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Tom Petty (1950 – 2017) Um adeus americano

Tom Petty é autor de alguns clássicos do rock americano. Talves “Free Fallin'“ seja o maior de todos

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A 18 dias de fazer 67 anos, Tom Petty morreu esta segunda-feira, rodeado de familiares, amigos e companheiros de banda. Foi o adeus de um homem aparentemente simples, que soube cantar os seus

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

“O mais difícil, no que toca a escrever canções, são as letras. Mas quando encontramos algo com significado e com sentimento…” As palavras são de Tom Petty, mas não foram proferidas numa qualquer entrevista ou num dos milhares de concertos que terá dado ao longo de mais de 40 anos de estrada. Em 2002, o músico que ontem morreu entrava – ao lado de Mick Jagger, Keith Richards e Lenny Kravitz, entre outros heróis do rock – num episódio dos Simpsons em que Homer se inscreve num campo de verão para aprender a ser uma estrela dos palcos. Perante o desinteresse dos participantes na palestra de Tom Petty, o homem de ‘Free Fallin’’ ou ‘I Won’t Back Down’ tenta então cativar a atenção de Homer e amigos com uma letra que, sendo uma autoparódia assumida, não deixa de funcionar como resumo da orientação da obra do cantor-compositor.

“See that drunk girl speedin' down the street?
She's worried about the state of public schools
She likes to party, she likes to rock!
She prays that our schools don't run out of chalk”

Ao longo da sua carreira, com os Heartbreakers mas também a solo, Tom Petty nunca abriu mão de uma certa empatia para com os zés-ninguéns, o que, a juntar ao tipo de rock “de raiz” que praticava, lhe foi valendo comparações com Bruce Springsteen.

Talvez Thomas Earl Petty se sentisse próximo dos “outcasts” por, no fundo, ser essa a sua natureza. Nascido na pequena cidade de Gainesville, na Flórida, a 20 de outubro de 1950, esperaria até à publicação da sua biografia, em 2015, para contar como o pai, um vendedor de seguros, lhe batia e o insultava por ser um rapaz amável, com interesse pelas artes.

Muito próximo da mãe, Kitty, encontraria a salvação em Elvis Presley que, aos dez anos e graças a um tio que trabalhava no set de um filme em que o Rei entrava, conseguiu conhecer pessoalmente; nos Beatles, que viu no Ed Sullivan Show três anos mais tarde, e na primeira guitarra que, entre um e outro marco histórico, comprou.

Aos 17 anos, desistiu do liceu e começou a tocar baixo numa banda local, os Mudcrutch, a cuja formação foi ‘pescar’ dois músicos — o guitarrista Mike Campbell e o teclista Benmont Tenchque — o acompanhariam ao longo de décadas, naquela que foi a sua outra encarnação: os Heartbreakers, banda e ‘marca’ indissociáveis do seu nome.
Já na ‘meca’ de Los Angeles, ergueu uma carreira imensa a nível comercial – mais de 80 milhões de discos vendidos em todo o mundo – e de uma certa iconografia ligada à ideia de América profunda, de sonhadores e perdedores.

Logo no primeiro álbum, um homónimo de 1976, ‘American Girl’ era, no fundo, um avatar de si mesmo. Como em tempos confessou numa entrevista, a protagonista desse êxito, a ‘moça americana’ “é um bom exemplo de uma personagem sobre o qual escrevo muito; o miúdo de uma cidade pequena que sabe que há algo mais fora dali mas que, ao tentar descobrir o quê, se lixa todo. Sempre senti empatia por ela.”

Apesar de grandes sucessos, sobretudo entre o final dos anos 70 (“Damn the Torpedoes”, de 1979, estabeleceu o seu nome entre os grandes) e os 90 (produzido por Rick Rubin e assinado por Petty a solo, “Wildflowers”, de 1994, contou com muitos dos músicos de sempre e ofereceu sucessos como ‘You Don’t Know How It Feels’), o norte-americano gozou sempre de um perfil público relativamente discreto.

Em 1988, ingressou no grupo de um ex-Beatles, George Harrison. Com os Traveling Wildburys, encontrou colegas de luxo – Bob Dylan e Roy Orbison eram dois deles –, gravou dois álbuns e deu numerosos concertos. Dois anos antes, já fizera, com os seus Heartbreakers, uma digressão mundial de 60 datas com Bob Dylan, assegurando as primeiras partes dos espetáculos e, depois, tocando como mero executante, na banda de apoio de um dos seus mestres. E, em 1996, voltou a levar boa parte da sua banda para o estúdio em que Johnny Cash gravou o álbum “Unchained”, servindo uma outra lenda.

O êxito não parece ter roubado a Tom Petty a vontade de tocar, sem necessariamente ganhar com isso um grande protagonismo. Influência evidente de artistas contemporâneos, como os War on Drugs ou Ryan Adams, que se apressaram a lamentar a sua partida, o artista que depois de conhecer Elvis trocou a sua fisga por uma caixa de discos do rei encontrava-se, ainda há poucos dias, em plena digressão pelos Estados Unidos.

No seu último concerto, parte de uma tournée destinada a celebrar os 40 anos dos Heartbreakers, tocou 18 canções, a última das quais ‘American Girl’.

Presente na plateia do Hollywood Bowl estava a sua filha mais nova, Kimberley Violette, que após a morte do pai recordou, com um post no Instagram:

“Fumei um charro, bebi uma cerveja e as luzes apagaram-se. Sentei-me ali a ver e a pensar que cresci com aquelas canções. Toda a gente cresceu. Isto é verdadeira arte americana, feita das raízes de pessoas verdadeiras que têm um amor profundo pela vida. O meu pai adora música acima de qualquer outra coisa e sempre pôs a música em primeiro lugar. Bad ass motherfucker, adoramos-te! Ser humano mágico.”

Instagram

Tom Petty deixa duas filhas, Kimberley e Adria, que se tornou realizadora, bem como um enteado, Dylan, do seu segundo casamento, e um neto. Deixa-nos também um baú cheio de canções amigas das rádios e uma marca permanente na psique dos Estados Unidos, que ontem sofreu mais um abalo, com o massacre de Las Vegas. “Hoje não! Quando pensávamos que o dia não podia piorar…”, lamentava alguém no Facebook, quando a morte de Tom Petty foi confirmada.

Seu companheiro e amigo, Bob Dylan foi o primeiro a pronunciar-se sobre o desaparecimento do ‘maestro’ do heartland rock. E as suas palavras continuam a ser, possivelmente, as mais eloquentes: “É uma notícia chocante, esmagadora. Não o podia ter em melhor conta. Era um grande performer, cheio de luz, um amigo. E nunca o esquecerei.”