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Não conversa muito, mas escreve como poucos

Naoki Higashida escreve prosa, poesia, ensaio e mantém um blogue

TORU YAMANAKA/AFP/GETTY IMAGES

Um prolífico escritor autista desafia ideias feitas sobre a sua condição

O japonês Naoki Higashida é poeta, novelista, ensaísta e bloguista. Fez 25 anos no mês passado e já publicou mais de 20 livros na sua língua materna, tendo lançado há dias a sua segunda obra em inglês. Impressionante. Sim, até porque o primeiro volume anglófono deste jovem, “The reason I jump” (A razão por que salto), saiu quando tinha 13 anos.

Mais incrível se torna o percurso deste autor quando sabemos que sofre de autismo não-verbal. Segundo o “Financial Times”, o jovem revolucionou as suposições de que as pessoas autistas carecem de empatia, humor ou imaginação. Tem dúvidas? Leia a descrição que faz da linguagem falada, um mar “onde toda a gente nada, mergulha e brinca livremente, enquanto eu fico sozinho, preso num barquinho que balança de um lado para ou outro”.

Foi a um provérbio nipónico que Higashida foi buscar o título “Fall Down 7 Times Get Up 8” (Se caíres sete vezes, levanta-te oito) para um livro em oito secções que “The Japan Times” insere na tradição do zuihitsu: coleção de breves ensaios, de tom filosófico, intercalados com poesia, memórias e ficção. O subtítulo da edição inglesa é explicativo: “a voz de um jovem a partir do silêncio do autismo” .

Ainda assim, garante este jornal anglófono de Tóquio, “o êxito do escritor transcende o seu diagnóstico”. O tom é elogioso, numa recensão ao livro que saiu há dois anos em japonês e que “cobre um terreno bem vasto, considerando tudo, desde o som da chuva à definição de uma vida com sentido”.

O QUE FAZEMOS E O QUE PENSAMOS

O jornal conta que Higashida cedo aprendeu a comunicar apontando para letras numa tabela com o alfabeto, ligada a um computador. “Não consigo conversar bem, mas isso não quer dizer que não pense”, diz à revista “Time”, por e-mail, o homem que encontrou na escrita uma ligação ao mundo e, segundo “The Japan Times”, fez do relativo isolamento a que a doença o vota uma ocasião de “desenvolver plenamente os poderes de observação necessários para uma boa escrita”, caracterizadas por “perspetivas ricas e profundas sobre ideias que muitos dão por adquiridas”.

O próprio explica que para si “a escrita criativa não passa por usar alegorias nem por escrever sobre coisas que nunca poderiam suceder, mas por escrever sobre coisas que toda a gente sabe, mas pode ter esquecido. Do seu posto de observador privilegiado, porque menos distraído, constata que “a forma como as pessoas se movem e as coisas que dizem não correspondem ao que estão verdadeiramente a pensar”.

A seu ver, isso acontece “porque a mente das pessoas é complicada”. Higashida tenta compreendê-la prestando atenção “ao ritmo das palavras e das conversas casuais” e assegura que “as pessoas são muito mais interessantes do que os livros”. O que quis com esta obra foi criar “um livro em que as pessoas peguem quando se sentirem tristes ou sozinhas”.

“Fall Down 7 Times, Get Up 8”, Naoki Higashida, Editora: Sceptre; Páginas: 288 páginas; Preço: £10,49/€11,54 (Amazon)

“Fall Down 7 Times, Get Up 8”, Naoki Higashida, Editora: Sceptre; Páginas: 288 páginas; Preço: £10,49/€11,54 (Amazon)

A obra foi traduzida para inglês por um casal anglo-japonês, David Mitchell e K.A. Yoshida. Mitchell é pai de uma criança autista e escreveu uma introdução para esta edição, alertando para a frequente confusão entre as dificuldades de comunicação de um autista e atrasos intelectuais que não existem. Conheceu bem Higashida por ter traduzido “The reason I jump” e participado num documentário sobre o escritor japonês. “Se ‘The Reason I Jump’ era um texto escrito por um rapaz que tinha autismo grave mas por acaso era capaz de escrever, ‘Fall Down Seven Times, Get Up Eight’ é o livro de um escritor que por acaso sofre de autismo grave”.

DE BOAS INTENÇÕES...

Higashida garante que não pensa no autismo como “pertencer a um mundo especial” e defende que, mais do que arrumar indivíduos em caixas, o que é preciso é ajudá-las a ter “um papel ativo na sociedade, vivendo de uma forma que não seja determinada por outros”. “As pessoas que têm incapacidades ouvem outros dizer-lhes o que hão de fazer. Quem dá esses conselhos até pode ter boas intenções, mas por vezes eles servem mais para inimizar os incómodos e inconveniências que [a sua condição] causa aos outros”, comenta.

Higashida escreve sem tirar notas, acontecendo tudo dentro de uma cabeça “a transbordar de palavras”, que diz mover “como um puzzle para formar frases”. Acha particularmente bonitas as palavras que “exprimem os sentimentos na perfeição” e tem uma predileção pelo número 3, que explica: “O 1 é o mais importante, parece uma prova de que há ali algo. Ainda assim, a descoberta mais espantosa é o 0. O conceito do nada é prova da civilização humana. Depois do 1 vem o 2, por ordem de importância. O número 2 permite-nos dividis as coisas e ordenar os números. Estes três números (0, 1 e 2) teriam bastado. Como número, o 3 é encantador. Foi criado mesmo sem ser preciso. Talvez tenha seja produto da criatividade?”.

Este jovem escritor considera mais importante viver uma vida “satisfatória e válida” do que ter êxito na escrita. Ao que parece, atingiu ambas as metas.