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Arca fotográfica do “Noé dos tempos modernos” atraca no Porto

Chun-Wei Yi

Chega ao Porto a exposição “Photo Ark”, do fotógrafo da “National Geographic” Joel Sartore, como um manifesto pela biodiversidade. O norte-americano já retratou 7 mil espécies em vias de extinção e quer tornar a causa “tão popular como o futebol”

Lémures, pandas, urubus, rinocerontes, elefantes, serpentes, moscas, formigas, coalas, tigres da Malásia ou um pequeno macaco da Guiné Equatorial, com uma expressão traquina, a ver-se pela primeira vez ao espelho. Todos têm a mesma importância e nenhuma espécie em vias de extinção fica esquecida na “Photo Ark”, construída por Joel Sartore e em viagem pelo mundo para encontrar mentes férteis para a defesa das mais diversas formas de vida e a sustentabilidade do planeta.

Organizada pela “National Geographic”, a mostra chega pela primeira vez a Portugal. Aberta desde esta quarta-feira ao público, permanecerá na Galeria da Biodiversidade, no Jardim Botânico do Porto, até 29 de abril de 2018.

A mostra com 45 fotografias, acompanhada também de infografias e vídeo-instalações, já passou por países como os Estados Unidos ou Austrália. Constitui o resultado do trabalho de 12 anos de Joel Sartore, detentor de um arquivo com 7000 espécies documentadas e com o objetivo de chegar às 12 mil.

Nada o demove, nem as quatro vezes em que já foi perseguido por ursos. O autor e ativista de 55 anos aproveitou ainda a visita à Invicta para acrescentar registos de mais alguns animais regionais e em risco ao vasto acervo, como a lebre ibérica, escorpiões ou a víbora ibérica.

Os números são muito variáveis, mas estima-se que, atualmente, existam entre dois a oito milhões de espécies na Terra, sendo que as previsões menos negativas apontam para a possibilidade de 1600 se poderem extinguir até ao final do séc.XXI, devido a perdas de habitat, alterações climáticas e tráfico de animais selvagens. “Quando salvámos uma única espécie, estamos na realidade a salvar-nos a nós mesmos”, argumenta Joel Sartore, durante a apresentação à comunicação social.

“Se sós nos preocuparmos com futebol e celebridades como a Kim Kardashian, estamos condenados. É uma questão de vida ou morte. Não podemos desflorestar o planeta inteiro e achar que estaremos bem”, frisa o fotógrafo.

Tudo começou com um pequeno roedor

Aventura do fotojornalista começou em 2006, quando apresentou a ideia ao amigo John Chapo, presidente do Zoológico Lincoln Children’s, pedindo autorização para fotografar alguns dos animais. Quando chegou ao zoo, Joel pediu somente duas coisas: um fundo branco e um animal que permanecesse quieto. E esse animal acabou por ser um rato-toupeira-pelado, um roedor minúsculo que se tornou na primeira criatura a entrar na gigantesca “arca fotográfica”.

Ao longo dos anos e das sucessivas viagens pelo mundo, o norte-americano vai aumentando a sua versão imagética da Arca de Noé, repleta de registos fotográficos de espécies ameaçadas, postas em causa pela ação humana. São animais cativos de todo o mundo, a olharem-nos olhos nos olhos. Estabelece-se um paradoxo. Há uma sensação de confrontação. Pungente e amigável, como um comovente pedido de ajuda, reclamando o direito à vida.

Todas as fotografias de arquivo integrantes desta mostra foram captadas em sessões de estúdio e apresentam um fundo branco ou negro, em que os animais nos fitam diretamente. Apesar da enorme diversidade fotográfica, a escala é sempre a mesma, desde um rato até um elefante, de maneira a conferir destaque similar a cada espécie. “Sem distrações, para podermos olhar estes animais olhos nos olhos”, explica Sartore.

“Se só nos preocuparmos com futebol e celebridades, estamos condenados”

Durante a visita de apresentação à comunicação social, o fotógrafo afirma que um dos propósitos da “Photo Ark” é “tornar a defesa da biodiversidade tão popular como o futebol”, mostrando haver um papel a desempenhar no mundo para todas as espécies. Se nada for feito e o ciclo não for invertido, no próximo século é possível que metade delas já só possam mesmo ser vistas nesta “arca” documental.

“É estúpido pensar que podemos perder todas estas espécies, mas as pessoas lidam bem com isso. Nós não estaremos bem se perdermos toda esta riqueza”, afirma o fotógrafo da “National Geographic”, levado a iniciar este projeto quando a mulher, Kathy, foi diagnosticada com cancro mamário. “Comecei a pensar que devia fazer algo para que as pessoas se preocupem mais com a natureza, em vez de continuar a fazer as mesmas coisas”, conta o “Noé dos tempos modernos”, como foi denominado pela “NBC Nightly News”.

“Não considero uma boa política usar os céus e as águas como casa-de-banho”

Sobre as eventuais consequências ambientais provocadas pela governação de Donald Trump, o fotógrafo norte-americano – natural de Lincoln, capital do Nebrasca – nota diferenças pouco animadoras. “Não considero uma boa política usar os céus ou as águas como casa-de-banho. Lutámos durante muito tempo para garantir a limpeza do ar que respiramos, da água e do solo. Não consigo perceber. Ou melhor, percebo que tem a ver com dinheiro”, lamenta Joel Sartore, confiante de que, ainda assim, “todos podemos mudar alguma coisa”.

Mais difícil de reverter é a certa ou provável extinção de quatro das espécies retratadas na exposição. Para o rinoceronte branco do norte, por exemplo, as esperanças já são escassas, mas poderá ser valiosa para assegurar a diversidade da fauna no planeta.

A exposição “Photo Ark” pode ser visitada de terça a domingo, entre as 10h e as 18h, na Galeria da Biodiversidade – Centro Ciência Viva, do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto.