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Alexandre, tão grande e tão efémero

Alexandre foi um estratega que travou sucessivas batalhas em inferioridade numérica jogando na combinação das armas

d.r.

Quatro séculos antes de Cristo conquistou quase todo o mundo conhecido numa dúzia de anos. Mas este império tão depressa se fez como se desfez. Que herança nos deixou?

Entre 338 e 323 a.C. Alexandre da Macedónia unificou a Grécia e construiu um império que ia do mar Adriático às margens do rio Indo e do Danúbio às cataratas do Nilo. Contudo com a sua morte (Babilónia, 323) deu-se o processo inverso e este vasto território desintegrou-se, retalhado entre os antigos lugares tenentes do imperador. A única exceção foi o reino helénico do Egito onde a dinastia de Ptolomeu (o único general de Alexandre que não morreu assassinado) reinará até ao fim da república romana.

Foi a esta figura complexa, tão depressa misericordiosa como cruel, ora estoica ora devassa, que foi dedicada a segunda sessão do curso livre Grandes Comandantes do Mundo Antigo que decorre até 22 de Novembro todas as quartas-feiras na Faculdade de Letras de Lisboa por iniciativa do Centro de História da Universidade de Lisboa.

José das Candeias Sales deixou duas ideias centrais.

Se é verdade que o império de Alexandre foi efémero, pela primeira vez diferentes culturas, diferentes regiões e diferentes povos estiveram unificados na base de uma ideia comum. Ficava entreaberto o caminho para aquilo que as grandes religiões, nomeadamente a cristã e a muçulmana, viriam a tentar fazer séculos mais tarde, umas vezes pela palavra, outras pela espada.

d.r.

A segunda ideia tem a ver com as consequências da ascensão de Alexandre de rei helénico a déspota oriental. Algo que, de resto, começou a irritar os seus camaradas de armas quando permitiu que os persas se começassem a prostrar na sua presença. Assim se encerravam praticamente as experiências da democracia no mundo antigo, cuja expressão mais alta ocorrera em Atenas, e se instituía o modelo do soberano absoluto e da corte que virá a prevalecer no império romano e na idade média europeia.

No que respeita às suas características pessoais Alexandre foi, antes de um estadista ou de um general, um homem de uma perspicácia invulgar. Ainda adolescente consegue domar o seu futuro cavalo de guerra Bucéfalo porque percebe que o animal tem medo da própria sombra e que basta ocultá-la para o acalmar. Chegado a Górdio, cidade da Ásia Menor (333 a.C.), vira a seu favor a profecia local, cortando o nó que amarrava o carro do rei, dizendo “está desatado” e apresentando-se como futuro rei da Ásia. E, finalmente, vira a seu favor um lapso de tradução de egípcio para grego no oásis de Siuah e passa a intitular-se filho do deus Amon, o que lhe abre as portas do Egito.

Foi obviamente um estratega de primeira, travando sucessivas batalhas em inferioridade numérica mas jogando na combinação das armas (cavalaria e infantaria pesada, a falange com as suas longas lanças) e no movimento para vencer. A sua tática na batalha de Gaugamela (331 a.C.) ainda hoje é estudada nas academias militares mesmo que já não se lute com espadas, lanças, arcos e cavalos. Veja-se a propósito, no trailer que se segue, a movimentada recriação feita por Oliver Stone no referido filme.

Finalmente, a visão crítica do historiador. Muitas das descrições dos acontecimentos são escritas 300 anos depois por descendentes dos companheiros de Alexandre e por consequência enviesadas. É o caso do episódio em que Alexandre, tendo acolhido e protegido as mulheres e filhas de Dario III depois da batalha de Issos (333 a.C.), faz pouco da sua fealdade, dizendo que “as mulheres persas ferem a vista”. Isto é escrito por alguém que sabia que Alexandre viria a desposar uma princesa da Bactriana, atual Cazaquistão…

Nas moedas cunhadas para celebrar os feitos de Alexandre e unificar economicamente o seu império, a sua imagem vai incorporando os atributos das sucessivas conquistas: os cornos do deus Amon e mais tarde as presas dos elefantes de guerra indianos vencidos no rio Hidaspes (326 a.C.).

Não admira assim que Camões ao querer hiper valorizar os feitos dos navegadores lusos tenha escrito na estrofe terceira do Canto I de “Os Lusíadas”: “Cale-se de Alexandre e de Trajano/ a fama das conquistas que tiveram/que eu canto o peito ilustre lusitano/ a quem Neptuno e Marte obedeceram…”