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Clarice Falcão: “Quando vejo uma comediante mulher dando certo fico 10 vezes mais orgulhosa”

Clarice leva a música e o feminismo ao Porto

Foto Credito Leco de Souza

O mundo conheceu-a pela Porta dos Fundos, mas Clarice Falcão é muito mais do que isso. Agora, está concentrada na música, já sonha com o próximo projeto e, mesmo que não queira, é um dos novos símbolos do feminismo. Depois de um concerto intimista em Lisboa, amanhã sobe ao palco da Casa da Música.

Entrevista Carolina Reis Foto Leco de Souza

Como descobriu o feminismo?
Cresci numa família de mulheres de personalidade muito forte. Num ambiente de mulheres muito interessantes. A palavra feminismo desestigmatizou-se há pouco tempo mas eu sempre admirei a força da mulher.

Não acha que ainda tem uma conotação negativa?
A palavra volta e meia é estigmatizada, como se fosse o contrário de machismo. Mas além de as pessoas não entenderem, há muita gente mal intencionada. Há um retrocesso muito grande e muita misoginia, há muita gente com ódio de mulheres. É como se sentissem que estamos a roubar o lugar de alguém, mas é um lugar que sempre foi nosso. É muito confortável a posição de homem branco, de mandar em tudo.

Foi intencional trazer o feminismo para a música?
Nunca quis exatamente fazer uma música como se fosse a porta voz do feminismo. Interesso-me pelo assunto, pela vivência feminina, que eu acho que é um tema que não é explorado o suficiente. São anos e anos a ver o protagonista masculino. Mesmo a literatura feminina e feminista me encanta. Sempre gostei de Zelda Fitzgerald, da Simone de Beauvoir. Cresci com isso. Mas aconteceu de uma forma muito natural. Nunca foi muito pensado. Aliás, eu nem podia ser uma porta voz do feminismo, porque mesmo dentro do feminismo eu sou muito privilegiada. Sou branca, de família classe média alta. Tenho essa noção de que não poderia ser porta-voz de nada. Só faço a minha arte para passar uma mensagem positiva.

Mas não se vê, pelo menos, como uma referência para as mulheres mais jovens?
Fico feliz quando vejo que chego às pessoas. Acho muito legal quando alguém que tem alcance se preocupa com o conteúdo da mensagem, não só com a forma, com aquilo que você está a passar. É o que eu tento fazer. Tento passar uma mensagem positiva, não reforçar estereótipos. E que toda a gente se sinta acolhido e seguro.

“Faço a minha arte para passar uma mensagem positiva”

“Faço a minha arte para passar uma mensagem positiva”

Foto Credito Leco de Souza

Faltam humoristas mulheres porque humor chega mais facilmente às pessoas?
Sim. Há falta de mulheres em muitas áreas. Por falta de oportunidade, até porque é mais difícil para nós. É um problema de falta de oportunidades, porque tudo para nós é mais difícil. Claro que isso também existe num num meio como o humor - que é muito machista e que devia até ser mais progressista. Por isso quando vejo uma comediante mulher dando certo fico 10 vezes mais orgulhosa.

O Brasil está mais machista?
Está mais feminista e mais machista. Acho que é uma tendência mais global. Estamos a ter um movimento progressista e outro muito retrógrado. Está muito polarizado. No Brasil há um movimento muito retrógrado de Bolsonaro. Antigamente, dizia-se que não havia machismo ou racismo, mas agora fala-se. Está tudo mais claro.

Tem escrito e falado a defender a despenalização do aborto no Brasil, que é crime.
Não consigo ter esperança de que seja resolvido em pouco tempo. Gostaria muito. O aborto continua a ser feito, mas as pessoas que têm dinheiro, fazem e as que não têm, morrem. É uma questão de classes. Mas o Brasil é muito religioso. Não vejo como resolver.

Está mais confortável na música do que na representação?
Na verdade, eu fui chamada para o Porta dos Fundos por causa da música. Postei vídeos de músicas minhas e os meninos chamaram-me. Na realidade, eu enjoo muito rápido, estou a fazer uma coisa e já começo a querer fazer outra. Agora, estou mais focada na música, mas gosto muito de misturar.

“Construi um público, que gosta do que faço e segue os meus trabalhos, mas não impede a minha vida de correr normalmente”

“Construi um público, que gosta do que faço e segue os meus trabalhos, mas não impede a minha vida de correr normalmente”

Foto Credito Leco de Souza

Então o quer fazer a seguir?
Gostava de fazer um musical, não tipo Broadway. Mas algo que tenha narrativa e que tenha música. Fiz um pouco isso no especial que lancei na Netflix. Gostei muito de fazer.

Foi difícil lidar com o sucesso da Porta dos Fundos?
Foi uma mudança muito grande. Mas imprensa mainstream não nos considerou celebridade. Daquelas que são fotografadas no centro comercial. Até hoje ainda somos mais low profile. Construi um público, que gosta do que faço e segue os meus trabalhos, mas não impede a minha vida de correr normalmente. Eu ando de metro, vou ao supermercado, normalmente.

Custou despir-se da Clarice da Porta dos Fundos?
Sim. Já eram três anos fazendo. Acho que cada um já estava a ir para um lado. Achei que estava na hora. Sinto que quando faço a mesma coisa muito tempo, faço-o mecanicamente. E paro de me desafiar. Era muito gostoso, era com os meus amigos, o texto era muito bom. Mas começou a ser muito confortável. É importante um desconforto.

Chegou a este disco "Problema Meu" com desconforto?
Queria que cada música tivesse um universo completamente diferente. Tem um rock, um pop, um brega, uma marchinha. Forcei-me a não fazer a mesma coisa que não fiz no primeiro. Se fizer um terceiro vou também tentar ficar desconfortável.