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Grace Jones: “Adoro teorias da conspiração”

A ex-manequim jamaicana que se tornou diva nos anos 80 pela música e pelo cinema fala-nos da carreira, de espiritualidade e tira a máscara no documentário “Grace Jones: Bloodlight and Bami” – que inaugurou a secção Heart Beat do DocLisboa

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Conhecíamos a modelo imperial que se fez cantora com aquele vozeirão inimitável (um símbolo dos anos 80), a atriz andrógina de filmes como “Conan the Destroyer” e “A View to a Kill”, também a performer de clubes míticos de Nova Iorque como o Studio 54, onde era frequentemente vista ao lado do seu amigo Andy Warhol (e ainda guarda uma foto dele na carteira). Contudo, nunca a tínhamos visto na sua Jamaica natal ao lado da família. Nem conhecíamos a mãe ou mesmo a avó que, aos 69 anos, ela é hoje, numa altura em que, longe dos píncaros de outros tempos, continua a trabalhar para plateias seletas que a admiram.

Nos bastidores, Grace Jones tem o hábito de exigir ostras e champanhe e foi com uma taça dessa bebida que nos recebeu no mês passado, durante o Festival de Toronto, para uma conversa em torno do documentário que Sophie Fiennes lhe dedicou (e exibido esta sexta-feira, no Cinema São Jorge, em Lisboa).

Há dois anos publicou um livro de memórias chamado “I’ll Never Write My Memories”. Essa autobiografia ajudou-a a aceitar este filme?
São coisas diferentes, apesar de tudo. E o que é curioso é que a rodagem deste documentário foi feita antes de eu ter escrito o livro. O que me interessa no filme é o presente, a Grace Jones do presente, do dia a dia. O passado já está contado.

Como é que este projeto começou?
Eu conheci a Sophie Fiennes porque ela fez um filme sobre um dos meus irmãos, o pastor Noel Jones [“Hoover Street Revival”, 2002]. A ligação entre nós vem daí. O meu irmão falou-me do seu trabalho. Conversámos, achámos que valia a pena tentarmos fazer alguma coisa juntas e passámos anos nisto. Ela começou a acompanhar-me a partir de certa altura, nas digressões, no estúdio, depois fomos para a Jamaica, para a minha reunião de família anual; foi tudo bastante espontâneo e despreconceituoso, em sintonia com os movimentos da vida.

Ficámos a saber que, tal como o seu irmão, também o seu pai era um homem religioso. E que cresceu nesse meio antes de se mudar para Nova Iorque. Acredita em Deus?
Oh, boy! Não sei se posso dizer que acredito em Deus. Mas acredito numa força que está dentro de mim e que é o meu ser espiritual. Apercebi-me cedo de que há muitas coisas na vida que não podemos controlar e para as quais não há explicação. Será isso Deus? Deus é só uma palavra. Pode não significar a mesma coisa para mim ou para si. Podemos chamar-lhe o que quisermos. Mas é aquilo que não controlamos. É uma energia. Uma coisa poderosa. E, nisso, eu acredito.

Neste documentário, você é a única estrela no firmamento. Foi um filme diferente dos outros por isso?
Foi, porque tive de me abrir a mim própria. Tive de lidar com a autoconfiança. Queria deixar uma boa performance, corresponder à confiança que a Sophie depositou em mim, mesmo nos momentos mais íntimos e descontraídos, que não foram encenados. Quer dizer: enquanto o filme se fazia, eu queria ter a noção do que se estava a passar e ficar com algumas armas guardadas. É uma questão intuitiva: sou desconfiada e adoro teorias da conspiração! A câmara está ali e, por mais que se queira, não a conseguimos esquecer. Este filme obrigou-me a conhecer-me melhor e a estabelecer um contacto com as minhas próprias emoções.

A sua música, os seus papéis no cinema, sempre nos mostraram muito 
de si, da sua vida?
O que fazemos é o que nós somos. E num filme destes, claro que isso se nota porque a Sophie e eu estabelecemos um pacto: vamos dar tempo ao tempo, sem fazer nada à pressa. Vamos desfrutar desse luxo, encontrar um sentido para cada cena e oferecer este filme aos espectadores.

Quando a vemos em palco, aquela performance já tinha sido experimentada ao vivo?
Pois, também os documentários têm os seus truques... A banda com que eu toco agora não estava ainda formada durante a rodagem. E a Sophie queria ter-me em palco. Tivemos de inventar essa parte. A performance foi feita para o filme.

“Grace Jones: Bloodlight and Bami” levou vários anos até estar pronto. Qual das duas, Grace ou Sophie, decidiu que chegara o tempo de ir para 
a mesa de montagem e concluir o trabalho?
As decisões artísticas não foram do meu departamento. Não quis interferir, mesmo quando a Sophie me mostrou as primeiras versões da montagem. Enfim, sugeri uma coisa ou outra. Mas eu acho que, se continuássemos a filmar, o filme perdia-se. Além disso, vemos material de arquivo que remonta a “Hurricane” [álbum de Grace Jones editado em 2008, o seu primeiro de originais em 19 anos] numa altura em que me tornei avó e perdi o meu pai, foi um período complexo na minha vida.

Há outros momentos que são claramente improvisados, como aquele em que foi a Paris interpretar a sua célebre versão de “La Vie en Rose” na TV.
É um momento improvisado e é uma performance em simultâneo. E sou eu em ambos. Alguém decidiu contratar aquelas bailarinas sexy para dançarem a meu lado, elas não tinham nada que ver comigo. E queriam que eu mostrasse o rosto, que eu gosto de deixar escondido, ou na sombra. Senti-me a madame do bordel chique. Claro que tive de dizer-lhes o que pensava.

A sua representação feminina não se estava a enquadrar naqueles cânones...
Sabe, esta história da representação das mulheres ao longo da história tem sido uma montanha russa, com passos à frente outros atrás. Quando as mulheres passaram a poder votar, foi uma conquista. Já o modelo da dona de casa que se instaurou nos anos 50 na América é um retrocesso. Mas o feminismo, a causa das mulheres, as quotas das mulheres na música e nos filmes, tudo isso está agora a chegar a pontos extremos que me enervam e que também afetam os homens. Na minha banda, um dos meus músicos mais importantes teve um filho e resolveu pedir dispensa de uma série de concertos. Então eu disse-lhe: ‘O quê, e o trabalho?! Mas quem vai ter o filho, a tua mulher ou tu?’ Achei um exagero. Antes do meu filho Paulo nascer, estive em tournée, grávida de 8 meses. E um mês depois do nascimento, amamentava-o no estúdio onde já estava a gravar. Estas políticas femininas estão a chegar a um extremo que me aborrece de morte. Costumo dizer que fui uma mãe da selva. Na verdade, fui sempre o homem da família.

Este é o filme em que Grace Jones tira finalmente a máscara?
Acho que consigo comprar essa ideia, sim: é o filme de uma Grace Jones que ninguém viu no ecrã. A performance é sempre frontal e ao mesmo tempo este é um filme que me trespassa: tudo é natural, sem maquilhagem, na maior parte dos momentos só há improvisação. Não há ensaios, não há luz artificial, em contraste com as cenas dos concertos em palco, em que tudo é rigorosamente ensaiado.