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João Pinto Coelho: “Gosto de me divertir quando escrevo. Se não torna-se muito duro” 

Com o seu segundo romance, “Os Loucos da Rua Mazur”, João Pinto Coelho, arquiteto, escritor autodidata, venceu a edição de 2017 do Prémio LeYa, o maior galardão nacional atribuído a um romance inédito de um autor de língua portuguesa. Ao Expresso explica como é a aventura de escrever

d.r.

Nasceu em Londres, em 1967, mas Londres foi um acaso e com um ano regressou a Portugal. Depois passou largas temporadas nos Estados Unidos, porque era ali que a mãe vivia - chegou a trabalhar num teatro, onde foi produtor e cenógrafo - e no regresso definitivo a Portugal ficou vários anos em Lisboa, onde passou pela Escola de Belas Artes e se formou em arquitetura, até ter decidido partir para o sítio mais longe que encontrou, uma aldeia em Trás-os-Montes, “tão pequena que não tem propriamente nome”, dirá. Os lugares são importantes para João Pinto Coelho e é por aqui que esta conversa começa.

O primeiro romance, “Perguntem a Sarah Gross” - que chegou a ser finalista da edição do Prémio LeYa 2014 -, parte de Auschwitz. Porquê?
Desde que acabei o meu curso de arquitetura, em 1992, faço investigação sobre o Holocausto, estive várias vezes na Polónia e passei muitos dias em Auschwitz. Fiquei preso ao assunto tantos anos, que sabia que se escrevesse um livro, inevitavelmente teria de passar por Auschwitz.

Porque quis escrever sobre o Holocausto?
Não lhe sei responder. Sempre me interessou muito. Provavelmente partiu da interrogação: “Como é que foi possível?” E quando mais estudava, quanto mais investigava, mais me apercebia que me afastava da resposta. Isso foi importante, porque foi mantendo a interrogação. Penso que aconteça com muita gente. Quem toca em Auschwitz acaba por correr o risco de ficar preso.

Este livro, “Os Loucos da Rua Mazur”, também parte daqui?
Não. Embora seja também um sítio que fica na Polónia, e também decorra durante o Holocausto, essa circunstância não é importante. O ponto de partida é um desastre, ou um acontecimento muito traumático, sobre pessoas que estão fechadas num manicómio.

Quem são os loucos da rua Mazur? Esse sítio existe?
Não. A rua Mazur é um sítio imaginado. Pertence a uma cidade à qual não dou nome.

Para o escrever também precisou de habitar um manicómio?
Não, nem procurei ver nada semelhante. Neste caso todo o veículo que usei foi a imaginação.

Como é que do arquiteto surgiu o escritor?
A criatividade vem sempre do mesmo lado. A escrita é apenas uma forma de expressão diferente, mas a raiz é a mesma. Não fui daquelas pessoas que escrevia quando era adolescente. Nunca escrevi poemas, nem contos, nunca escrevia rigorosamente nada. Só comecei por volta de 2010. Mas desde muito pequeno que leio muito. Como leitor já era um bocado criativo. Penso que o universo de ficcionar, e que é um motor para a escrita, vem daí.

Como?
Sempre que lia um livro, imaginava finais alternativos, por exemplo. participava na construção da história. Por isso, sempre pensei que talvez um dia me aventurasse a escrever um livro. A minha relação com a escrita vem de todos os livros que li ao longo de 43 anos, a idade que tinha quando surgiu “Perguntem a Sarah Gross”.

Como encontrou a sua voz?
Como sou um escritor muito recente faço muito o exercício do próprio livro.

O que que dizer?
Sou um bocado experimentalista. Esse primeiro livro, começa com uma determinada voz e termina com uma voz diferente, porque fui ganhando maturidade ao longo do próprio romance. Gosto de me divertir quando escrevo. Se não torna-se muito duro. Muitas vezes, enquanto estou a construir a narrativa, sigo pistas que não sei onde me levam, para ser surpreendido como leitor. É a própria aventura de escrever o romance que me dá o verdadeiro prazer de o escrever.

Ainda faz arquitetura?
Fazia sobretudo quando vivia em Lisboa e tinha uma vida muito preenchida profissionalmente. Mas, no final dos anos 90, precisei de sair da cidade, afastar-me o mais longe possível. Vim para Trás-os-Montes, para um lugar perto de uma aldeia, Sobredo, que é tão pequeno que nem tem nome. E dou aulas numa escola secundária em Valpaços, que fica a 50 quilómetros de Murça.

O que é que a circunstância de viver na aldeia lhe pode ter trazido nesta oportunidade de escrever?
Claramente o tempo. Isso foi decisivo. Escrever é difícil. Com uma família relativamente grande como a minha - tenho três filhos, o mais velho tem 15 anos - ganhar espaço próprio é complicado. Grande parte de “Os Loucos da Rua Mazur” foi escrita entre as três e as sete da manhã. Só poder trabalhar de noite, e mesmo assim conseguir fazê-lo num sítio de silêncio absoluto, que tem vista para a montanha e onde quando está frio posso acender a lareira, é muito satisfatório. Sinto que dificilmente conseguiria escrever noutro lugar.