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Daniel Mordzinski: “Tenho passado a vida a tentar dar um rosto à literatura”

Daniel Mordzinski

A exposição Objetivo Mordzinski traz até Lisboa uma viagem pelos principais rostos da literatura ibero-americana. Falámos com o homem por trás da câmara, um argentino de 57 anos a quem chamam “o fotógrafo dos escritores”. “Fotografá-los tornou-se para mim uma necessidade íntima e vital”

Gabriel García Márquez deitado numa cama, sereno, antes da sesta. Saramago com o rosto refletido num pequeno espelho. Agustina Bessa-Luís a pintar os lábios. Não são fotografias, são “fotinskis”. Ao longo dos últimos 40 anos, o fotógrafo argentino Daniel Mordzinski retratou centenas, talvez milhares, de fotógrafos ibero-americanos, incluindo alguns dos maiores nomes da literatura mundial. A partir desta quarta-feira, cerca de 200 desses retratos, 70 dos quais de autores portugueses, vão estar em exposição na grande mostra antológica “Objetivo Mordzinski - uma viagem ao coração da literatura ibero-americana”, que aterra na Casa da América Latina, em Lisboa, integrada no programa da Capital Ibero-Americana da Cultura. Falámos com ele.

Quando é que começou a fotografar?
A minha paixão pela fotografia começou aos 13 anos, no meu primeiro ano de liceu, graças a uma professora de espanhol que organizava cursos extra-curriculares de arte. Nessa altura eu sonhava com uma sucessão de imagens que misturavam fotografia, cinema e literatura. Quando acabei o liceu inscrevi-me na Escola Panamericana de Arte. Um dos meus professores, o realizador Ricardo Wullicher, tinha uma grande influência em mim e propôs-me trabalhar como estagiário no novo filme dele. As filmagens arrancavam algumas semanas depois na Biblioteca Nacional.

Era um documentário sobre Jorge Luis Borges, grande vulto da literatura argentina.
Exatamente. Ao entrar, no primeiro dia de rodagem, reconheci-o logo. Ele já estava cego na altura. Aproximei-me dele, disse-lhe o meu nome, expliquei-lhe que trabalhava como estagiário no filme e contei-lhe que tinha ficava fascinado com alguns contos e poemas dele. "Do que é que gostou nesses contitos?", quis saber. Intimidado pela pergunta, tentei improvisar uma resposta. Borges elogiou-a. De repente, era como se eu fosse o erudito e ele o aluno. Nesse dia aprendi que a humildade era um traço importante do artista. Então, pedi-lhe autorização para lhe fazer umas fotos e com a Nikkormat que o meu pai só me emprestava em ocasiões especiais fiz o meu primeiro retrato de um escritor. A letra Aleph [a primeira letra do alfabeto hebraico] do meu mapa-mundo literário. Isto foi em 1979 e poucos meses depois a ditadura militar argentina pôs fim aos meus sonhos da juventude e fui para Paris.

Começava aí a sua viagem pela literatura iberoamericana.
Creio que foi antes, na adolescência, quando se começa a formar o mundo dos sonhos. Muito jovem comecei a fugir mentalmente da realidade da ditadura militar argentina graças aos poemas de Roberto Juarroz, lendo com ansiedade [Julio] Cortázar e muita literatura francesa também.

Chegou a sonhar ser escritor. Porque é que desistiu?
Como bom leitor era consciente do mal que escrevia, além de que não era capaz de traduzir em palavras o que sentia. Nessa época, as pessoas começavam a elogiar as minhas fotografias e isso levou-me a deixar a escrita e focar-me na fotografia.

O que é que procura com as suas fotos?
Tenho passado a vida a tentar dar um rosto à literatura. Fotografar escritores tornou-se para mim uma necessidade íntima e vital. A minha ideia é deixar estampado em fotografias uma homenagem à vida, uma celebração de que a literatura ferve dentro de mim.

Luís Sepúlveda
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Luís Sepúlveda

Daniel Mordzinski

Eduardo Lourenço
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Eduardo Lourenço

Daniel Mordzinski

Agustina Bessa-Luís
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Agustina Bessa-Luís

Daniel Mordzinski

Rui Zink
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Rui Zink

Daniel Mordzinski

José Luís Peixoto
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José Luís Peixoto

Daniel Mordzinski

Retratou quase todos os grandes nomes da literatura em espanhol e em português. A Saramago, por exemplo, fotografou-o em Paris.
Saramago combinou comigo no hotel Raphael de Paris. Não queria falhar-lhe, desejava estar à altura do momento e fazer-lhe grandes fotos, mas fiz tudo ao contrário: gosto de trabalhar com luz natural e enchi o quarto de refletores; no geral trabalho sozinho e fui com um assistente; costumo ser muito rápido e nessa tarde demorei uma hora; faço quase sempre poucas fotos e dessa vez gastei quatro ou cinco rolos. Dei conta dos meus erros quando revelei as fotografias e voltei a ligar para o hotel para falar com Saramago. Disse-lhe que tinha cometido um erro, desculpei-me e pedi um novo encontro. José era muito bom e generoso comigo, mas regressava a Lisboa no dia a seguir. "E esta noite?", propus-lhe, sem pensar nos problemas de luz. E enquanto ele pensava, acrescentei: "'Retratar é voltar a tratar, dê-me uma nova oportunidade".

Ele aceitou?
Aceitou! Nessa noite, ele jantava com Pilar e uns amigos numa das margens do Sena. Caminhámos junto ao rio e a dada altura passou um Bateau Mouche [barco de cruzeiros] que o iluminou por uns segundos. Consegui fazer tres cliques e soube de imediato que tinha a foto que desejava. Muitos anos depois, ao rever os negativos daquela sessão descubri a foto em que ele segura um espelho com a mão e gostei dela. Percebi então que nós mudamos, mas as fotografias não.

José Saramago fotografado junto ao Sena e refletido num espelho em Paris

José Saramago fotografado junto ao Sena e refletido num espelho em Paris

Daniel Mordzinski

Contou numa entrevista que António Lobo Antunes tinha sido o autor mais difícil de fotografar. Porquê?
Os autores respeitam muito o meu trabalho. Em quatro décadas aprendi que uma coisa é o escritor e outra o que ele escreve. E também que não há nenhuma relação entre qualidade literária e a fluidez do retrato. Além disso, há dias bons e dias maus, tanto para os escritores como para mim. Creio que nessa manhã, no Hotel Suez, em Paris, ambos tínhamos um dia mau.

Lobo Antunes foi o autor mais difícil de fotografar, admite o argentino

Lobo Antunes foi o autor mais difícil de fotografar, admite o argentino

Daniel Mordzinski

E qual foi o escritor que mais gostou de fotografar?
Não é possível dizer um só, são muitos os fazem parte de um território onde se cruza o sentimental, o profissional, o literário e o estético. Os meus favoritos são os que, além da sua obra literária, têm qualidades humanas. Além disso, a amizade é um factor essencial do meu trabalho. Tento sempre fazer o melhor, mas não te nego que se há empatia e se se trabalha com gosto, tudo é muito mais fácil.

Por um acaso do destino fotografou no mesmo dia dois dos maiores vultos da literatura iberoamericana, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa.
Lembro-me do dia: 29 de janeiro de 2010. Estava a participar no Hay Festival de Cartagena das Índias, é uma grande honra ser o fotógrafo oficial dos Hay Festival de língua espanhola. Às 8h da manhã desci para tomar o pequeno-almoço no hotel e encontrei o Vargas Llosa, que me convidou para a mesa dele. Conhecíamo-nos há muito anos, mas nunca lhe tinha feito uma foto singular. Propus-lhe uma Fotinski. "O que é isso?", perguntou-me. "Foto + Mordzinski = Fotinski", expliquei-lhe. "São essas fotos traquinas, mas sempre respeitosas, que gosto de fazer". Aceitou. Disse-me para ir ter com ele às 13h, no final da conferência que ele ia dar. Subi para o quarto para pegar nas minhas câmaras e o telefone tocou. Era Mercedes Barcha, a mulher de García Márquez, a convidar-me para visitá-lo em sua casa. Disse-me: "O Gabo espera-o às 13h". Pensei que na Colômbia tudo era possível. Brinquei dizendo-lhe que um argentino como eu precisava de falar com o psicanalista antes de um encontro tão importante. Perguntou-me se preferia outro dia, respondi-lhe que não. Só lhe pedi que em vez de ser às 13h fosse às 14h. Como é que lhe ia dizer que às 13h tinha um encontro com o Vargas Llosa?

Daniel Mordzinski

Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa (em baixo) foram fotografados na mesma tarde

Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa (em baixo) foram fotografados na mesma tarde

Daniel Mordzinski

Quem é que ainda lhe falta fotografar nesse seu mapa-mundo literário?
São muitos, esse é um dos segredos deste trabalho. Quanto mais autores retrato, mais me faltam retratar. O maravilhoso da literatura é que descobres diariamente livros, poemas, autores que valeria a pena fotografar. Admito que quando imagino o meu trabalho como um atlas sinto uma certa frustração por haver tantas lagoas, tantos oceanos [por fotografar], mas ao mesmo tempo percebo que isso dá liberdade e autenticidade ao meu trabalho. Abarcar todo esse mundo é impossível, mas conformo-me com fazer o melhor que posso na parcela que me calhou viver.