema predominante”. “Para mantermos vivo este cinema mais criativo e que desafie o ‘mainstream’”, prossegue o curador do evento, “faz com que olhemos mais para o resto do mundo e menos para as paragens habituais, como Estados Unidos, Inglaterra ou França”.

Numa cidade com público entusiasta pela sétima arte, mas com poucos espaços que sirvam de alternativa ao circuito comercial, Dario Oliveira considera que o festival veio “ocupar uma lacuna” e serve como uma “janela de prospeção”. Apesar de ainda ser em evento recente, a semente começou a ser plantada em 2001, quando Dario Oliveira fundou o festival “Odisseia das Imagens”, cuja vida acabaria por ser efémera. “Todas as sessões esgotavam, havia público, mas quando Rui Rio venceu as eleições autárquicas, em novembro de 2001, encarregou-se de deixar todos os programadores e produtores sem capacidade de dar continuidade aos seus projetos”, recorda o diretor artístico do Porto/Post/Doc.

“Tivemos de esperar mais de uma década, mas a cidade tinha de renascer e crescer”, afirma o responsável, para quem é essencial que o certame seja realizado na Baixa do Porto, por ser uma zona “com uma grande oferta para um turismo de fim de semana, mas tem de manter e ampliar a oferta cultural para fidelizar as pessoas da cidade”.

O orçamento para a edição deste ano foi de 130 mil euros, sendo apoiado pela Câmara Municipal do Porto e pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes – patrocinador do Grande Prémio do festival, no valor de 3000 euros. Em 2016, passaram pelo Porto/Post/Doc 12 mil pessoas, dobrando praticamente a afluência verificada na edição transata.

A programação integral e outras informações podem ser consultadas aqui.