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O pó dos livros

d.r.

O mercado livreiro, desconcertante e prolixo, inunda o nosso quotidiano com novidades de todos os quadrantes. Acertemos, pois, o azimute, e entendamos que, apesar de toda a tecnologia posta à nossa disposição, às vezes é sob o pó das estantes que encontramos as linhas de um horizonte que se julgava perdido. Que de novo nada tem. E ainda bem...

Reinaldo Serrano

Assumo, sem qualquer arremesso de pudor, que a passagem dos anos tem trazido consigo um acentuado desconforto sobre o tempo presente e algum constrangimento no que concerne ao tempo futuro. Longe de ser caso único, julgo ser esta uma característica comum aos que, de forma mais ou menos óbvia, se sentem deslocados... no tempo.

É certo que o progresso será, para muitos, sinónimo de evolução; sucede que me excluo sem pena ou reserva deste tipo de raciocínio. Não porque tenha algum insólito sentimento de nostalgia, mas porque entendo que o dito progresso não é necessariamente um conjunto cego de benefícios. Aliás, bem vistas as coisas, a evolução tecnológica (com tudo o que de positivo vai apresentando) não está isenta de tropeções, alguns deles com influência direta na sociedade de costumes.

A liberdade desanuviada e simples de outras eras é agora substituída pela videovigilância, pelos drones, pelas máquinas de tabaco que funcionam só mediante a introdução do cartão de cidadão (permitindo assim o rastreio dos nossos movimentos e dos nossos hábitos), pelo acesso acesso generalizado a informação pessoal com uma acelerada erosão de privacidade – e que nos faz receber contactos telefónicos de empresas de que nunca ouvíramos falar oferecendo-nos o que manifestamente não queremos.

d.r.

Esta “revolução” em nome da modernidade não contempla (e até desdenha) qualquer coisa que não seja... moderno. Pois é em nome do que o já foi (moderno) que me proponho dar conta de um culto mas profícuo périplo que efetuei junto de alguns alfarrabistas do Porto. Foi lá que reencontrei as célebres aventuras de Fantômas, a célebre personagem criado por Marcel Allain e Pierre Souvestre.

A dupla francesa editou o primeiro romance do temível vilão no longínquo ano de 1911, com laivos de um gótico remanescente e a emergência de um novo tipo de sociopata para apoquentar a sociedade a polícia. Fantômas não olha a meios (muitos deles bizarros e não menos sórdidos) para atingir os malévolos fins a que se propõe

Cada página dos 32 títulos é um augúrio de mistério e rebuscada crueldade, bem ao gosto do típico “suspense” da época. Prova disso, a transposição para as tiras de banda desenhada que semanalmente atraíam um público ávido de acompanhar as peripécias do ousado meliante.

Também o cinema não deixou escapar o sucesso de Fantômas e logo em 1913 surgiu o primeiro filme com o título homónimo do protagonista. O cinema mudo dedicou particular atenção a Fantômas, continuada quando o sonoro já imperava: André Hunebelle dirigiu três filmes baseados na obra de Marcel Allain e Pierre Souvestre, dos quais se destaca “Fantômas” (1964), com o grande Jean Gabin a ser chamado para o papel do protagonista. Dois anos mais tarde surgiria “Fantômas contre Scotland Yard”, outro clássico do género.

Curiosamente, a personagem seria retomada já em 2011, quando o Christophe Ganz, cineasta francês muito virado para o cinema fantástico, levou à grande tela mais um título inspirado nos livros de inícios do século passado. Por cá, as boas notícias dizem-nos que alguns dos filmes da década de 60 estão disponíveis no nosso mercado, enquanto os 32 romances assinados pela dupla gaulesa estão – todos eles – ao nosso alcance. Os seis que comprei no porto custaram... 2 euros cada

O preço é o mesmo, as obras variam. Durante muito tempo, as Edições Romano Torres protagonizaram alguns dos melhores lançamentos do género policial e fantástico em Portugal. A editora que popularizou a obra de Emilio Salgari, e que divulgou trabalhos tão díspares quanto os de Walter Scott, Charles Dickens, William Thackeray, Alexandre Dumas ou... Richard Williams, o criador de Max Tedd, o Às dos Detectives, teve desempenho meritório na divulgação da literatura transversal a todos os gostos – até na esquecida coleção “Manecas”, dedicada aos mais novos.

Os mais velhos ter-se-ão deliciado com a coleção “Grandes Mistérios/Grandes Aventuras”, que introduziu o autor acima mencionado: Richard Williams, do qual muito pouco se sabe, criou um detetive londrino mas cidadão do mundo, capaz de resolver os casos mais intrincados com a suavidade com que luz atravessa uma cortina durante o ocaso solar.

Autor prolixo, pleno do recheio do que alguns chamam “pulp fiction”, a sua obra lê-se de um fôlego e sem demais moléstias, entretendo e quiçá revigorando o apetite literário de quem julgava já não o ter. “O Cartucho Queimado” ou “Faro Canino” são apenas dois dos títulos que Richard Williams deixou à nossa disposição, caso queiramos dar-nos ao trabalho de o procurar na poeira dos livros. Garanto que neste, como noutros casos (Richard Young, Steven Miller, Géo Duvic) o pó que nos deitam para os olhos mais não faz que deixá-los abrir para um admirável mundo... antigo.