Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Reflexões sobre o nazismo

“Durante o extermínio, os judeus são um mosaico de mil facetas, avaliam a situação, agem e caem em armadilhas que não conseguem ver. A sua história é a de indivíduos muito diversos que, de facto, são tudo menos passivos, mas não conseguem reconhecer a linha de um destino que tudo cobre.” Por estranho que nos pareça hoje, longe da situação, “a maioria acreditava de facto no que os alemães lhe diziam: que iam para Leste, para campos de trabalho”

Luís M. Faria

Jornalista

“Seria fácil dizer que os judeus aprendem a Shoah de uma maneira privilegiada, mas não é verdade”, afirma Saul Friedländer neste livro. A frase exprime a sua resistência a determinismos cognitivos — há muitos bons historiadores do Holocausto que não são judeus, e há historiadores judeus que Friedländer não aprecia. Noutros aspetos, também, convém evitar generalizações. “Durante o extermínio, os judeus são um mosaico de mil facetas, avaliam a situação, agem e caem em armadilhas que não conseguem ver. A sua história é a de indivíduos muito diversos que, de facto, são tudo menos passivos, mas não conseguem reconhecer a linha de um destino que tudo cobre.” Por estranho que nos pareça hoje, longe da situação, “a maioria acreditava de facto no que os alemães lhe diziam: que iam para Leste, para campos de trabalho”.

Friedländer podia igualmente ter perdido a vida nessa altura. Nascido em 1932, em Praga, foi criado em França e só escapou porque os pais o esconderam numa escola católica durante a ocupação alemã; para eles, o destino final foi Auschwitz, onde morreram gaseados. Com um passado assim, seria fácil ter ficado obcecado com a Shoah. Porém, embora Friedländer a reconheça como o evento que define a sua vida, ela não lhe turva a visão como historiador. Pelo contrário: fá-lo insistir na distinção entre o que é factual e o que não é — por exemplo, entre as obras de História e obras cinematográficas sobre temas históricos. No caso destas, “depressa se percebe o que significam (...) quer as caricaturas quer as representações que pretendem ser sérias”. Apesar dessa reserva, ele faz caracterizações muito percetivas de filmes (de Fassbinder e Syberberg a Lanzmann e... Begnini) neste livro-diálogo com o especialista em cinema Stéphane Bou. As representações artísticas da Shoah e os respetivos limites são um dos principais temas abordados. Outro é a história dos historiadores que se ocuparam do assunto, desde Raul Hillberg até aos mais recentes, funcionalistas, intencionalistas (como ele) e mistos. Um leitor interessado acaba por ficar com uma boa lista de leituras essenciais.

Alguns capítulos são dedicados à grande obra de Friedländer, “A Alemanha Nazi e os Judeus”, bem como a debates historiográficos que ela obviamente não resolveu mas aos quais dá uma contribuição essencial. Por último, fala-se da chegada de Friedländer a Israel em 1948. Embora por regra ele prefira as cartas e os diários às memórias pessoais, o seu próprio livro de memórias deve ser algo de notável, a julgar pelas qualidades de observação e juízo patentes nesta conversa.

Reflexões sobre o nazismo

Saul Friedländer
Sextante, 2017, trad. de Artur Lopes Cardoso, 191 págs., €16,60
Ensaio