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Naufus, um náufrago à procura do seu lugar no mundo

Luis Barra

É a primeira vez que Naufus Ramirez Figueroa vem a Portugal mostrar a sua arte, mas não é um desconhecido do meio. Este artista da Guatemala tem exposto um pouco por todo o lado. Tão interessante como a obra, é o percurso do homem, fugido à Guerra Civil da Guatemala e que viveu anos como refugiado no México e no Canadá.

Luís Barra

Luís Barra

Fotojornalista

No piso térreo da galeria (Kunstahalle Lissabon), um mundo em construção contempla-nos. Uma girafa branca, em tamanho real, em poliuretano (um material semelhante à esferovite), uma cegonha com um lenço no bico, um bebé esculpido no mesmo material. À volta, pelo chão, muitos bacios, alguns já pintados com resina e pigmento - rosas, amarelos, azuis. Tudo aqui está embrionário, à semelhança do tema - e Naufus assume: causa-lhe algum desconforto mostrar a sua arte a meio, longe do formato final. Mas para nós, que vemos os contornos ganharem forma, há algo de fascinante neste caos criativo.

Naufus Rodriguez-Figueroa fugiu da Guerra Civil da Guatemala com seis anos. Foi refugiado décadas, no México e no Canadá. A arte foi o escape que encontrou para exorcisar vivências e fantasmas.

Naufus Rodriguez-Figueroa fugiu da Guerra Civil da Guatemala com seis anos. Foi refugiado décadas, no México e no Canadá. A arte foi o escape que encontrou para exorcisar vivências e fantasmas.

Luis Barra

Naufus Ramirez-Figueroa é um homem grande, com ar de rapaz. O sorriso tímido completa a aura de ingenuidade. Mas o discurso é sólido, culto, cheio de referências de leituras, cultura e vivências. Ao longo da nossa conversa, Naufus repetirá várias vezes que não é “assim tão especial”, que “há milhares de outros” como ele, forçados a fugir do seu país por causa da guerra, obrigados a andar pelo mundo com o “carimbo (e o ónus) de refugiado”. E contudo, a história que ele insiste em não sobrevalorizar está intrinsecamente ligada à sua arte, aos pesadelos e aos fantasmas que ele tem expiado e ainda traz por expiar.

A pintar, com resina pigmentada, alguns dos elementos da sua exposição, que inaugura esta quarta-feira, na galeria Kunsthalle Lissabon. O material é o poliestireno.

A pintar, com resina pigmentada, alguns dos elementos da sua exposição, que inaugura esta quarta-feira, na galeria Kunsthalle Lissabon. O material é o poliestireno.

Luis Barra

A obra artística de Naufus tem muitas vezes traços de humor, de choque, ou referências histórias e culturais ao seu universo latino-americano. Esta exposição, que inaugura amanhã (20) na Kunsthalle Lissabon, tem um título sugestivo: “Shit Baby and The Crampled Girafe”, o que traduzido, dá qualquer coisa como “A merda do bebé e a girafa amarfanhada”. O tema abordado centra-se na importância dada à aprendizagem de largar as fraldas e defecar no bacio. Surgiu-lhe, conta, da reflexão sobre “a popularização da fase anal de Freud”, apesar da teoria já esta ultrapassada. “Aos 11, li Freud e isso marcou-me bastante, mas também percebi mal alguns conceitos. Há uns anos, tive um sonho que me lembrou esta leitura fora de contexto”, explica.

As peças hoje em branco vestir-se-ão em breve de resina e cor. A escultura é um dos meios que Naufus usa nas exposições, embora explore também a 'performance', o vídeo ou o desenho. Mas não mostra tudo o que faz. A pintura, por exemplo, ainda não a considera suficientemente boa, para já. Assim como a escultura, que só exibiu a partir de 2011. Na obra de Naufus, esta forma de arte chega-lhe de trás, da herança familiar. O pai era dono de uma fundição na Guatemala, que fornecia o metal para os escultores que o procuravam. A mãe trabalhava numa fundação. O tio cursou Artes, e estava ligado ao teatro, com peças que foram censuradas pelo governo que tomou de assalto o Estado em 1954, e que deu início à Guerra da Guatemala - que só conheceria o fim muitos anos mais tarde, em 1996.

Com o menino nos braços. O humor e o choque são ingredientes frequentes na obra artística do guatemalteco.

Com o menino nos braços. O humor e o choque são ingredientes frequentes na obra artística do guatemalteco.

Luis Barra

Uma família de luta


Mas já antes a família de Naufus teve uma atividade política intensa, que lhe custaria sacrifícios pessoais. O avô, que era do Partido Comunista, foi forçado a exilar-se no final do século XIX. E aos 6 anos, Naufus viu o tio ser brutalmente assassinado na Guatemala - e foge com a avó para o México, onde viveu alguns anos, com o estatuto de refugiado. Fez parte da Diáspora de milhões de guatemaltecos, “como tantos outros”, insiste em repetir, como se não se quisesse atribuir um rótulo de “especial”.

Aos 12 anos, mudou de novo de país e passou a viver no Canadá. Sentiu-se “tratado como um refugiado”, confessa. Como “alguém que devia ter problemas, físicos ou psicológicos”. Talvez por isso tenha decidido regressar a “casa” há dois anos, à Guatemala de onde saíra há mais de três décadas. Mas tem pouco a ver com o Guatemalteco comum. Afinal, é muito mais um cidadão do mundo.

O Canadá serviu-lhe de rampa para assumir o seu lado artístico. Cedo, aos 14 anos, ainda antes de procurar formação, começou a expor. Em 2006, terminou o Bachelor of Fines Arts, no Emily Carr Institute in Art & Design, em 2008 o mestrado pelo Instituto de Arte de Chicago, e já em 2013, uma pós-graduação em “Sound Art”, em Maastricht. Mas só se lançou nos estudos depois de provar a si mesmo de que não estava apenas “a perder tempo”" em relação à arte.

As residências artísticas acabaram por dar-lhe mais mundo: a primeira, em 2011, levou-o a explorar a escultura, depois foi para Berlim, em 2016. Consolidou o percurso internacional: apresentou performances na Tate Modern, em Londres, no Guggenheim de Nova Iorque e nas Bienais de Veneza e de S. Paulo. Teve ainda uma grande exposição individual no Museu de Arte Contemporânea (CAPC) de Bordéus, em França, e em Portugal, é um dos finalistas do prémio Paulo Cunha e Silva. Aliás, os próximos três anos da agenda de Naufus já estão integralmente preenchidos de projetos artísticos.

Muita da sua 'performance' é peculiar, feita para fazer pensar. Em 2008, dormiu durante 20 dias numa galeria de arte agarrado a um cacho de bananas - que começou por estar verde, e no final, estava maduro, graças ao calor do corpo. A ideia era focar a importância das fábricas de banana na América Latina, e do sustento que representam para milhares de famílias. Outra 'performance', de uma melancia com gasolina que podia rebentar a qualquer momento, pretendia mostrar algo não apenas belo, mas também impactante.

É a primeira vez que Naufus apresenta o seu trabalho em Portugal. O artista guatemalteco gosta do facto de ter total liberdade criativa. “Não sei se sou muito bom, mas tem havido gente que vê algo em mim. E isso é ótimo”, resume. Chegou a hora de o espectador julgar por si.

Kunsthalle Lissabon, R. José Sobral Cid 9E, 1900-237 Lisboa
De 20 de setembro a 2 dezembro 2017