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Evacuações

Javier Bardem e Jennifer Lawrence em “Mãe!”, 
de Darren Aronofsky

No princípio é o fim. Há um incêndio cataclísmico, uma casa que arde como se o mundo acabasse agora — e, com ela, uma mulher, dentro. Depois a casa regressa à vida, reconstruída por artes de magia (por artes de efeitos especiais digitais, melhor dizendo), logo saberemos que por artes do amor e do labor de uma mulher. Ela (Jennifer Lawrence) vive com ele (Javier Bardem) — e ama-o. O inverso não é certo. Ele é poeta, publicado, laureado e de sucesso — mas a página em branco nunca mais volta a ser preenchida com palavras que ele considere dignas dele. Está em bloqueio e nada em paz. Ela vive, maternalmente, para ele — e desde o princípio, desde aquele momento em que Darren Aronofsky a põe bastante nua debaixo de um tecido translúcido e ele tem mais que fazer que sabemos o que o advérbio ‘maternalmente’ quer dizer. Vivem na enorme casa que ela refez com as próprias mãos — e que continua a refazer, uma casa, uma vida, nunca estão completas.

A casa fica no meio de sítio nenhum, como o realizador mostra em plano geral aberto, nem se vislumbra estrada ou vereda que lá desemboque, nem automóvel, carreta ou outro meio de transporte parqueados perto. Em suma, desde o princípio que Aronofsky nos avisa que estamos num domínio que não é concreto, que não é habitado por gente vera com veras vidas. Estamos no domínio da metáfora (alguns minutos depois saberemos que estamos no domínio da METÁFORA — e é aí que o caldo se entorna e a sopa azeda). Como se sabe, as metáforas em cinema deviam ser proibidas por lei, a não ser que o cineasta se chame Sergei Mikhailovitch Eisenstein e queira filmar leões de pedra a levantarem-se para figurar a Revolução. As metáforas em cinema são o lugar ideal para despejar lixo tanto-faz e ter uma desculpa.

O espectador desavisado, contudo, não pode saber o que o cineasta pretende evacuar neste filme. Até porque a casa pulsa — a personagem de Jennifer Lawrence ouve qualquer coisa dentro das paredes, qualquer coisa que nós vemos, um coração em chamas? — até porque a casa talvez sangre de certas fendas bem escondidas, instala-se um clima de filme de medo que se agudiza quando chega um estranho (Ed Harris), depois a mulher (Michelle Pfeiffer), depois os filhos em conflito e a casa é literalmente invadida e se torna um lugar disturbado, com a anuência do poeta em crise. Depressa, todavia, o espectador desavisado afasta a ideia de que talvez estivesse nas intenções do realizador fazer um horror movie e começa a perceber que o que ele fez, pela certa, foi um filme horroroso. Porque “Mãe!”, uma vez ganha embalagem, nunca mais deixa de acelerar. A histeria de uma maternidade ansiada por ela e a histeria de um novo livro e da adulação das massas que ele tanto deseja, fundem-se, chocam, fazem ignição — e o filme entra numa espiral sem freio onde cabe tudo. E temos descontroladas multidões de fãs, guerras, saques, um bebé que se devora como se fosse o cordeiro de Deus, um coração que sai do peito ainda em sangue, polícias a espancar cidadãos, pessoas executadas em série com um tiro na nuca, o catálogo dos horrores do nosso tempo, sem sair daquela casa, tudo envolto no poder do CGI que é, com os gritos de Jennifer Lawrence, a maior vedeta deste testemunho da inflada autoestima do senhor Aronofsky.