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A árvore da vida

“Blade Runner 2049” responde ao filme de culto de 1982 com solenidade e tragédia: é um conto sobre a mortalidade e não dá de barato os seus mistérios

O título não se refere, nem sequer remotamente, ao filme homónimo de Terrence Malick, mas a verdade é que há em “Blade Runner 2049” (e, contando isto, nada se está a estragar...) uma árvore morta de onde um sinal de vida é captado, logo nas sequências iniciais, e para onde tudo converge a partir daí. Tudo e nada se dirá também se acrescentarmos que, tal como era esperado, esta sequela vai mergulhar em assuntos profundos, já que é a existência da Humanidade (e a sua mortalidade inexorável) que aqui está em jogo.

A ação do “Blade Runner” original, realizado por Ridley Scott (e filme que, na sua época, nem foi o êxito comercial que dele se esperava, embora tenha ganho como poucos um estatuto de culto) deixara-nos em 2019, numa Los Angeles distópica e pós-apocalíptica. Muitos se recordarão ainda do agente Deckard, a personagem de Harrison Ford que palmilhava os escombros da cidade à caça de “replicantes”, androides construídos a uma escala tão humana que, dessa humanidade, começavam a ganhar consciência. Pelo caminho, Deckard apaixonava-se por uma das “replicantes”, Rachael (que Sean Young então interpretou), ou seja: caía de quatro por uma simulação virtual da realidade — um dos temas que mais alimentou a Hollywood daqueles anos 80.

Trinta anos depois da ação do filme matriz, “Blade Runner 2049”, agora realizado pelo canadiano Denis Villeneuve (Scott está na produção), dá seguimento àquela história (que também era a de um amor impossível) numa L.A. ainda mais desolada, cibernética e high tech. O agente “K” (“KD6-3.7.”, para ser mais exato), que Ryan Gosling interpreta, assume a priori a função que Deckard desempenhava em 1982. A empresa para a qual ele trabalha, a Tyrell Corp. (que vem da personagem de Joe Turkel do filme original), liderada por uma espécie de ‘guru’ cego (Wallace/Jared Leto), parece-nos agora uma despótica associação secreta, uma vez mais interessada em liquidar os androides que se escaparam do seu raio de ação. Ainda resistem alguns nos confins da cidade — e “K” é o exterminador de serviço.

contece que “K”, vamos saber de seguida, “nunca viu um milagre”, tal como lhe diz a primeira criatura que ele abate. Não acredita que haja vida na árvore morta e pasma-se com uma flor que ele encontra e provavelmente nunca viu, levando-a para laboratório. Em casa, vive um romance virtual com uma beldade cibernética chamada Joi (Ana de Armas), a quem ele tenta em vão dar vida real. Porém, talvez Joi não passe de uma alucinação, ou, para voltar a uma palavra que o filme repetirá várias vezes, de um “milagre”. E “K”, acredita? Percebe-se de seguida que, para o protagonista, esta será acima de tudo uma jornada interior e edipiana: a de um herói ambíguo (como Deckard já o tinha sido) à procura da sua identidade e de si próprio, aspeto que se torna evidente quando a personagem de Harrison Ford entra em cena.

“Blade Runner 2049” traça um paralelo com muitos filmes do cinema americano das últimas décadas, de “Terminator”, de James Cameron a “A.I.” e “Minority Report”, ambos de Spielberg, até “Avatar” (também de Cameron) ou o mais recente “Her”, de Spike Jonze. No grande ecrã, o espetáculo tira todo o proveito dos ecrãs IMAX para os quais a obra foi construída, é digno de assim ser visto (não lhe faltarão Óscares nas categorias técnicas), sobretudo quando os amarelos torrados à la Kubrick ganham espaço nas cenas de ação que precedem o desfecho. E contudo, neste filme que tende a insinuar-se no terreno da tragédia grega, lamentamos que a empatia do filme inicial se tenha perdido, porque tudo neste trabalho de Villeneuve é sorumbático e de um negrume sem remédio. Perdeu-se o piscar de olho ao film noir do filme matriz, aquela veia (apesar dos product placements dos estúdios Sony...) para a confusão e para o caleidoscópio asiático (havia cenas em 1982 rodadas no que ‘restara’ da Chinatown de Los Angeles), aquele lado tão retrofuturista em que Deckard nos fazia pensar em Mitchum ou em Bogart. Nas cenas de ação finais, Villeneuve também perde garra e tensão: não é James Cameron quem quer. Pelo seu lado, “Blade Runner 2049” fica preso às ruínas do seu interior (fazem falta ao filme mais personagens como a daquele Dr. Texugo), ao seu ‘deserto dos tártaros’ e às obsessões de Villeneuve pelo caos e pelo colapso. Sinal dos tempos? Talvez. Mas não sentimos que houvesse aqui história nem linhagem que traduzissem as intenções do guião. Até as aparições de Monroe e Sinatra já nem memórias são, apenas imagens quebradas, muletas de reportório que nada dizem a “K”. Gostávamos de escrever, como já houve quem escrevesse, que “Blade Runner 2049” nos fez esquecer o filme de Ridley Scott. Gostávamos de sublinhar que este foi um passo em frente para o autor de “Arrival”. Mas nem uma nem outra coisa se verificaram