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Portugal Fashion: há regras, senhores, há regras

Luísa Beirão desfilou para Diogo Miranda

Diz-se da vida que são dois dias, e o Carnaval três. No Portugal Fashion são... quatro, um em Lisboa e três no Porto. E é dele que se fala neste texto. E de algumas ideias, regras ou conselhos que algumas pessoas precisam mesmo de reter quando lá voltarem em 2018

André de Atayde

André de Atayde

Reportagem

Jornalista

A primeira regra é simples. Gostando-se, os eventos de moda são sempre divertidos e vão muito para além da simples equação "ver e ser visto". A ideia é mesmo ver, preferencialmente a roupa que desfila na passerelle e que custou meses de trabalho aos criadores. A pensar e a executar.

Em Lisboa, no dia 14 de outubro, o público português assistiu de perto às coleções de Pedro Pedro e Carlos Gil, e os seus regressos ao 'streetwear' dos anos 80 e ao conceito de selva tropical em formato 'athleisure', respetivamente, depois da apresentação feita em Milão.

Regressado a Lisboa, e ao fim de 10 anos, esteve também Luís Onofre e a sua coleção de sapatos inspirada nos povos da Mesopotâmia onde os cristais, grandes cristais, foram estrelas.

Ugo Camera

Porto. Dia 19. O dia um de Portugal Fashion na Invicta foi dedicado aos novos talentos da moda nacional, ou os Bloomers. No Museu do Carro Eléctrico destaque para as coleções de Inês Torcato e Beatriz Bettencourt. A primeira apresentou a sua versão de autoretrato e, fiel à sua imagem de marca, descontruiu peças de alfaiataria para homem e mulher que podem ser o espelho umas das outras.

Beatriz apresentou Perfect Strangers, uma coleção feminina e rebelde quanto baste. Peças de diferentes texturas, padrões e épocas juntaram-se para criar uma só. E é dessa forma que os estranhos acabam por se relacionar.

Inês Torcato e Beatriz Bettencourt apresentaram as suas coleções no 'Bloom', a plataforma dedicada aos criadores emergentes

Inês Torcato e Beatriz Bettencourt apresentaram as suas coleções no 'Bloom', a plataforma dedicada aos criadores emergentes

A azáfama nos bastidores é enorme, há sempre uma imensidão de coisas que têm de ser feitas para que o que nos é mostrado seja perfeito, e por essa razão costuma haver sempre (ou quase sempre) um ligeiro atraso. Ainda assim, é importante que chegue com tempo.

As primeiras filas costumam ser reservadas para imprensa, alguns convidados, patrocinadores e por aí fora (há uma terceira regra que tem a ver com isto, mas já lá iremos). Ou seja, quando as portas abrirem vá calmamente para o lugar que decidir. Não é preciso correr nem fazer os 20 metros barreiras por cima dos bancos corridos.

É compreensível que queira o melhor lugar para participar na celebração dos 10 anos de carreira de Diogo Miranda – ainda por cima porque o desfile do designer foi um dos pontos altos do segundo dia de Portugal Fashion. A sua coleção inspirada nos cisnes favorece a silhueta feminina, numa paleta de cores que foi cinza, branco, preto ou rosa, sempre com aquele tão-seu toque de luxo – mas não é preciso tropeçar e correr o risco de se magoar. Esta é a segunda regra. Ou antes um conselho.

Em cima escrevemos que normalmente as primeiras filas são reservadas para imprensa, convidados patrocinadores, e que isso implicava uma terceira regra. É que para além desses lugares estarem reservados costumam ter os nomes das pessoas escritos num corpo de letra que se lê relativamente bem.

A terceira regra é esta: tente não se sentar em cima de um nome que não é o seu porque isso pode implicar que a pessoa-cujo-nome-está-debaixo-de-si não encontre lugar. Se tiver dúvidas pode sempre falar com a Vera Deus, a coordenadora de ´sitting´e protocolo do Portugal Fashion.

Mesmo que a vontade de ver desfilar a coleção Don't fish my fish, de Hugo Costa, que tem como base inspiradora a (má) relação entre a sociedade moderna e os Moken, povo do arquipélago de Mergui que vive essencialmente do mar e que está em perigo de desaparecer devido ao crescente turismo, e que o designer traduziu em coordenados de fundo streetwear, com sobreposições ou peças oversized e bolsos em grande destaque, algumas cortadas e unidas com atilhos, numa paleta de cores que foi preto, branco, cinza, verde e amarelo-mostarda, seja enorme.

Foi mesmo "à beira do Museu do Vinho do Porto", diria o taxista, no Cais Novo, que Luís Buchinho apresentou a sua coleção de sportswear. Ou athleisure como já foi escrito em cima, que é aquela roupa de estilo mais desportivo, de tecidos mais técnicos, que pode ser usada em ocasiões mais formais, se bem combinada.

Roupas leves, soltas e de sentido prático. Um olhar para a moda como utilidade e conforto, não como preocupação maior na hora de escolher o que usar. Silhuetas compridas e soltas em versão vesti a primeira coisa que tirei do armário. O desfile da praticidade em tons coral, morango, azul água, rosa claro, preto e branco chamando aqui e ali, para a primavera/verão de 2018, os anos 60 e 70 em padrões circulares e riscas.

Ugo Camera

Se nada disto faz sentido porque não viu o que aqui foi descrito então alguém não respeitou a quarta regra, esta dedicada às primeiras filas: não tapar a visão aos fotógrafos que estão no fim da 'passerelle' com os telemóveis, tablets ou partes do corpo.

A quinta e última regra é também a mais simples de todas. Bater palmas no final do desfile. Aos modelos e aos designers. É importante. Porque os primeiros tentam fazer brilhar da melhor forma o trabalho de uma vida dos segundos. E isso vale sempre a pena aplaudir.