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Entrevista a Philippe Starck: “O design é a minha vergonha”

luís barra

Criou tudo o que havia para criar: objetos, perfumes, hotéis, carros, barcos e até aviões. O maior designer do mundo nasceu francês, mas tornou-se global. Vive em Portugal há quatro anos. Conversa com o génio no seu labirinto

Nelson Marques

Nelson Marques

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Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

A bravura do mar na Boca do Inferno, em Cascais, apaixonou-o desde a primeira vez. No dia em que o visitamos, Philippe Starck abeira-se do precipício, perto de casa, e começa a descer pela arriba, até a um ponto em que já só se lhe consegue ver a cabeça. Por baixo, só o abismo para o mar. A mulher, Jasmine, que lhe controla todas os passos, não aprova a opção. “Sai daí, Philippe!” O esforço é inglório, Starck não sabe o que é o medo. Tem sido assim durante toda a carreira, nunca conheceu limites. Atreveu-se a desenhar o mundo, o espaço e tudo o que a sua cabeça inventa todos os dias.

“O nível de criatividade que tenho é, claramente, uma doença mental”, confessa. Provocador, o enfant terrible do design desenha 18 horas por dia e, mesmo quando está a dormir, não desliga. “Sei que vou ver invenções que nunca ninguém viu.” Há quatro anos, o francês, de 68 anos, deslumbrou-se com Portugal e mudou-se com a família para cá. Convenceu a condessa de Monte Real a alugar-lhe “a Torre Eiffel de Cascais”, numa rua onde não havia nada à venda ou para alugar. Começámos a conversa por aí.

Está a viver aqui desde quando?
Há quatro anos.

Porquê Cascais?
Tenho amigos que vivem em Portugal e que há anos me diziam para vir para cá. Como trabalho sozinho, tenho uma coleção de sítios, a que chamo ‘o meio do nada’. Uma casa no meio do mar, pois somos produtores de ostras, no sudoeste de França, outra no meio da floresta. Morámos também numa pequena ilha a norte de Veneza, morámos em Formentera, no cimo de um rochedo, e numa outra casa, no sudoeste de França onde só existem sete ou oito cabanas. Os meus amigos continuavam a dizer-me para vir a Portugal, mas não havia nenhuma razão para vir cá. Não conhecia este país nem tinha sobre ele qualquer opinião. Na vida há coisas que guardamos para mais tarde. Christian Louboutin, Farida Khelfa e Henri Seydoux, de quem sou padrinho de casamento, insistiram para que viesse.

E veio.
Um dia resolvemos vir vê-los. Viemos e, como estamos sempre apressados por causa do tempo, apanhámos um helicóptero aqui perto e fomos até ao Carvalhal. Só que quando lá chegámos não encontrámos a casa deles, nem eles lá estavam. Falhanço total. Voltámos para aqui, e antes de aterrarmos, vi o pequeno porto. Fiquei de olho nele. É preciso dizer que tenho um talento muito particular que só serve para bombardear durante os períodos de guerra: sei reconhecer todas as cidades e todos os locais do mundo pela água. Tenho um sexto sentido que me faz descobrir os sítios onde há qualquer coisa de particular. Percebi logo que havia aqui qualquer coisa.

O que é que o fez voltar?
Este pequeno porto. Ainda fomos a Lisboa, uma cidade nova, cheia de energia, mas o porto não me saía da cabeça. Chego aqui e percebo que isto é o paraíso. Um porto à minha escala, porque gosto que todas as cidades sejam pequenas, casas em cima da água, um mar com ondas enormes e água fria. E disse a mim mesmo que era aqui que devia morar. A minha mulher [Jasmine] disse-me que talvez fosse um pouco estranho, mas achei que era o momento para vir para Portugal depois de tanto tempo a falarem-me do país. Ficámos encantados e instalámo-nos muito depressa, a pensar que passaria um ano ou dois e nos iríamos embora. Os anos passaram e nós ficámos.

Continuam a pensar ficar mais tempo?
Não sabemos bem porquê, mas sabemos que vamos ficar pelo menos mais dois anos. Já falámos de cinco anos. Porém, agora a grande questão que se coloca é se vamos voltar.

A França?
Exatamente. Por causa da educação da nossa filha, que tem seis anos. Não tenho nenhum filho que fale francês. Nunca morei em França e os meus filhos [mais três de outras mulheres] falam línguas que eu mal compreendo. Gostaria que a minha última filha falasse a minha língua. Mesmo eu, poderia vir a morar no meu país, onde nunca morei.

Porquê essa necessidade de viver fora?
Porque toda a vida trabalhei fora. Trabalhei sempre no mundo. Nasci global. Para mim não há fronteiras, há um mundo onde trabalho por todo o lado. Na China, na América, por todo o lado, menos em França, onde pouco trabalhei.

Mas fez grandes coisas em França.
Comparado com o que fiz no estrangeiro, não fiz nada. Só agora, que moramos aqui, é que começo a trabalhar para lá. França é o estrangeiro.

Já decidiu o que vai fazer?
Não sei. É o assunto do momento entre nós. Ora dizemos que é preciso regressar pela educação da nossa filha ora nos perguntamos porquê. Temos a horrível impressão de que se regressarmos, nos vamos arrepender. Vamos perguntar-nos sempre porque é que saímos do paraíso. Porque é que saímos desse país onde as pessoas são tão, tão, tão simpáticas e gentis. Não são os países que me interessam, para mim as fronteiras não existem. O que me interessa são as pessoas. E como viajamos tanto, vemos a tendência geral do mundo, que não é simpática. A veleidade, o materialismo, e pior do que tudo, a violência que aumenta em força. Hoje, o único país no mundo onde ainda existem valores humanos, respeito, honestidade e, por conseguinte, uma boa velhice, é Portugal.

O que o faz sentir isso?
Há aqui qualquer coisa que está em sintonia comigo. Sou um grande trabalhador, somos um casal extremamente preciso, rigoroso.

Estão sempre juntos?
Sim, nunca nos separamos, nem por um segundo. Mas a ideia que estava a desenvolver tem a ver com o facto de gostar de nós, dos humanos. É verdade que no mundo de hoje se torna cada vez menos fácil amar os humanos. Os portugueses são as pessoas mais amáveis do mundo, no sentido de que nós queremos amar-vos. São pessoas que têm os bons valores da Humanidade. Lisboa é uma cidade jovem e moderna, em plena explosão, mas que preserva os seus valores, que guarda a honestidade. Sou verdadeiramente honesto e respeito muito a honestidade. Acredito na bondade, acredito na boa educação, acredito na gentileza, acredito na ideia de vivermos juntos, acredito na harmonia. Mesmo que veja muito pouca gente.

Vive muito isolado.
Vivemos numa bola de cristal, mas é por isso que quando saio do meu mundo, quero ver um bom mundo.

Porquê esse isolamento?
Porque é a única coisa possível a um criador. As pessoas que estão no meio do turbilhão da sociedade pensam de forma massificada, têm um pensamento mainstream. Quem vai aos jantares e aos cocktails repete o que os outros dizem. Eu nunca repito o que os outros dizem porque não os oiço. Levantamo-nos cedo todas as manhãs, sento-me todo nu à secretária em frente à minha folha em branco. Sei que tenho um projeto para fazer e faço-o. Faço-o sem qualquer influência, não vejo televisão, não vou ao cinema, não vou a festas. Leio os jornais apenas para saber se há uma guerra atómica entre o Trump e o norte-coreano. Vivemos à parte de tudo.

Costuma dizer que é algo autista.
Sou um pouco autista. É um bocado disparate dizer isto porque não tenho qualquer conhecimento médico para o afirmar. A sensação que tenho é que sou 20% autista.

Trabalho. Philippe Starck no seu escritório, onde de manhã bem cedo se senta ”todo nu” à secretária, em frente de uma folha em branco

Trabalho. Philippe Starck no seu escritório, onde de manhã bem cedo se senta ”todo nu” à secretária, em frente de uma folha em branco

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Onde é que um autista vai buscar inspiração?
Com o nível de criatividade que tenho, e não falo de qualidade, a qualidade são vocês que a julgam, mas de quantidade, trata-se claramente de uma doença mental.

Uma doença?
Há qualquer coisa que não é normal em mim. Desde que comecei a perceber a organização do cérebro entendi que é possível que tenha uma organização um pouco diferente, um pouco diagonal. Não digo que é uma qualidade, faço apenas uma constatação. As pessoas que trabalham comigo, entre as quais a minha mulher, dizem-me que não sou humano. A maneira como penso e como crio não é humana. Há uma velocidade de criação tal que não é explicável.

Como assim?
Quando vejo o que está em cima da mesa e olho para a quantidade de projetos que já fiz na vida, tenho consciência de que não há ninguém que não diga que é impossível. Um humano normal não consegue fazer isto.

Diz-se que fez mais de dez mil projetos...
Muito mais. Isso era há dez anos. O meu problema é que não sei fazer outra coisa.

Gosta demasiado do trabalho? 18 horas por dia é imenso!
Não é isso. Tenho horror ao trabalho. É por isso que trabalho aqui e não nos escritórios. O que gosto é de sonhar. Sou um sonhador profissional. Pode mesmo dizer-se que sou um sonhador histérico. Sou um cristal puro de sonho. Estou permanentemente no futuro, em projetos diferentes, em construções bastante complexas que existem realmente no sonho.

É por isso que diz que não vive na terra?
Não, não vivo na terra. O único livro que fiz chama-se “Impression d'Ailleurs” (Impressões de Algures, numa tradução literal), porque vivo completamente fora. O engraçado é que durante o dia estou num sonho organizado e trabalho; à noite estou num subconsciente que é incontrolável. Quando me vou deitar, digo à minha mulher: “Ao trabalho!” Sei que vou a locais que nunca ninguém viu. Vou ver invenções que nunca ninguém viu. Vou cheirar perfumes que nunca ninguém cheirou, vou ter conversas, opiniões, ver filmes que nunca ninguém viu. De manhã estou estafado.

Como consegue trabalhar se acorda estafado?
É uma pergunta à qual não sei responder. Não sei se tenho uma criatividade assim durante o dia porque tive uma noite extraordinária ou se tenho estas noites extraordinárias porque sou criativo durante o dia. Faço-me muito essa pergunta e está tão próxima da loucura. A minha mulher diz mesmo que sou louco. Um dia li um artigo sobre o adormecido e o acordado que questionava o que é que nos prova que a verdadeira vida é aquela em que estamos acordados. Pode ser a outra vida. Sinto uma tal força, uma magnificência, uma inteligência incrível durante a noite, que me pergunto se a minha verdadeira vida não é aquela em que estou a dormir.

Porque será isso?
A vida consciente interessa-me pouco. Por uma razão psicológica: não sei muito bem qual é a diferença entre a vida e a morte.

Não tem medo da morte?
Não tenho consciência de estar vivo. Desde que nasci que não tenho uma prova de que esteja vivo. Por isso para mim tudo isto é muito confuso, muito turvo.

E o que é que para si existe realmente?
Vai parecer pretensioso o que vou dizer, mas não é: a verdade é que vivo numa relatividade einsteiniana.

O que é que isso significa?
Que nada existe. Ainda outro dia, o Henri Seydoux, que é um cientista de alto nível, falava-me de uma nova descoberta. Uma teoria que dizia que a única coisa que existe é o tempo e que o tempo vai num determinado sentido que é o sentido da agitação das moléculas. É aí que vivo. É dentro destas teorias que tenho a impressão de que existo. A ciência é poesia, só poesia.

É isso que tenta fazer quando desenha?
Não, isto é a minha estrutura. O que produzo é resultado disto, claro. Mas, quando não sabemos se estamos vivos ou mortos, quando vivemos num mundo onde nada existe, tudo é energia, tudo é velocidade, tudo é movimento a todas as escalas. É assustador, ou melhor, é um mundo que não é confortável.

Sente angústia?
Não. Porém não descanso. É um mundo onde não há espaço para o descanso. É como se tivéssemos que nadar constantemente, como os tubarões que têm que estar sempre a nadar senão morrem. Sou obrigado a nadar porque nada é sólido para me apoiar, para descansar. A única coisa que encontrei de real é o amor. A troca de energia entre duas pessoas é realidade. É uma realidade quantificável. Vemos bem o resultado: dá ou não dá, é agradável ou desagradável.

Também é química?
Isso mesmo. É o que existe entre mim e a minha mulher.

Ela é muito importante para si?
Não é importante, somos a mesma pessoa, só que ela tem uma cara mais bonita do que a minha. Se amanhã ela se for embora, o que fará mais cedo ou mais tarde, com um homem mais novo, acho que me afundarei completamente.

Como é que faz a ligação entre esse mundo onde vive e a sociedade?
Não tenho qualquer relação com a sociedade.

Não tem telefone?
Não tenho telefone, não tenho computador. Minto, agora tenho um telefone, para saber se a minha mulher está bem nos segundos que não está ao meu lado e se acontece alguma coisa à nossa filha de seis anos. Mas o telefone só tem um número, o da Jasmine.

Como é que faz para falar com a sua equipa?
Não falo, é a minha mulher que o faz. Crio os projetos, dou-os à minha assistente, Sofia, que os digitaliza, entrega-os à Jasmine, que me faz algumas perguntas sobre os projetos, e depois ela envia-os para a minha equipa que os desenvolve.

Jasmine é a sua ligação ao mundo?
Completamente. Jasmine é o verdadeiro patrão e a única conexão que tenho com o mundo. Nunca compreendi a sociedade tal como ela é. É por isso que nunca fui à escola. Somos uma multinacional relativamente importante, fazemos coisas muito, muito complexas no mundo inteiro e somos reconhecidos pela inteligência, pela precisão, pela capacidade técnica e pela tecnologia dos nossos projetos, na aviação, nos foguetões, etc., etc. Tudo isso feito por alguém que consegue reconhecer uma adição, que não sabe fazer uma subtração, que faz uma multiplicação adicionando, e que não tem qualquer ideia de como se faz uma divisão. É espantoso.

É quase incompreensível.
Tenho um diploma de Harvard, mas totalmente honorífico. Sei a ordem dos meses se começar por janeiro e se não me interromperem, mas não tenho a certeza. Conheço o alfabeto se começar pelo A e se não me interromperem. Não sei nada, não conheço nada do mundo real.

Gosta muito de literatura.
Tenho duas pretensões: a pretensão de poder reconhecer a verdadeira boa literatura e a verdadeira boa música.

Também é um melómano?
Todo o meu mundo é construído em cima da música.

E sobre o perfume...
Evidentemente, o perfume e a música são a mesma coisa, pertencem ao mesmo território. Oiço música desde que me levanto. Na casa de banho, tenho uma pequena secretária com uma pilha de discos que recebo e com um lápis vou fazendo uma seleção para escolher música de alto nível, muito eclética, que oiço 18 horas por dia. Quando trabalho, se não oiço música, falho. A minha estrutura é a música.

Essa ligação à música vem de onde, da infância?
Sim. Tive a sorte de ter tido uns pais que me fizeram ouvir muita e muito boa música. Mas o que me interessa mais na música é a sua estrutura, é líquida como eu.

Como é que um homem como você desenhou tantos objetos?
A primeira razão é porque fui sempre rejeitado.

Não se adaptou?
Fui sempre invisível, não é bem rejeitado. Teria adorado namorar com as raparigas, adoro as mulheres e a sua beleza, teria adorado ter tido grandes amigos e coisas assim. Mas ninguém me via.

Era tímido?
Não, não era isso. Na adolescência, era muito simpático, muito bem-educado, mas acho que o que dizia destabilizava as pessoas e elas preferiam não me ver. Portanto acabei por me fechar em casa. Tinha um quarto vazio e mais nada, não saía dali.

Teve uma depressão?
Não, não fiquei deprimido, mas fiquei completamente fora do mundo. Nada de loucura, nada de depressão, mas também nada de alegria. A determinada altura, tive um momento de sobrevivência, pois a única solução que tinha era a de saltar pela janela, venho de uma família em que há muitos suicídios. Era preciso que reagisse e que reencontrasse o contacto com o mundo. O problema é que não sabia fazer nada a não ser desenhar e criar. Tinha 18 ou 19 anos. Lembro-me de ter pensado no meu pai, um engenheiro aeronáutico, que criava durante todo o dia. Então, disse a mim próprio que iria criar. Talvez as pessoas continuassem a não me ver, mas ao menos veriam o que eu fizesse. E talvez me amassem, talvez me amassem através do que eu fizesse. A imagem que me vem à cabeça é a daquele boneco animado que nada, nada para sair da água e vê-se no ar e volta a cair na água. Nadei tanto para não me afogar que não sei fazer mais nada.

Conseguiu o que queria.
Obviamente tornei-me visível. Há gente que me detesta, há gente que me adora, mas hoje sou tudo menos invisível. Era preciso que eu existisse e fiz o que sabia fazer. Comecei a desenhar, desenhar, desenhar. Funcionou. Mas depois veio a necessidade de saber porquê, porquê desenhar e criar coisas? Tinha recebido uma educação religiosa pesada quando era muito novo. O pouco que fui à escola foi numa instituição católica. No pós-guerra foi uma experiência dura. Isso transformou-me num militante fanático contra todas as formas de crença e de religião. No entanto, guardei certos valores desses tempos. Nomeadamente, o dever de ajudar os outros. Foi o que fiz. Já que tinha o talento da invenção o que poderia fazer com ele? Se tivesse ido à escola, teria feito coisas muito mais interessantes, teria feito coisas que salvam vidas. Teria sido um grande cientista e poderia ter feito coisas verdadeiramente importantes. Mas como não tinha nenhuma confiança em mim e como não fui à escola, fiz coisas fáceis, que sabia fazer. Portanto, faço o que faço, faço design. E faço-o por acaso e por fraqueza. Mas como tenho vergonha de fazer uma coisa tão fraca, tento fazê-lo o melhor possível.

É um perfeccionista?
Sou muito mais do que perfeccionista.

E um controlador também?
Para lá de tudo o que se possa imaginar. Ninguém é obrigado a ser um génio, não sou um génio, mas todos somos obrigados a fazer o melhor possível.

De dar ao mundo o que sabemos fazer.
Exatamente. Há os homens úteis como Einstein, Ptolomeu, Platão, verdadeiros génios. Eu só sabia fazer coisas que talvez pudessem melhorar a vida da minha comunidade.

O design não salva vidas mas pode melhorar a vida das pessoas, é isso?
O design é a minha vergonha. Não pode criar a vida nem salvá-la. Não pode mais do que melhorar a vida, mas é preciso que seja feito por alguém extremamente honesto como eu. Penso que as pessoas consideram que lhes facilitei a vida, que a melhorei. Isso não me dá um prazer extraordinário porque sei que não é grande coisa, mas, apesar de tudo, é bom. Sou como um bom canalizador que fez uma boa instalação de água quente e uma boa instalação de água fria. Sou como uma boa mulher a dias que limpou bem todos os cantos da casa. Portanto, no interior de uma bola de vergonha tenho outra bola dentro da qual penso que posso estar orgulhoso do trabalho 
que fiz.

Do que é que se orgulha mais?
Desde o início que politizei o meu trabalho. Sempre fui um homem de esquerda e sempre tive um pensamento humanista. Dirigi sempre o meu trabalho num sentido democrático, de partilha, de honestidade, de longevidade. É por isso que passei estupidamente 20 ou 30 anos da minha vida a inventar o conceito de design democrático, que funcionou.

Conseguiu levar o design a muita gente.
Ganhámos essa guerra. Não é grande coisa, mas isso permite pelo menos que pessoas que não tenham meios de sobrevivência elevados possam viver numa qualidade cultural, criativa e material muito correta. Posso estar satisfeito com certas coisas como esta. Fui o primeiro a falar de ecologia, a falar de bionismo, a falar de alimentação biológica, da sexualidade da produção...

Foi tudo isto que o salvou de se deitar da janela abaixo?
O sentido que dei à minha produção é motivo de orgulho para mim. O sentido do rigor, da violência, da rebelião e da coragem que tive que ter para lhe dar esse caminho. E não foi sempre fácil.

Quer dar-nos um exemplo?
Quando há 20 ou 25 anos quis fazer guerra aos industriais do imobiliário que vendem casas terríveis, onde as pessoas vivem mal, e fiz casas prefabricadas totalmente ao contrário para mostrar que eles não eram honestos. Tive o grande capital contra mim. Aconteceu várias vezes.

Como escolhe os projetos em que se envolve?
Recuso 95% das propostas que recebo. É o meu único luxo. Não vivo no luxo, apesar desta casa que não é minha. Só aceito um projeto se gosto da pessoa. Sou um sentimental, preciso de gostar da pessoa. Não vou dormir com ela, não vou passar férias com ela, nem sequer vou jantar com ela, mas é preciso que tenhamos valores comuns, que se instale uma relação sentimental de respeito e de vontade de agradar. É preciso que o projeto seja útil. Depois é preciso que a pessoa que quer o projeto o faça em benefício não dela, mas das pessoas que vão viver lá dentro ou com esse objeto. Há 30 anos não se falava em ética, mas quando montei a empresa que tenho, criei imediatamente um código ético que ainda existe. Não trabalho para o armamento, já tive propostas; não trabalho para o tabaco, tive imensas propostas; não trabalho para o álcool, recebo todos os dias uma proposta; não trabalho para o jogo, não trabalho para a religião e não trabalho para as companhias petrolíferas, nem para as de diamantes; e não trabalho para tudo o que possa vir do dinheiro sujo. Posso dizer-vos que isto me custa uma fortuna, porque são precisamente todas as pessoas que têm dinheiro. Houve uma vez uma empresa indiana que me propôs fazer sete marcas de cigarros. Houve outra empresa de molho de soja que me propôs fazer uma garrafa especial para o seu aniversário. Oferecia um milhão de euros. É dinheiro para fazer um desenho que me demora entre um a três minutos a fazer. Pensei, tenho impressão que há um problema. Descobri que o produto afeta o cérebro.

Em que é que está a trabalhar neste momento?
Até ao Natal estou a trabalhar numa média de 200 projetos, o que significa que quando alguém me pergunta o que estou a fazer não tenho qualquer ideia porque os dias são um contínuo. Ou faço um projeto e quando o acabo já não me lembro do que fiz, ou trabalho em muitos em simultâneo. Num só dia posso trabalhar em 30, 40, 50 projetos ou até mesmo 100.

Cem projetos diferentes num dia?
Ah, sim! É estranho.

Tinha um perfume na mão quando chegámos...
Voilà! Antes de chegarem tive uma reunião com a empresa de perfumes. Comecei há seis meses e é extraordinário. É uma abstração que nunca deixa de o ser.

A sua mãe tinha uma perfumaria.
Por isso conheço tão bem os perfumes. Uma gota de perfume é um universo extraordinário. Pela primeira vez na minha vida estou a trabalhar num universo completamente abstrato.

Há muita gente que lhe chama o ‘senhor touche-à-tout’[que vai a todas]. Concorda?
Sim, é verdade. Touche-à-tout porque como não faço o design pelo design, isso não me interessa — utilizo-o como meio político e de comunicação, para passar outra mensagem — posso fazer tudo. A lógica vem de fora, não está na cadeira. A lógica é saber o que quero dizer de visionário através da cadeira. É por isso que sei fazer perfumes, barcos, aviões, hotéis, objetos, champanhe ou cerveja. Fiz um perfume que se dirige ao futuro da sociedade. A próxima grande revolução social vai ser a assexualidade. O meu perfume é para as pessoas que já não estão interessadas em homens nem em mulheres, nem em sexo, ultrapassaram a ideia da sexualidade. Isso vai chegar depressa. É a grande tendência.

Comprou uma propriedade perto de Grândola. Chamou-lhe Figueira Feliz. O que pretende fazer lá?
Vou pela primeira vez na vida fazer uma casa que não é uma casa moderna. Sempre construí casas de vanguarda, mas quando cheguei às planícies de Grândola, encontrei de tal forma um local de harmonia absoluta — as proporções, a luz, a temperatura, a vibração... — que percebi que não podia fazer nada que não saísse naturalmente do solo. Quero construir uma quinta com arquitetura alentejana. É a primeira vez que o faço, não sei o que pensar. Será que estou a ficar velho? Vou fazer vinho evidentemente biodinâmico, biológico, não filtrado e sem sulfito, o vinho perfeito. E vou fazer também azeite com uma empresa que tenho em Espanha. De resto, não sei. Vou inventar, vou ver.

Além do trabalho, que outras coisas lhe dão prazer?
A minha mulher, a minha filha, Justice, que é um génio. Ando de bicicleta e sou muito bom marinheiro. Gosto de andar à vela, de me pôr à frente de ondas de 12 metros. Dantes também gostava de cozinhar, mas já não tenho tempo. Gosto de andar. Gosto de andar nos não-lugares, nos terrenos baldios. Gosto dos subúrbios.

É feliz?
Não conheço bem o sentido da palavra. Não estou certo de saber o que a palavra representa para poder dizer que sou feliz. Não é que seja infeliz, de todo, mas também não sou feliz. Sou aquela pessoa que nunca ri. Sou simpático e amável. Tive algumas iluminações de um segundo por acaso. Lembro-me de um dia com a minha filha ver uma luz bonita, uma boa música, a temperatura certa, a harmonia. Vi a harmonia e penso que talvez seja isso. Mas é de tal forma extraordinário que não consigo perceber como é que as pessoas podem viver em permanência nesta harmonia. Eu vivo na sombra, não nessa luz.

Se o sentido da vida não é a felicidade, então é o quê?
A grande procura na vida é trabalhar. Porquê? Porque somos apenas uma transmissão. Recebemos uma corda dos nossos pais que milhares de pessoas entrelaçaram. De início era uma corda pequena que se partiu várias vezes, que apodreceu, que envelheceu, que não era de boa qualidade, mas que pouco a pouco a foi ganhando até que a recebemos dos nossos pais. O único dever que temos é o de dar novamente a corda aos nossos filhos e que a corda seja de melhor qualidade. Entre a corda que recebemos e a corda que damos é preciso que tudo seja melhor, mais nobre, mais belo, mais honesto, mais inteligente. É esse o 
dever.

Ainda se lembra do primeiro desenho que fez?
Claro. Foi uma série de máquinas para torturar professores. Era tão bom que a partir daí passei a desenhar e a dar desenhos aos professores como moeda de troca para não falarem comigo.