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A moda virou-se de frente para Lisboa

Se em edições passadas a ModaLisboa vinha a perder fulgor, esta última voltou a elevar a fasquia. E assistir ao renascer de uma Fénix é sempre especial

André de Atayde

André de Atayde

Reportagem

Jornalista

No Parque Eduardo VII, a moda virou-se para a cidade e para as pessoas, e foi brindada com a tão única e especial luz de Lisboa. E foi importante. E é importante. Porque a moda também precisa de ser de acesso livre às pessoas que não estão, não vivem ou não respiram moda.

Arrisque-se dizer que o local escolhido para a realização de mais uma edição talvez tenha sido a maior das surpresas. O Pavilhão Carlos Lopes, reaberto ao público em fevereiro de 2017, depois de quatro anos fechado, foi o parceiro ideal do maior evento de moda da capital.

Dezenas de desfiles entre o interior do pavilhão e o verde do jardim. Exposições permanentes e, aproveitando o sol estranhamente quente de outubro, uma esplanada simpática numa versão 'comida de rua'.

Pessoas bonitas, (algumas) roupas exuberantes que facilitaram as fotografias de 'street style' e muitos sorrisos. As pessoas estiveram felizes e a moda também.

Luís Carvalho apresentou a sua 'Eagle Eye' , uma coleção onde se elevou e mostrou cores neutras para as próximas estações quentes: tons de areia, bege, rosa, azul marinho ou amarelo foram protagonistas.

"A ModaLisboa também tem o papel de contribuir para o marketing turístico da cidade"

De dentro para fora. É assim que se consegue montar a ModaLisboa. Primeiro estão os alicerces bem assentes na terra e só depois começam a ser construídas as paredes à volta. Manuela Oliveira está há 13 anos na organização. Chegou para estagiar e hoje coordena todo o departamento de comunicação, nacional e internacional. Já é um dos pilares.

É com ela que se atravessam portas e corredores que de outra forma seriam impossíveis de atravessar, até se chegar ao jardim onde o Expresso a entrevistou, num dos raros momentos em que teve algum descanso. "O que é que queres saber?", perguntou.

Porque é que a ModaLisboa veio para o Pavilhão Carlos Lopes?
A ModaLisboa também tem o papel de contribuir para o marketing turístico da cidade. A Câmara é nossa coorganizadora e desde sempre temos tentado dar a conhecer ao público novos lugares, que normalmente seriam inacessíveis. Se calhar, a maioria das pessoas que estão aqui nunca tinham entrado neste pavilhão e não entrariam se não fosse este evento.

É para continuar aqui no futuro?
O espaço é maravilhoso, está superbem localizado, é central e a envolvente é incrível. Agora... a primeira coisa em que pensámos foi: o Pavilhão Carlos Lopes é enorme, nós vamos caber aqui na perfeição e como já percebeste é mentira. Tivemos de fazer várias estruturas exteriores para a receção, o wonder room... A sala de desfiles dá para mil e tal pessoas, mas depois é preciso todo um espaço para que o backstage funcione. E o tempo agora está bom, imagina se estivesse a chover, onde é que cabiam as pessoas todas? Isto é a nossa luta constante, arranjar espaços que façam sentido e suportem a quantidade de convidados que o evento exige.

Quanto custa fazer a ModaLisboa?
Não te sei dar o valor exato, mas entre 500 e 600 mil euros, e isso é um milagre. Nós temos imensas parcerias e se não fossem elas o valor subiria para os 800 ou 900 mil.

Tentaste convidar a Madonna?
Deve ter sido convidada, seguramente, não devia era ter agenda (risos)

Obrigado, Manuela!

O Brasil, e a roupa de praia, tiveram representação da Cia. Marítima

Um furacão chamado Mariama

Como na construção de uma casa, a seguir aos alicerces é preciso começar a levantar as paredes. Num evento como a ModaLisboa o processo é mais ou menos parecido.

Depois da estrutura forte estar montada, é preciso começar a criar laços. E gerir relações. Esta ideia aparentemente etérea tem personificação. Chama-se Mariama Barbosa.

Mariama trabalha há 20 anos na ModaLisboa. Começou como aderecista, foi aprendendo a arte de ajudar a gerir um backstage e hoje é o que se pode considerar uma Relações Públicas.

O mais importante nos bastidores?
O ambiente e o ajudar a criar o produto final que as pessoas que estão a assistir vão ver.

Tem de ser uma espécie de relógio?
Sim, tem de estar tudo a funcionar em ordem mas às vezes há atrasos, claro. Porque a maquilhagem ou os cabelos dão mais trabalho, ou porque há manequins que passam de um desfile para o outro, e isso demora tempo.

Gostas do que fazes?
Quando me convidaram para ser Relações Públicas fiquei com algumas dúvidas, porque eu gosto mesmo é dos bastidores. Mas como gosto de comunicar aceitei e acho que corre bem. Adoro ajudar, adoro fazer as pessoas felizes mas não sou a dona disto, e às vezes as pessoas não percebem e ficam chateadas comigo. Mas há fronteiras que eu não cruzo. Uma coisa é trabalho e a outra são amizades, e nem sempre isso é bem aceite. Já arranjei inimigos à conta disso.

Pedem-te muito favores?
Pedem, mas não posso fazer todos porque este espaço não é meu. Eu sou funcionária da ModaLisboa e tenho de cumprir com aquilo que me é pedido. Há exceções, mas quando querem que passe a regra estão a prejudicar-me.

Em 20 anos deves ter boas histórias...
Não conto. (risos) Conto-te uma que me aconteceu ontem. Estava na boca de cena e veio um homem ter comigo a dizer que tinha que se sentar para ver o desfile da Ana Salazar. Desculpe? Eu sou convidado da Ana Salazar e tenho que me sentar para ver o desfile. Até o sento, mas não vai ver o desfile que quer porque a Ana Salazar não faz nenhum desfile. Olha, desapareceu e nunca mais o vi.

Pow Pow Pow, Mariama!

Nuno Gama fechou o desfile com a atuação de 'Mike11', um prodígio da guitarra portuguesa

A vida portuguesa de Nuno Gama

Tijolos assentes, paredes rebocadas, é preciso pintar para embelezar. Numa casa é assim. Na ModaLisboa é mais ou menos a mesma coisa e os pintores são os designers. Neste caso, o pintor é Nuno Gama, que apresentou a sua coleção primavera-verão para 2018.

Nuno é "tinta da casa" desde 1993, ano em que lança também a sua marca de roupa homónima. Nascido em Azeitão, carrega consigo uma carreira invejável no mundo da moda. Para este seu mais recente desfile pintou os modelos de branco. Todos. De branco.

Porquê?
O foco da coleção foi a cerâmica e a porcelana portuguesa. Vê-se nas tonalidades, os azuis e os brancos, as várias tonalidades de azul, aliás. Depois há uma sobreposição das peças, em várias camadas. A própria construção é ligeira e extremamente fina. E depois há a desconstrução do casaco

O casaco é a peça central?
É. Podes vestir a T-shirt mais bonita que existe mas se não não tiveres um casaco igualmente bonito, muda tudo

No teu desfile houve fado, futebol e...?
Vida portuguesa. A ideia é essa, mostrar às pessoas e ao mundo quem somos e o que somos

Conseguias não ser português?
Não. Os portugueses têm uma essência fantástica. É um perfume único no mundo. A lingua portuguesa, a maneira de ser, de estar e de reagir. Queixamo-nos muito, mas isso também faz parte da essência de ser português. A nossa má raça e o nosso mau feitio dão-nos carácter

Mercado mais forte?
Portugal. É a minha base, é onde tenho a loja, é onde sou conhecido e reconhecido, conclui.