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Cultura

Quando a opressão mora nas ruínas de um “Retrato de Família”

João Tuna

“Retrato de Família” é o ciclo teatral composto por duas peças – “O Pelicano”, de Strindberg, e “Tatuagem”, de Dea Loher – pensado para levar o público a perscrutar as ruínas e os reflexos desfocados de duas famílias unidas pela disfuncionalidade

André Manuel Correia

No centro do palco há um espelho estilhaçado, como uma radiografia social de duas famílias desfragmentadas, separadas por quase 90 anos de história. Partilham a mesma casa e são forçadas a confrontar-se com o reflexo desfocado de relações interpessoais opressivas e contaminadas por uma inquietante desagregação. Este é o mote para “Retrato de Família”, ciclo teatral composto por duas peças, ambas em estreia, onde se estabelece um fio condutor entre as obras “O Pelicano” (1907), de Strindberg, e “Tatuagem” (1992), de Dea Loher. A partir desta quinta-feira, pelas 21h, sobe ao Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, a primeira destas duas construções dramatúrgicas, orquestradas cenicamente por Manuel Tur.

“A ideia para realizar este ciclo surgiu de uma série de coincidências, de vários textos que eu tinha pensado para encenar e que estavam guardados. A certa altura comecei a perceber que todos eles tinham uma linha comum: a temática familiar”, conta o encenador de “Retrato de Família”, uma coprodução do Teatro Nacional São João e a companhia A Turma.

“As duas são muito o espelho uma da outra. Têm o mesmo número de atores. O ‘Pelicano’ tem a total ausência do pai e a ‘Tatuagem’ tem uma grande omnipresença da figura paterna”, acrescenta Manuel Tur.

Fome, frio e fogo

Os afetos dão lugar ao ressentimento e à confrontação, em dois enredos claustrofóbicos, num buraco negro para lá da verdade e da mentira, onde a descrença e a alucinação imperam. “O Pelicano”, em cena entre 12 e 21 de outubro, é considerada a “peça maldita” do sueco August Strindberg e leva-nos a conhecer as ruínas de uma família marcada por uma total ausência da figura paternal.

Na peça, “escrita por uma mente completamente alucinada – e ainda bem – como a de Strindberg”, como define Manuel Tur, o público é confrontado com uma mãe autointitulada como uma grande altruísta, mas que deixa os filhos a morrer de fome. Uma mulher que leva o amante para casa, com o objetivo de casar a sua filha com ele, podendo assim esconder a relação extraconjugal após a morte do marido.

O espetáculo com 1h10m de duração coloca em evidência a tríade dos três F: fome, frio e fogo. “Aquela mãe cria quase uma realidade paralela, porque ela acredita realmente ter feito o melhor pelos filhos”, explica o encenador, após mais um dos ensaios. “É uma peça do início do século passado, mas não a quisemos retratar à época”, frisa Manuel Tur, para quem o texto, traduzido por Gastão Cruz, possui uma contemporaneidade muito vincada.

João Tuna

“Tatuagem”, da autoria da alemã Dea Loher, poderá ser vista também no TeCA, entre 25 e 29 de outubro, e envolve a plateia no pesadelo de uma filha abusada incestuosamente pelo pai, enquanto a mãe é testemunha silenciosa, detentora de um amor mudo por aquela família desfeita. Vive na redoma de um universo alternativo, alheada daquilo que se insurge cruelmente perante os seus olhos, cegos pelo entorpecimento. “Esta relação entre a verdade e a mentira é muito desfocada. Não há qualquer relação com a culpa em nenhuma das peças”, nota o jovem encenador portuense, de 31 anos.

“Todas as famílias, à sua medida, são disfuncionais”

Os dois espetáculos contam com o mesmo número de atores, mas o elenco é distinto, transitando apenas a atriz Ângela Marques de uma peça para a outra. Sobre a cenografia a cargo de Ana Gormicho, Manuel Tur explica que “alarga o próprio conceito” do ciclo teatral, num espaço que classifica como “claustrofóbico-aberto”, “aberto mas confinado no meio de toda a escuridão” presente na diegese.

“Acho que todas as famílias, à sua medida, são disfuncionais. Estas duas são muito particulares e demasiado retorcidas. Não é um manifesto sobre a disfuncionalidade familiar, mas se olharmos para a dramaturgia mundial é impossível não nos debruçarmos sobre a família como um mote”, argumenta o encenador.

As apresentações de ambos os espetáculos têm lugar à quarta-feira e sábado, pelas 19h; às quintas e sextas-feiras, pelas 21h; e nos domingos à tarde, com hora marcada para as 16h. A apresentação do dia 25 (quarta-feira), a título de exceção, terá lugar às 21h.