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Os Mount Kimbie aceitaram-se como são

Ao terceiro álbum, a dupla britânica formada por Kai Campos e Dom Maker sabe melhor o que quer. E o que não quer. “Love What Remains” é um álbum crescido de gente crescida

Helena Bento

Jornalista

d.r.

Considerados pioneiros de um género musical ao qual nunca quiseram ficar presos, o designado “post-dubstep” (uma mistura entre o tradicional dubstep, garage, wonky, R&B, house e grime e outras ramificações e variantes da música eletrónica), os Mount Kimbie regressam este ano com um novo álbum que, ao explorar intensa e assumidamente outros cantos e recantos, poderá ajudá-los a livrarem-se finalmente desse rótulo.

“Love What Remains” é eletrónica chapada (no sentido de ser óbvio, não no outro), mas é também krautrock e post-punk, embora, no que diz respeito a este último género, isso não seja assim tão evidente quanto isso.

O novo disco da dupla britânica tem ainda uma faceta vincadamente pop. Não é tanto a sonoridade, mas antes a abordagem, o olhar, as decisões que foram tomadas durante o processo de gestação. Kai Campos, uma das metades de Mount Kimbie, falava precisamente sobre isso numa entrevista recente à revista “Fader”. “O que há de pop na música que fazemos é a simplicidade e a clareza. Sempre que tenho de escolher entre uma ideia simples e uma ideia complicada, opto pela simples”. Esta abordagem não é propriamente uma descoberta, mas é agora levada bem mais a sério. É quase e praticamente um estado de espírito.

Porquê tentar ser outra pessoa?

Kai Campos e Dom Maker conheceram-se na South Bank University, em Newington, no centro de Londres. Estavam ambos na casa dos vinte quando lançaram o primeiro álbum, “Crooks & Lovers”, em 2010. Muito mudou desde então e o que mudou veio mudar tudo.
Vivem agora em cidades diferentes - Dom mudou-se há tempos para Los Angeles, enquanto Kai escolheu continuar a viver na capital britânica - e, enfim, estão mais velhos. E se envelhecer é quase sempre um drama, às vezes também é a melhor coisa que nos pode acontecer.

“Encontrámos algum conforto à medida que fomos ficando mais velhos e isso provavelmente até se percebe na nossa música. Estamos mais em paz connosco próprios”, disse Dom Maker recentemente à “Noisey”. “Quando somos novos, estamos constantemente a tentar a ser outra pessoa, a tentar ser aquela pessoa que achamos que devíamos ser. Durante algum tempo, foi isso que se passou com Mount Kimbie. Mas depois cresce-se e começa-se a aceitar melhor aquilo que se é”. Também um título como “Love What Survives” só poderia sair da cabeça de gente que já se sente com muitos anos em cima - ama o que sobrevive, sobrevive com o que amas.

Um duo e nem tanto

Os Mount Kimbie começaram como um duo e, na teoria, continuam a sê-lo, mas a verdade é que a dinâmica de banda tem-se notado cada vez mais. Para o novo disco, contaram com a colaboração de outros músicos, uma colaboração que não se cingiu a um mero empréstimo de vozes aqui e ali, mas a bem mais do que isso.

Em “Blue train lines”, faixa inaugural, temos King Krule do início ao fim na sua voz de urgência e apelo desmesurados. Andrea Balency traz o seu canto de sereia à la Laetitia Sadier (vocalista dos Stereolab) para “You look certain (I’m not so sure)”. E James Blake, com quem o duo britânico já havia colaborado no passado, tem o mérito (ou o demérito, dependendo da perspetiva) de nos pôr a duvidar sobre o paradeiro de músicas como “We go home together” e “How we got by” que, bem vistas as coisas, poderiam facilmente ter saído de um dos seus álbuns. Já “Marilyn” tem o toque e génio de Micachu, cantora e compositora britânica.

É a idade...

Kai Campos e Dom Maker rodearam-se dos melhores. Recentemente, havia alguém que dizia, numa dessas revistas de música, que tinha sido muito mau para a dupla britânica ter confiado e depositado assim a sua vida nas mãos de outrem. Por cá, vemos a coisa de forma diferente. Vemo-la como uma lição de gente madura, que conhece as suas limitações e perfeições e, mais do que isso, conhece o prazer de celebrar em conjunto. É a idade, pois.