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Ruy de Carvalho: “Sou um cidadão normal com jeito para representar”

josé carlos carvalho

O ator participa hoje na homenagem teatral a Paula Rego, numa apresentação única pelo Teatro Experimental de Cascais da obra “Peter Pan”, às 19h, no Centro Colombo, em Lisboa

Alexandra Carita

Alexandra Carita

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Jornalista

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

Vai participar num espetáculo a partir da obra de Paula Rego sobre 
a história do Peter Pan. Gosta da pintura dela?
Não é bem o meu estilo de pintura. Mas reconheço-lhe o talento. Acho que é uma grande pintora. Na arte é tudo muito subjetivo. Podemos até não gostar do que estamos a ver mas querermos que essa obra exista. A obra da Paula Rego vale realmente a pena ser mostrada ao público. Ela pinta maravilhosamente, disso é que não há dúvida nenhuma. Fico um bocado impressionado com a pintura dela, mas...

Neste “Peter Pan” do Teatro Experimental de Cascais encenado 
por Carlos Avilez qual é o seu papel?
Sou o narrador. Um papel que pode parecer fácil mas que não é. Tenho de me coordenar muito bem com as falas e as entradas deles todos. Há uma narração e um espetáculo ao mesmo tempo e há muita dificuldade de conseguir isso. Gosto de narrar e de contracenar com as personagens enquanto faço a ligação entre cada episódio.

Qual é a moral da história?
O Peter Pan não quer morrer, é um velho. O Peter Pan é um malandreco. É uma figura deslumbrante. Ora quem é que quer envelhecer? Quem é que gosta de envelhecer? Acho que toda a gente gostava de ser Peter Pan. E de ter uma apaixonada como a Wendy, então... Um sininho, uma índia simpática...

Lembra-se de quando ouviu pela primeira vez a história do Peter Pan?
Não me lembro quando foi a primeira vez que ouvi a história mas o nome do Peter Pan conheço-o desde que me lembro de ser pessoa, e já são 90 anos. Já vi o “Peter Pan” muitas vezes. Tudo isto tem passado por mim em 90 anos de idade e 75 de profissão, 60 de televisão.

Vai contracenar com o seu neto, Henrique Carvalho. É comovente?
Já contracenei muito com o meu neto. Ele agora faz o pirata Estrelado. É jeitoso sabermos que temos um filho e um neto atores, não é verdade? Eles é que escolheram, não fui eu que lhes disse nada. Mas a primeira pessoa a quem contaram foi a mim. “Olha, avô, eu vou para o teatro!”; “Olha, pai, eu vou ser ator!” Acho que ele tem muito talento, e não o digo por ser avô, se não tivesse eu dizia que não tinha e tentava que ele desistisse da carreira. Há muita outra coisa para se gostar no teatro, não é só ser ator. Há figurinistas, cenaristas, iluminadores, contrarregras, carpinteiros, pode ser-se muita coisa no teatro.

Dizia-me que há tudo no teatro, e no teatro, como no “Peter Pan”, também não se envelhece?
O teatro é que não envelhece. Nós envelhecemos e os autores também. O que lhes acontece é que vão buscar a sua velhice e são recordados com muita ternura. O Liszt e o Beethoven já não existem e, no entanto, gostamos de os ouvir. O Tchaikovsky também. O teatro pode recordar isso tudo.

Quando digo que no teatro não se envelhece é porque a personagem 
não tem idade...
Ah! Isso não. Quer dizer, ela tem idade, nós é que nos adaptamos à idade que ela tem. Eu, por exemplo, ainda não tenho 90 anos para o teatro, dou para os 70. Dizem-me que ainda acreditam que tenho 70! Mas realmente só envelhecemos quando acabamos.

Qual foi a personagem mais jovem que fez?
Talvez num Shakespeare, “Medida por Medida”. Era um jovem, o Lúcio, um menino maluco. Mas já fiz muitos jovens. Há 75 anos comecei por fazer jovens e galãs. Era chamado galã. Não sei se era o galã bonito se o galã ator, porque existem os dois. O Humphrey Bogart era galã e não era bonito. Hoje há muitos atores que são galãs e não são bonitos. Antigamente até tínhamos nomes, o galã de ponta, o galã central, o galã mais velho. Hoje isso perdeu-se.

É muito diferente contracenar com os atores mais novos?
É muito bom contracenar com eles, porque eles reciclam-nos. Nós, se ficarmos na experiência não progredimos, não avançamos. Precisamos de alguma coisa que nos desperte, que nos torne a acordar para a vida. É o olharmos a experiência que eles nos vão dar. Eles trazem o caos, normalmente, mas depois tudo isso começa a harmonizar-se. A nossa experiência com o caos deles resulta numa coisa muito bonita. Hoje não se representa como se representava há muitos anos. Para nos fazermos ouvir, tínhamos um empolamento para as palavras chegarem ao longe. Hoje há uma procura da chamada sinceridade, eu não lhe chamo naturalidade. A naturalidade faz parte do ser ou não ser de cada pessoa. Acontece que no teatro, o que o ator tem de procurar é ser sincero para com a personagem que o autor escreveu. Fiz há pouco tempo o pai dos Karamazovs, que era bêbado e mau.

Mas normalmente dizem que faz personagens ditas boas?
Pois é. Mas não é que eu não goste muito de fazer os maus. É aí que o ator tem de aparecer. É sair de si completamente e contrariar tudo aquilo que pensa. É um trabalho interessante de se fazer. Aliás, há maus que são muito simpáticos e não há nada pior do que um mau simpático. Peguemos no Iago do “Otelo” e vejamos como é um simpático mau.

Porque aceitou narrar a história do Peter Pan?
Aceitei porque queria absolutamente participar numa homenagem à Paula Rego, uma pintora portuguesa reconhecida mundialmente. Chega a muita gente com a sua fantasia e a sua imaginação e isso é uma coisa que me dá um grande orgulho e uma grande satisfação. A verdade é que tenho mesmo um grande orgulho nos portugueses que aparecem e que vingam no mundo. E são muitos. Nós é que não sabemos. Não nos interessamos muito por aquilo que é nosso.

Às vezes até os deitamos abaixo.
A tentativa é sempre essa. Deitar abaixo. É querer sempre mais do que. É, por exemplo, um filho querer ser mais do que o pai, um neto melhor do que o avô. Não. Cada um é o que é. O meu neto é o meu neto e o meu filho é o meu filho. Cada um tem uma personalidade e uma maneira de ser. Gostam é da mesma coisa que eu. Gostam de teatro.

Influenciou-os?
Influenciou-os a minha vida. Quando escolheram ser atores já eu tinha 30 anos de teatro. Acharam que ser ator era uma profissão digna, como qualquer outra. Aliás, costumo dizer que sou um cidadão normal com jeito para representar. Foi o que aconteceu.

Vestir a pele de tanta gente não é fazer algo um pouco diferente?
É. E é sobretudo bom para as doenças!

Então?
Quando vestimos a pele de outra pessoa não sentimos as doenças.

Que sentido de humor tão aguçado!
É verdade. A minha profissão obriga-me a isso. Sou um observador e para isso tenho de ter sentido de humor. Passo a vida a observar os meus semelhantes. Aliás, nunca estou sozinho, como digo, estou sempre com um canhenho a tomar notas sobre casos conjunto, não individuais. Há cidadãos semelhantes, do mesmo tipo, gordinho, meio gordinho, loiros, morenos e há muitas formas de proceder, avarentos, generosos.

Observa, toma nota e quando vai para cima do palco replica?
Claro. Quando é preciso uso. Temos de ter um armazém de coisas guardadas para nós. Isso só é possível se vier da observação da vida e daqueles que vemos de passagem. Há vidas que levam anos e que são contadas em três horas!

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 9 de setembro de 2017