Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Este fim de semana abrem-se portas e revelam-se segredos

Entrada para a caixa-forte do Banco de Portugal. A porta, de 1932, pesa 7 toneladas

marcos borga

Este fim de semana, 87 espaços de interesse irrefutável abrem-se aos lisboetas, para que deles possam desfrutar de forma gratuita. Há palácios, casas privadas recuperadas, lugares que eram uma coisa e agora são outra e até sedes de bancos. Bem-vindos ao Open House Lisboa

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

texto

Jornalista

Marcos Borga

Marcos Borga

fotos atuais

No coração da capital, são ainda muitos os segredos por desvendar. Todos os anos, a Trienal de Arquitetura de Lisboa organiza um fim de semana especial para que moradores e visitantes descubram, de forma gratuita, espaços pelos quais passam todos os dias sem suspeitar os mistérios que encerram. Estamos num desses sítios. Muitos saberão que a sede do Banco de Portugal ocupa um imenso quarteirão na Baixa pombalina, ao lado dos Paços do Concelho. Mas a maioria não sonha que dentro do Banco que guarda as reservas financeiras de Portugal se esconde uma igreja, que um incêndio arrasou por em 1816; que ali se encontraram, durante escavações, mais de 500 ossadas, provenientes de uma necrópole; que ali se encontra a porta de uma casa-forte mandada vir de Nova Iorque, em 1932, que pesa 7 toneladas e que nos transporta de imediato para o universo do Tio Patinhas; ou que 30 metros da muralha de D. Dinis, datada do século XIII, foram ali descobertas a vários metros de profundidade. Só neste edifício, conta-se uma profusão de estórias da História de Lisboa. E há ainda um lingote de ouro maciço, com 13 kg de peso, que vale meio milhão de euros, em que pode pegar... Curioso?

São várias as portas de entrada para o banco de Portugal - há pelo menos quatro -, mas apenas uma está aberta aos visitantes: a do Largo de S. Julião, nº 26. É por aqui que entram as centenas de pessoas que vêm descobrir o Museu do Dinheiro, aberto em maio do ano passado, que já recebeu 80 000 visitantes (mesmo estando aberto 4 dias por semana, de quarta a sábado). Antes disso, a sede do banco só foi aberta ao público em 2013, depois da imensa reabilitação de que foi alvo, pela mão dos arquitectos Gonçalo Byrne e João Pedro Falcão de Campos, que se cifrou em 33 milhões de euros. O montante revela bem a envergadura do investimento, pensado para atravessar gerações, mas também a dimensão do espaço - mais de 6000 metros quadrados, local de trabalho de 300 funcionários.

Os desafios foram muitos, até porque o espaço nobre que ali vemos começou por ser um conjunto de edifícios anexos que se foram juntando sem projeto agregador, e incluíam de edifícios de habitação até uma igreja...! É difícil de imaginar, mas até aos anos 90, as carrinhas de valores que ali iam depositar o dinheiro, entravam por um portão de garagem e estacionavam no adro da igreja... Sagrado e profano conviveram durante décadas, com os funcionários do banco a deambularem com naturalidade pelo que sobrava da igreja de S. Julião, reconstruída após o terramoto em 1810, mas arrasada por completo por um incêndio em 1816.

Este era o aspeto do interior da igreja de S. Julião, parte integrante da sede do Banco de Portugal, antes da sua recuperação, em 2008. Pelo portão entravam carrinhas de valores, que ficavam estacionadas no adro da igreja. (Acervo Banco de Portugal). Ao lado, o adro da igreja após a recuperação, de 2008 a 2012

Este era o aspeto do interior da igreja de S. Julião, parte integrante da sede do Banco de Portugal, antes da sua recuperação, em 2008. Pelo portão entravam carrinhas de valores, que ficavam estacionadas no adro da igreja. (Acervo Banco de Portugal). Ao lado, o adro da igreja após a recuperação, de 2008 a 2012

Na verdade, a dignidade e paz que se vivem aqui hoje, neste "salão" que recebe os visitantes e que é a nave central da igreja oitocentista, só existe depois da recuperação. Antes, o chão, o tecto e as paredes estavam "pintados" de cinza, fruto da poeira e do pó, num espaço de trabalho totalmente desajustado a essa função, retirando brilho à História. Hoje, a igreja e o banco mesclam-se com elegância e bom gosto, numa recuperação de arquitetos que manteve as "cicatrizes" do edifício, para não lhe retirar identidade. Por isso, olhando para esta nave impressionante, dominada pelos tons pastel, vislumbram-se ainda alguns rasgões nas paredes, do tempo em que cofres-fortes ocupavam certos vãos, na parte lateral da antiga igreja.

Esta conta uma histórica rica. A igreja de S. Julião foi o último edifício do Banco de Portugal a ser adquirido, em 1933 (último ano em que ali se celebrou missa). Quase um século antes, em 1840, o Banco instalou ali a sua sede, onde está hoje instalada a Câmara Municipal, mas um grande incêndio obrigou-o a adquirir muitos edifícios no quarteirão. São oito anexos ao todo, na sua maioria edifícios de habitação. A igreja pouco tinha a ver com os restantes espaços, ainda para mais, tendo sido arrasada por um incêndio. Isso fez com que vários estilos se misturassem aqui, porque o reaproveitamento foi a opção, e as cantarias, barrocas, vieram da igreja de S. Francisco, por exemplo. Colunas neo-clássicas convivem com elementos rococó, mas o altar recuperou a sua dignidade, e as várias intervenções artísticas - com as cortinas de seda, em ouro e prata, da autoria de Fernanda Fragateiro, ou o lustre circular de dois andares, de Falcão de Campos, ou os quatro teares de Carla Rebelo, concebidos para se verem do primeiro andar - vieram complementá-la e enriquecê-la.

marcos borga

O aspecto digno e calmo que se sente na antiga igreja que serve hoje de adro à sede do Banco de Portugal data do pós-recuperação, em 2012. Em 1933, quando foi adquirida pelo banco, estava muito degradada.

marcos borga

A intervenção artística de Fernanda Fragateiro foi uma das encomendas que integraram a recuperação do Banco de Portugal, entre 2008 e 2012. Aqui, a artista pinta as enormes cortinas de seda, em ouro e prata, com notas de Fernando Pessoa escritas à margem do "Livro do Desassossego" (Acervo Banco de Portugal).

Meio milhão de euros na mão

Numa das paredes da igreja, à direita, um buraco redondo metalizado dá o mote: esta é a entrada da caixa-forte, que se faz por uma impressionante porta de 7 toneladas, encomendada de Nova Iorque em 1932. Hoje em dia, já não se sabe se alguém ainda conhece a combinação do cofre - mas antigos funcionários do banco terão certamente mantido o segredo. É por aqui a entrada no Museu do Dinheiro, aberto há pouco mais de um ano, com uma fortíssima componente interactiva, para seduzir o público mais jovem (que aderiu em massa). É aqui que se encontra uma das maiores atrações do espaço: um lingote de ouro maciço, de 24 quilates, no qual se pode tocar, atrás de uma barra de ferro. Somos convidados a pegar-lhe, para sentir a textura do metal precioso e descobrir, nem que seja uma vez na vida, qual a sensação de ter meio milhão de euros na mão... Mas apesar de pesar apenas 13 kg, é mais difícil do que pode imaginar (fica o desafio...).

O lingote de ouro - ou como ter durante uns segundos meio milhão de euros na mão

O lingote de ouro - ou como ter durante uns segundos meio milhão de euros na mão

marcos borga

Debaixo do chão da igreja, durante as escavações, fizeram-se descobertas preciosas. Encontraram-se 230 mil artefactos, e 500 ossadas, de pessoas ali enterradas entre 1802 e 1843. Estas serão objeto de uma exposição que inaugura a 10 de novembro, chamada "Vida, Morte e Memória". Aquela que foi a igreja mais antiga da Baixa - e também a mais luxuosa - preservou muitos vestígios da sua importância.

As escavações revelaram inúmeros tesouros: 230 mil artefactos, e 500 ossadas, de pessoas enterradas na igreja entre 1802 e 1843

As escavações revelaram inúmeros tesouros: 230 mil artefactos, e 500 ossadas, de pessoas enterradas na igreja entre 1802 e 1843

marcos borga

Janela indiscreta

No piso de cima, torna-se ainda mais fácil perceber por que o montante da reabilitação foi tão elevado. Foram feitos tectos falsos, em madeira, paredes falsas, chão falso, de modo a proteger a arquitectura do edifício. Neste andar, conseguimos ver como foi feita a junção de dois edifícios de habitação, que eram separados por uma rua de 3 metros de largo. Vários passadiços permitem agora a passagem dos funcionários entre os dois edifícios, e um telhado transparente protege-os da chuva. Na rua de baixo, havia quatro poços, e um foi conservado.

Podem apreciar-se numerosos exemplares da valiosa coleção numismática do Banco de Portugal: moedas romanas, vestígios chineses de 300 a.C, um total de 1200 peças do vasto espólio, que conta 52 000 ítens. Neste piso, encontramos ainda uma das assinaturas mais emblemáticas do arquitecto Gonçalo Byrne: uma janela panorâmica em vidro curvo, à prova de bala, que ocupa toda uma esquina do edifício, oferecendo uma vista ímpar sobre a Praça do Município - não isenta de algum vertigem, se nos chegarmos mesmo à ponta. Mas o "bestseller" deste andar é mesmo a máquina que permite ao visitante cunhar a sua própria moeda ou nota com a sua efígie. Não é todos os dias que se tem a possibilidade de ver a sua cara numa moeda de ouro, como se fossemos um rei ou uma rainha...

Janela indiscretaNo piso de cima, torna-se ainda mais fácil perceber por que o montante da reabilitação foi tão elevado. Foram feitos tectos falsos, em madeira, paredes falsas, chão falso, de modo a proteger a arquitectura do edifício. Neste andar, conseguimos ver como foi feita a junção de dois edifícios de habitação, que eram separados por uma rua de 3 metros de largo. Vários passadiços permitem agora a passagem dos funcionários entre os dois edifícios, e um telhado transparente protege-os da chuva. Na rua de baixo, havia quatro poços, e um foi conservado.A "janela" de Gonçalo Byrne consiste num vidro curvo, à prova de bala, que reveste toda uma esquina do edifício, e permite uma vista invulgar sobre a Praça do Município

Janela indiscretaNo piso de cima, torna-se ainda mais fácil perceber por que o montante da reabilitação foi tão elevado. Foram feitos tectos falsos, em madeira, paredes falsas, chão falso, de modo a proteger a arquitectura do edifício. Neste andar, conseguimos ver como foi feita a junção de dois edifícios de habitação, que eram separados por uma rua de 3 metros de largo. Vários passadiços permitem agora a passagem dos funcionários entre os dois edifícios, e um telhado transparente protege-os da chuva. Na rua de baixo, havia quatro poços, e um foi conservado.A "janela" de Gonçalo Byrne consiste num vidro curvo, à prova de bala, que reveste toda uma esquina do edifício, e permite uma vista invulgar sobre a Praça do Município

marcos borga

Santo António perdeu a cabeça

Regressados à nave da igreja, há ainda todo um mundo por explorar, no piso subterrâneo. Na cripta onde um vídeo animado nos mostra a construção das várias cercas que protegeram Lisboa ao longo dos tempos - da romana à moura, passando pela de D. Dinis e D. Fernando, no século XIV -, ecoa música gregoriana. Depois, deu-se o terramoto de 1755, de grau 9, que destruiu quase tudo em Lisboa. Hoje, este é um dos edifícios anti-sísmicos mais seguros da capital portuguesa, requisito necessário a todos os Bancos centrais, já que à estacaria pombalina se acrescentaram outras estacas de 22 metros de comprimento, bem enterradas nas fundações (na gíria interna do banco, chamam-lhes "esparguetes").

Interessantes artefactos do quotidiano podem ver-se aqui - pormenores de ânforas e vasilhas usadas em casa, e até o crânio de um cavalo, que remonta ao século I ou IV d.C (datação possibilitada por exames com carbono XIV). E depois, lá está ela, uma das jóias da coroa deste local, descoberta durante as escavações, de forma totalmente inesperada: um troço da muralha de D. Dinis, datada de 1294. Estes 30 metros de muralha, tão resistente que sobreviveu ao terremoto de 1755, contam-nos imensas histórias. Pelo reboco ou pelos materiais que a revestem, consegue perceber-se as habitações em volta. Larga de 2,60 metros, feita com uma amálgama de materiais pouco nobres, da pedra à argila e à areia, conseguiu sobreviver 700 anos, mantendo a sua função inicial, de proteção da cidade. Junto a um troço, está um poço do século XVIII, muito posterior - e no fundo encontrou-se um elemento curioso: uma pequena estátua de Santo António, padroeiro de Lisboa, sem cabeça, e sem menino. Ao que parece, e segundo os relatos dos historiadores, tal deveu-se a uma zanga da proprietária, uma senhora, seguramente. Era isto que sucedia às estatuetas quando o santo não realizava os desejos pedidos.. Neste caso, o de arranjar noivo a uma menina casadoira. São segredos como este que a Open House de Lisboa irá revelar. Aproveite.

O Santo António sem cabeça - ou a fúria de uma mulher solteira no século XVIII

O Santo António sem cabeça - ou a fúria de uma mulher solteira no século XVIII

O Open House Lisboa 2017 ocorre a 23 e 24 de setembro. Oferece a visita a 87 espaços, e conta com o apoio de 300 voluntários. Há atividades para crianças. O comissariado é das arquitetas Rita e Catarina Almada Negreiros.

Visitas ao Banco de Portugal sábado e domingo. No domingo, conta com a presença do arquitecto João Pedro Gonçalves Campos às 11h30.

Programa integral pode ser consultado AQUI