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Nem tudo o vento levou

josé carlos carvalho

Aos 80 anos, a estreia de Vanessa Redgrave na realização é uma elegia sobre e para os refugiados. E uma prova da intensidade de uma atriz para quem o ativismo foi sempre o seu mais importante papel. Conversou uma hora com o Expresso. E já nada será como antes

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

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Jornalista

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

Não se sai ileso do furação Vanessa. Ela é grau 5 e por isso a sua capacidade destruidora é imensa e imprevisível. Mas não se anuncia logo, apresentando-se como uma suave e benigna brisa outonal, daquelas que só têm força para fechar janelas ou revirar guarda-chuvas. Com um guarda-chuva revirado podemos nós bem, pensamos. E pensamos isto porque ainda estamos nos cumprimentos e nos primeiros minutos de conversa. Ainda só nos ofereceram água com gelo e se falou do tempo — uma manhã chuvosa em Cascais, no terceiro dia dela no país, o dia em que o seu documentário, “Sea Sorrow”, iria ser exibido em Lisboa. Ainda falta dizer ‘aquela’ palavra dissonante, aquele termo impreciso, aquela generalização que a faz subir às paredes, e que a transforma na tempestade que — havia indícios — devíamos ter adivinhado.

Não a julguemos mal: ela tem idade para se dar a esse luxo. E tem a fibra para se redimir no fim, quando o interlocutor a custo se ergue dos destroços. Uma sessão com ela pode ser tão destruidora quanto produtiva, sem que tal seja uma contradição. Não o é, de todo. Estamos perante alguém capaz de nos varrer do mapa e a seguir moderar a voz até ficar quase inaudível, intercalando um “darling” em nome da paz, e para deixar claro que tudo o que faz, fá-lo por amor. Nessa manhã de segunda-feira, recebeu-nos num hotel de Cascais logo depois do pequeno-almoço e de aceitar ser só ligeiramente maquilhada para as fotografias. Quando o filho Carlo Nero abriu a porta do quarto, manteve-se uns passos atrás dele, à espera da sua vez nos cumprimentos, que deu de forma cordial e quase, quase efusiva.

É alta, magnificente nos seus 80 anos feitos em janeiro. Vanessa Redgrave em pessoa, o grande monstro do teatro, a atriz do “Blow-Up” de Antonioni e do “Julia” de Fred Zinnemann, que em 77 ganhou um Óscar para melhor atriz secundária. Ela trará este filme à conversa, ou àquilo que só sob um certo olhar foi uma conversa, porque conheceu Muriel Gardiner, a resistente antifascista que inspirou o papel. E porque “Sea Sorrow”, sobre a crise dos refugiados na Europa e a sua estreia como realizadora, é também ele um grito de resistência. “Há anos e anos que estou envolvida com o problema dos refugiados”, esclarece, “é um tema que jamais me abandonou”. Nada que não se esperasse da mulher que, a par de “Julia”, produziu e narrou o documentário “The Palestinians”, em defesa dos direitos destes, irritando a Jewish Defense League ao ponto de a chamar de antissemita.

Ativismo. Figura imensa do teatro e do cinema, Vanessa Redgrave sempre teve um lado político e social. Foi militante no Workers Revolutionary Party, concorreu várias vezes ao parlamento e chegou, com o irmão Corin, a fundar o Peace and Progress Party

Ativismo. Figura imensa do teatro e do cinema, Vanessa Redgrave sempre teve um lado político e social. Foi militante no Workers Revolutionary Party, concorreu várias vezes ao parlamento e chegou, com o irmão Corin, a fundar o Peace and Progress Party

josé carlos carvalho

Mas ela não fará alusão a este incidente, no fundo, hollywoodesco. Contará antes como o seu grande amigo Rade Serbedzija, cidadão da antiga Jugoslávia, e grande ator e realizador, se tornou um refugiado “da noite para o dia, sem que alguma vez imaginasse que tal pudesse acontecer”. Atuava numa sala de Sarajevo quando atiradores dispararam desde o telhado do hotel Holiday Inn, na rua mesmo em frente. “Depois voltou para Belgrado, onde acabara de nascer Nina, a primeira filha, e foi celebrar num restaurante com amigos. E um homem entrou e alvejou-o, e com sorte não o matou. Rade e Lenka fugiram para a Eslovénia e a seguir para a Inglaterra, onde fizemos um apelo humanitário.” Foi assim a imersão de Vanessa na guerra dos Balcãs, tema que não abandonaria tão cedo. E foi também pretexto para a primeira alfinetada da conversa: “Rade Serbedzija. Escreva. Espero que consiga lembrar-se do nome.”

“Sabe porque lhe conto isto? Porque está muito ligado à história dos anos 30, na qual os meus pais estiveram muito envolvidos, e à história atual. Pergunta-me porque fiz o filme. Porque, enquanto criança que viveu a II Guerra Mundial, estive sempre obcecada com o que aconteceu. E a minha obsessão maior é, compreensivelmente, a razão porque aconteceu e se pode acontecer de novo.” Na prática, tudo começou com uma performance que Redgrave organizou para angariar dinheiro: subiu ao palco ao lado da sobrinha Jemma e recitou a cena de “A Tempestade” em que Próspero fala com a filha Miranda sobre o seu exílio — o mesmo trecho de Shakespeare lido por Ralph Fiennes no documentário e de onde veio o título “Sea Sorrow”. “Angariámos o dinheiro, mas, entretanto, toda a gente, eu incluída, ficou atormentada com a visão de Alan Kurdi, o menino de Kobani. E percebi que este filme era uma tarefa urgente e inadiável.”

E aqui surge a palavra dissonante, aquela que fará surgir a borrasca. O efeito devastador das palavras que, uma vez ditas, não se podem desdizer. Cometemos o erro de falar de migração, de migrantes. “Perdão, porque diz ‘migrantes’? Porque toda a imprensa fala de migrantes? Eles são requerentes de asilo. São refugiados de guerra a tentar obter asilo. ‘Migrantes’ é uma expressão da direita que muitas pessoas que não são de direita estão a usar. E isso aterroriza-me”, reage. Objetamos que o sentido pode ser também outro: o dos grandes movimentos populacionais, a que Umberto Eco ou Zygmunt Bauman indistintamente se referem. “Não acho que tenha outro sentido, não. Esta é uma das principais razões porque fiz este filme. Porque, nos media, a direita fala de migrantes. Os governos falam de migrantes. Mas nós, que trabalhamos com os migrantes, sabemos o que eles são. São refugiados.”

Há uma nova Vanessa Redgrave a sair de dentro da Vanessa Redgrave que nos abriu a porta daquele quarto. Já tínhamos lido sobre ela: sobre a capacidade argumentativa de quem concorreu várias vezes ao Parlamento e tem um longo historial de causas sociais, sobre a mulher que não quer ser importunada com questões sobre a vida privada — há um ano, um jornalista do “Guardian” ouviu das boas quando lhe perguntou pelo ataque de coração que quase a matou em 2015 ou pela perda da filha Natasha em 2009 —, sobre a entrevistada que devolve as perguntas feitas como boomerang de força redobrada. E que, na verdade, até tem razão. “Sabe, há uma distinção muito clara. Para mim, é como dizer que temos de parar de chamar tigres aos elefantes. É uma infeção, uma doença. Enquanto uma só pessoa — uma pessoa boa e comum, como você — aceitar essa palavra, os governos terão o poder de continuar a não aplicar a lei. É por isto que fiz o filme. Porque pessoas ótimas e inteligentes usam esta palavra, e esta palavra está a ajudar os governos a fugir à lei”, diz com a voz já cansada.

Mas estamos apenas no início. Ela não quer largar tão cedo aquela imagem. Atrevemo-nos a comentar que a Europa ficou chocada, mas pouca coisa mudou. “Que Europa? Os jornalistas? Desculpe, mas sou muito específica. Estou habituada a examinar cada pequena alteração. Deixe-me dar-lhe um par de factos antes de responder. Sabe o nome do lugar onde o menino foi encontrado? Chama-se Bodrum, e é um pequeno resort para onde vão as pessoas ricas com os seus iates. É por isso que o mundo viu essa fotografia. De Bodrum a Kos, a ilha grega que a família tentava alcançar para pedir asilo, há uma distância de pouco mais de 4 km. A distância mais curta que alguém pode imaginar até ao destino, se esse alguém for um refugiado. Outro facto: diariamente, há um ferryboat que faz o percurso entre Bodrum e Kos. Um grande amigo meu, Martin Sherman, que participa no filme, esteve nesse ferry e teve o azar de apanhar uma tempestade. E disse que, mesmo sendo um barco grande e pesado, ficou aterrorizado. Para mim, esta é a escala da inumanidade dos governos a União Europeia, esses 4 km. Porquê? Vou ser o mais específica possível. Como você disse, todos ficaram chocados, David Cameron ficou chocado. E provavelmente era verdade. Se isso mudou alguma coisa? Sim, mudou: eles tornaram as leis ainda mais duras, mais perigosas e mais cruéis para os requerentes de asilo. Este foi o resultado do impacto daquela imagem. O dinheiro foi para a Turquia, e aqueles refugiados que sobrevivessem e conseguissem chegar à Grécia passaram a ser deportados para a Turquia. E os governos europeus, a Inglaterra incluída, pagaram para isto acontecer.”

E que leitura faz da indiferença e da hostilidade europeias? Será que a Europa perdeu a memória? “Você perdeu a sua? Eu não perdi a minha. Indiferença é uma palavra muito educada. Tenho aqui comigo dicionários, pare de usar fórmulas. Por outro lado, quem na Europa? Os governos? É que são mesmo eles, não as pessoas. Vou falar do meu próprio país e dos seus partidos políticos. Não há um só que tenha incluído as leis internacionais e o direito de asilo no seu programa. Os direitos humanos não passam de um aborrecimento, um incómodo, e foram deliberadamente retirados da agenda. Qual o significado disso num país como o meu, de certa forma importante, que tem uma voz, que está a tentar sair da Europa e é amigo de [Donald] Trump? É estar a caminhar para uma ditadura. E não há ‘talvez’. Alguns dos nossos melhores juízes reformados têm dito — e os juízes são muito cuidadosos com a linguagem, não falam superficialmente como você ou como eu — que tudo isto pode levar ao fim da democracia.”

Falar superficialmente é, para Redgrave, dizer coisas “bonitas” como “esquecer as lições da História”. É não dizer que o que está a passar-se é algo bem mais grave e profundo. “É destruir o que foi conquistado no pós-guerra, destruir a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Esta declaração de valores e princípios não é uma lei, essas vieram depois: a Convenção de Genebra, a Convenção contra o Genocídio, a Convenção contra a Tortura e, em 1989, a Convenção sobre os Direitos da Criança. Todas elas foram assinadas e ratificadas, e muitas são obrigatórias, o que significa que um governo não pode mais tarde simplesmente ‘esquecer-se’ disso”, prossegue. “Ninguém que, como eu em criança, tenha visto uma cidade incendiada e reduzida a escombros pode aceitar isto. E eu estava segura em casa, a 70 milhas dali.”

Os pesadelos dessa época assaltaram Vanessa até à idade adulta. Ela estava lá, aos dois anos, a ser evacuada de Londres — num tempo em que a expressão ‘deslocado interno’ ainda não existia, em que as palavras para nomearem os efeitos devastadores da guerra estavam a ser criadas. Mais tarde, em 1956, teve um papel ativo na ajuda aos húngaros que, esmagada a revolução, chegavam à Inglaterra. Esta atitude de acolhimento contrastou com a postura restritiva do governo de Chamberlain em finais dos anos 30, como alerta a sufragista Sylvia Pankhurst numa carta aberta escrita a seguir à Kristallnacht, que Redgrave inclui no documentário, lida por Emma Thompson. “Contei isto no filme porque pessoas inteligentes e informadas, como você, não fazem ideia do que isso é. Talvez você faça, e esteja a guardá-lo para si. Claro que é a sua resposta profissional, uma espécie de resposta automática, porque não me falou de qualquer dos seus sentimentos. E tem todo o direito de guardá-los para si. Mas se eu vivi assim aquela situação, multiplique por cem o tipo de trauma que enfrentam as crianças refugiadas.”

Em “Sea Sorrow” vemo-la na já desmantelada ‘selva’ de Calais, em Itália, na Grécia, no Líbano. Agora, em Portugal, está feliz por ter feito mais uma descoberta: “Ontem aprendi que em 1975 e nos anos seguintes, algo assim como 800 mil homens, mulheres e crianças, sobretudo de Angola e Moçambique, mas também de outros países, vieram para Portugal e foram bem-vindos, ninguém os rejeitou. Eles tornaram-se portugueses e cidadãos en place — o termo legal é in situ.” Conto-lhe que a palavra para os designar era ‘retornados’, aqueles que voltaram. “É uma palavra muito boa, porque é exata e é também inteligente. Porque a palavra usada por um governo é aquela que as pessoas comuns passam a reproduzir. O governo australiano chama os refugiados de ilegais, então as pessoas pensam: ‘não podemos ter ilegais’. Mas eles não são ilegais, são ilegais para o governo australiano, percebe a diferença?”

Neste ponto, já só nos limitávamo-nos a seguir a máxima dos navegantes — jamais contrariar a corrente. E esta em particular era demasiado forte, demasiado voraz. A última imagem filme mostra uma mulher com um bebé ao colo, embrulhada num cobertor térmico. Está sentada no chão, o cabelo ainda molhado da travessia, petrificada do choque. Arriscamos a perguntar o que representa. “É uma metáfora, uma elegia. O filme é mais um poema do que um documentário. Ainda que não haja nada ali que não seja um facto. Mas aquele cobertor, que parece pouca coisa, não o é. O lado prateado perto da pele e o dourado para fora protege do frio. Virado ao contrário, o lado prateado para fora protege dos raios do sol. Quer ver um?” Incrivelmente, Vanessa levanta-se e desaparece dentro do quarto de dormir. Ao regressar traz na mão um pequeno saco transparente com dois daqueles cobertores.

“Não é uma surpresa que só na Alemanha seja possível comprá-los. Esta é uma das coisas que os outros países poderiam fazer. É uma pequena peça da ajuda humanitária. Porém, aquilo em que devemos insistir é no cumprimento da lei. A lei não se aplica menos em tempos de crise do que em tempos de prosperidade. Até porque a prosperidade nunca atinge toda a gente”, recomeça. De repente, interrompe-se: “Porque sorriu? Sim, sorriu, não vale a pena negar, só quero saber porque o fez. É um sorriso muito bonito, sem dúvida.” Não adianta repetir que o sorriso nunca lá esteve, que foi apenas um gesto de assentimento. Nem adianta recusar-lhe o pedido de consultar uma entrevista que citámos, e que lê por inteiro, divertida, à nossa frente. “Não estou a insinuar que não me está a dizer a verdade, nada disso. Mas as pessoas que falam sobre mim nem sempre falaram comigo.” Como não acreditar?

E então é chegada a altura em que, depois de uma hora de conversa ininterrupta, ou daquilo que só sob um certo olhar foi uma conversa, a Redgrave nos lê o pensamento. “Você deve pensar porque é que esta mulher é tão difícil. Sei que posso ser descortês, impertinente. Sei que sou desafiadora. Claro que sou, estou no fim da minha vida. Penso que a maior parte das pessoas desperdiça a sua vida. A maioria das pessoas está agitada por sentir que não está a viver uma vida completa. E está certa. Eu não estou a desperdiçar a minha, por isso faço aquilo que faço. Por isso fiz este filme e escolhi tentar levar os outros a repensar e a reexaminar, e talvez a ler um bocadinho. É uma escolha. Então, já chega. Disse que era a última pergunta.”

Pede para desligar o gravador. E com esse pedido ela parece desligar também qualquer coisa. Tudo o que diz a partir daqui mostra que a Vanessa que abriu a porta do quarto, aquela mulher esplendorosa e outonal, está de volta. “Não escreva. Ou se lembra disto ou não”, observa. O tom já mudou, a ventania amainou. É quase, quase, agradável. As forças da natureza são mesmo assim: incontroláveis. Agora até queremos ficar ali sentados. Na hora da despedida, agarra-nos pelos ombros e fixa no nosso o seu olhar azul, que o cinema imortalizou e ao qual a idade não diminuiu a intensidade. Oferece um beijo e um abraço forte, sanguíneo, como tudo nela o é. Lá fora, o mundo continua igual, a mesma manhã chuvosa. Mas nada permanece igual. O furacão Vanessa passou por nós e, mesmo que à pancada, aprendemos umas coisas.