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Bill Fontana, o homem que nos traz o som das sombras

Aos 70 anos, o compositor e artista americano já apresentou obras suas em todo o mundo

Luis Barra

O artista norte-americano é o autor de “Shadow Soundings”, a nova instalação imersiva de som e vídeo do MAAT, em Lisboa. Bill Fontana, pioneiro em experiências artísticas com som, trabalhou na Ponte 25 de Abril nos últimos meses e o resultado foi apresentado ao público esta quarta-feira. Foi o cicerone de uma visita do Expresso

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

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Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

Bill Fontana é o maestro de uma orquestra muito maior do que ele, mas foi ele a captar-lhe o som. A fazer com que ela desse tudo o que tem dentro de si, a libertar o seu gemido gutural e contínuo. O som característico da Ponte 25 de Abril era apenas conhecido por aqueles que a atravessam — e como se fosse incómodo o que agora é arte — no entanto agora tudo será diferente. O compositor e artista norte-americano, que faz experiências artísticas com recurso ao som há 50 anos, está em Portugal para mostrar que estavam todos enganados.

Em “Shadow Soundings”, a nova instalação imersiva de som e vídeo prestes a inaugurar no MAAT, são as sombras que cantam. “As pontes são interessantes em geral, mas esta é, por variadas razões, uma das mais interessantes”, considera Bill Fontana, justificando que a ponte suspensa rodoferroviária, que liga as cidades de Lisboa e de Almada, “tem um som constante e muito icónico”. “Uma das coisas que quero fazer na exposição do MAAT é trabalhar com o som de uma forma que dê aos lisboetas a oportunidade de experienciarem a ponte de uma forma diferente.”

Revelar as suas propriedades musicais é uma das coisas que mais interessa ao artista nascido em Cleveland, no Ohio, quando trabalha com pontes, mas não é a única. “Visualmente, também é uma estrutura muito interessante.” A atração de Fontana por estruturas funcionais não é nova e foram várias as vezes em que já deu o seu contributo para um novo olhar sobre o património edificado.

Depois de já ter apresentado os seus trabalhos em museus tão diversos como os norte-americanos Whitney Museum of American Art de Nova Iorque ou o californiano San Francisco Museum of Modern Art, mas também diversos europeus — como o Museu Ludwig de Colónia, o Post Museum de Frankfurt, o Art History and Natural History Museums de Viena, a Tate Modern ou a Tate Britain de Londres — e australianos (National Gallery of Victoria, em Melbourne, e Art Gallery of NSE, em Sydney), entre outros, é por Lisboa que está. E não esquece como veio parar à capital portuguesa.

“Conheci o diretor do MAAT, Pedro Gadanho, quando ele ainda estava no MoMA, em Nova Iorque”, conta, lembrando-se de como tudo aconteceu. “Soube que estavam a criar este novo museu em Lisboa e um amigo meu sugeriu-me que falasse com o Pedro, porque talvez ele estivesse interessado num projeto com a Ponte 25 de Abril.” Não podia estar mais certo. “Encontrei-me com o Pedro e ele pareceu estar interessado na ideia.”

Luis Barra

De São Francisco para Lisboa

Estávamos no final de 2015 e o projeto que Fontana tinha conduzido em São Francisco, com a Golden Gate Bridge em 2012, ainda estava muito presente. Tinha sido a sua primeira experiência com vídeo — já havia estado a ouvir a icónica ponte norte-americana em 1987, por altura dos 50 anos da estrutura — e havia voltado pelo 75º aniversário. Para Lisboa era preciso fazer algo diferente. E assim foi.

A primeira visita técnica (e artística) à Ponte 25 de Abril aconteceu poucos meses depois do encontro entre Fontana e Gadanho e o objetivo era “perceber se era interessante e se seria possível” fazer um trabalho que envolvesse a 25 de Abril. Percebeu logo ali, em março do ano passado, que queria mesmo fazer o seu primeiro trabalho a envolver uma estrutura portuguesa. “A minha primeira impressão, da primeira vez que vi a ponte e que fomos à parte de baixo [entre o tabuleiro automóvel e a linha férrea], foi que tinha umas sombras incríveis”, lembra o artista. “Decidi imediatamente que ia fazer isto.”

Luis Barra

Em direto, da ponte para o museu

Para o artista, a viver em São Francisco, “isto” é “Shadow Soundings” e o projeto de instalação site-specific é muito maior do que à partida se julgaria. É também o primeiro a contar com live-streaming. “Tenho duas câmaras em direto da Ponte, uma no topo e outra na zona onde passa o comboio e na Galeria Oval do MAAT vamos ter sete ecrãs gigantes, com algumas imagens gravadas e outras em direto”, explica ao Expresso enquanto aponta na direção da ponte.

O entusiasmo era notório — tinha acabado de ser o cicerone da única visita de imprensa ao local — e Bill falava do que tinha criado com orgulho. “Além disso, temos também dois grandes sistemas de som. Um no interior do anel, onde serão ouvidos os sons da ponte, e outro na rampa que circunda a Galeria Oval, onde serão ouvidos em direto os sons subaquáticos do rio Tejo.”
O sound artist gosta de surpresas e, se em 1987 captou os sons de uma colónia de gaivotas em São Francisco, desta vez decidiu que era altura de pôr os visitantes a ouvir o som do Tejo.“Tenho hidrofones na base da torre sul da ponte — que foram instalados com o Instituto Hidrográfico da Marinha Portuguesa — todos os sons serão em direto graças a um sistema de fibra ótica”, avança. Fontana, o homem que “tira os sons das coisas”, dá assim “uma dimensão sonora dinâmica à componente de vídeo transmitida em live streaming”.

“Bill Fontana. Shadow Soundings”, com curadoria do diretor do MAAT, Pedro Gadanho, abriu ao público esta quarta-feira e estará patente no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia até 12 de fevereiro de 2018.