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António Lagarto: “Acreditei que ia dar dignidade à cultura”

Foi este ano o grande homenageado 
do Festival de Almada, acabou fazer a cenografia para a “Viúva Alegre”, na Opera de Paris, e está já a trabalhar na “La Traviata”, para o São Carlos

luís barra

Como descobriu o outro lado do palco?
Aí aos meus nove anos comecei a estudar música, piano. Queria ser maestro. Já tinha o sonho de estar à frente das lides de qualquer coisa. Só que ao contrário do maestro preferi as lides atrás do palco. Com 17 ou 18 anos entro em Arquitetura, mas acabo em Londres na St. Martin’s School of Art. Os espetáculos acompanharam-me sempre, o teatro e a ópera, sobretudo. Estava a estudar artes plásticas e, em 1974, por aí, é o momento em que se desenvolve o movimento da performance art, é por aí que enveredo.

É daí que chega ao teatro?
Sim. Passo a olhar para o espetáculo com o seu texto, mas do ponto de vista performativo. É uma inversão assaz curiosa. É fazer o pino. E aí começo a interessar-me pelas instalações, que não é mais do que criar um espaço a partir de determinados elementos.

É nessa altura que recebe um telefonema do Ricardo Pais para fazer a cenografia de “Ninguém — Frei Luís de Sousa”?
Em 1977, precisamente. Assim chego à cenografia. Fazendo uma cenografia muito construída, com laivos bastante convencionais do ponto de vista cenográfico, mas com a intenção de criar uma espécie de contentor para a peça e que ele pudesse no seu todo condensá-la.

É assim que pensa cada peça, como um contentor?
Penso. O meu objetivo é conseguir sintetizar nalguns elementos o todo. E que a cenografia seja como uma lata de conservas que contém toda a peça.

O que é mais importante que a cenografia transmita ao espectador?
A atmosfera do espetáculo e a atmosfera da própria mise-en-scène. Nunca sei o que vou encontrar. Vivo com um buraco negro à frente até que se vai abrindo uma luz, como numa câmara fotográfica.

E como é que cria essa magia do teatro, a primeira coisa que vemos quando o pano corre?
Não sou capaz de dizer como crio, acredito que não sei como se começa. Acho que penso na luz e nos seus elementos. Tenho que encontrar para mim próprio uma magia, vislumbrá-la e encontrar o foco a partir daí. É assim que se faz o pombo sair da cartola, ou o coelho.

O teatro e a ópera empobreceram, ou não?
Não. Hoje em dia os meios que podemos utilizar são infindáveis. O progresso tecnológico trouxe-nos coisas diabólicas demais. Às vezes há tecnologia a mais. Mas acredito que a sociedade está sempre a renovar-se e a renovar o teatro e a ópera, alterando o modo como ambos os espetáculos se fazem.

O que difere mais entre o teatro e a ópera?
Na segunda temos a música, no teatro a música da palavra. Ou vamos atrás da música e ela leva-nos ou fixamo-nos na palavra.

A ópera é mesmo o ponto alto da cenografia?
Não para toda a gente, mas para mim é, claro.

Nunca sentiu vontade de passar para cima do palco?
Não, ser ator não. Fui ator quando era miúdo e era muito canastrão. Não gostava de sentir aquela aflição de ter uma branca e não ser capaz de me lembrar do texto todo. Possivelmente os atores têm a mesma angústia e o mesmo medo. Quis sempre controlar mais tudo o que se passava à minha volta. Gostaria de ter encenado qualquer coisa, mas nunca cheguei lá.

Porque aceitou ser diretor do Teatro Nacional D. Maria II, em 2005?
Tinha ido para o Teatro Nacional com o Ricardo Pais, em 1989, para subdiretor. Fomos os primeiros criadores após o 25 de Abril a aceitar cargos de chefia. Nessa altura, em termos organizacionais, os teatros estavam muito mal geridos. Nós tínhamos ideias que gostaríamos de ver aplicadas. Queria ver os teatros do meu país como os teatros que conhecia em Inglaterra, onde fui continuando a viver. Fui desafiado segunda vez e voltei a aceitar. Sabia da poda. Um cenógrafo ou figurinista está sempre à frente de uma grande equipa, tem que falar com o carpinteiro, com o serralheiro, desde o encenador até quem faz, as costureiras, as tintureiras... Isto dá-nos uma capacidade de diálogo enorme. Tendo-a e gostando de lidar com as pessoas, torna-nos pessoas apetecíveis para esses cargos. Acho que foi isso que o Amaral Lopes [secretário de Estado da Cultura] viu em mim. Tinha o perfil.

Não me disse porque aceitou, disse-me porque o convidaram.
Aceitei porque era um desafio, uma coisa nova que achava que podia fazer um bocadinho melhor. Tinha vontade de dar qualquer coisa ao país. Acreditei que tinha algo para pagar ao país. E o modo como organizar os teatros nacionais era uma conversa que fazia parte da minha vida há muito tempo. Aceitei. Pensei que poderia ajudar. Sempre tive uma dimensão portuguesa. Depois achei que já tinha dado o que queria dar ao país mas que o país não queria.

E o país agora quer?
Já não me interessa. Agora sou eu quem quer fazer o que quer. Voltei para cá definitivamente, estou bem aqui. Tenho pena que as coisas não funcionem bem. Nas artes e na cultura o défice orçamental é terrível. A Cornucópia acabou e ninguém lhe deitou a mão. Os meus colegas de teatro de companhias independentes não sabem com o que contam.

São condições muito difíceis?
Dificílimas. Já fiz espetáculos como convidado porque não têm dinheiro para me pagar. Respondo sempre que tenho dinheiro para a sopa. Não é com o que vou ganhar que não vão fazer o espetáculo. Tem havido uma carolice. Somos nós que estamos a dar à cultura porque acreditamos que ela é muito importante. No entanto, apesar de não me poder queixar, vejo os artistas muito maltratados e sem dois cêntimos para produzirem um espetaculozinho com dignidade.

Era mais fácil antigamente?
Nos anos 90, eu e o Ricardo Pais acreditávamos que íamos dar dignidade a esta profissão.

Essa era a esperança?
Era, mas não criou muitas raízes. Nenhum teatro português tem dinheiro, nem os nacionais. Aquilo que têm para tratar a cultura e os agentes culturais com esse mínimo de dignidade é confrangedor.

Como sentiu a homenagem que o Festival de Teatro de Almada lhe prestou este ano?
Nunca esperamos essas coisas, é sempre para os outros. Foi agradável e estranho. Estamos habituados a homenagear os outros e aquele papel é pouco ingrato.

Como surgiu a oportunidade de fazer os cenários para a “Viúva Alegre”, agora em cena na Ópera de Paris?
Já tinha feito dois espetáculos com o encenador Jorge Lavelli, o último dos quais chamava-se “Eslavos”, e esteve em cena no Teatro La Coline. O diretor da ópera, Hugh Gaal viu e convidou o Jorge para fazer a “Viúva Alegre”. E o Lavelli convidou-me a mim para o seguir.