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Destino: Estado Islâmico. Este é o caminho da radicalização

“O Estado” mostra a vida de cinco britânicos na Síria, sob o controlo do autoproclamado Estado Islâmico

FOTO CHANNEL 4

“O Estado”, sobre o quotidiano no território sírio controlado pelo Daesh, é a nova criação televisiva de Peter Kosminsky. A série 
de ficção, baseada em factos verídicos, estreia-se esta noite no National Geographic

Eu prometo ao emir dos crentes, Abu Bakr Al-Qurayshi, ouvir e obedecer aos seus fundamentos e julgamentos, no sofrimento e na tranquilidade; estabelecer a religião de Alá e lutar contra os inimigos de Alá, estabelecendo o Estado Islâmico e protegendo-o. E que Alá seja testemunha do que dizemos.” Foi com palavras como estas que milhares de jovens fizeram o seu Bay’ah (juramento de fidelidade) ao Dawlah al-islamiyah, o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), mas não é pelo ritual de iniciação que “O Estado”, a nova série de ficção do National Geographic, se inicia.

É ainda por Dar al-kufr — nome dado a todos os territórios dos descrentes — que são passados os primeiros minutos da produção britânica, com os futuros combatentes do Daesh ainda no Reino Unido, e mostrando como a realidade é diferente do que passa para parte da opinião pública. “Na série, mostramos que as pessoas saem pelos mais variados motivos”, explica a produtora-executiva Liza Marshall, que afiança que a história “não é tão simples como as pessoas podem pensar”. “É uma situação muito mais complexa do que isso, e felizmente a série consegue ir onde um documentário não consegue.”

Peter Kosminsky, responsável pelas séries britânicas “The Promise” e “Wolf Hall” e criador e realizador de “O Estado”, concorda com a produtora-executiva e explica que “embora as personagens sejam uma mistura de várias pessoas reais, tudo o que é visto na trama aconteceu na realidade, foi feito a partir da pesquisa”. No fundo, a série só é “considerada um trabalho de ficção por as suas personagens serem ficcionais, uma vez que tudo o que se vê aconteceu de verdade”.

Para a construção da narrativa da série foi criada uma equipa de investigação própria, que reuniu e tratou informação ao longo de 18 meses. “Há uma grande quantidade de material nas redes sociais e existem muitos materiais em vídeo, publicados pelo Estado Islâmico”, explica Kosminsky, mas era preciso tempo para transformar a realidade em ficção sem faltar à verdade. É nos pormenores que está a diferença e “O Estado” segue as experiências de cinco britânicos (dois homens, duas mulheres e uma criança), que deixam as suas vidas para se juntarem ao Daesh em Raqqa, na Síria. Partem de madrugada e apenas com uma mala. Fecham a porta de casa antes de saírem e levam a chave consigo — isso até pode não lhes passar pela cabeça no momento, mas ao guardarem o porta-chaves assumem que um dia hão de voltar. Se conseguirem.

A caminho, despedem-se da vida que tinham (uns apagam todas as informações do computador, outros mudam de roupa, e todos partem de avião) e pensam no que se seguirá. A viagem ainda só está a começar e são várias as escalas e mudanças de transporte até ao destino derradeiro. Aquele que vai mudar-lhes a vida para sempre. Seguem viagem de carro, trocam de veículo e prosseguem a pé. Precisam de atravessar a fronteira, mas não será esse o maior dos seus problemas. Passam sem sobressaltos e entram no Califado.

“Welcome”, dizem-lhes, dando as boas-vindas. Chegaram, tal como ambicionavam, ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e é tempo de dizerem adeus a quem são. Os telefones delas são desligados e retirados; os deles são inspecionados e as fotografias de familiares têm de ser apagadas — mesmo que em causa esteja a única recordação visual da própria mãe. Depois de queimarem os passaportes ocidentais, renunciaram àquilo que foram e o seu nome será apagado. Passarão a responder por uma kunyah (novo nome árabe pelo qual serão conhecidos).

UMA MISSÃO MAIOR 
DO QUE A FICÇÃO

Para Kosminsky, “a ficção está sempre ligada às dificuldades da sociedade” em perceber o mundo em que se vive e “‘O Estado’ é apenas mais um exemplo desse tipo de esforço”. Um esforço para oferecer um certo entendimento sobre uma questão que não é clara para todos, mesmo que haja um ponto em que quase todos concordam. “O [autoproclamado] Estado Islâmico tem sido responsável por inúmeras atrocidades”, lembra o criador da série, que não foge à exibição de alguns momentos chocantes durante o decorrer da trama nem considera que esta faça justiça ou acalme as vítimas daqueles que se radicalizaram. Não é essa a sua missão.

“Como dramaturgos, faz parte do nosso trabalho segurar no espelho e virá-lo para a sociedade, lidando às vezes com assuntos extremamente complicados, mas que são importantes na atualidade”, considera, lembrando qual foi o principal objetivo da produção. “O nosso objetivo aqui (…) é dar uma visão com mais matizes do assunto e ir um pouco além do retrato de que estás pessoas [que se juntaram ao Daesh] são todas malucas ou psicóticas.” “Como é que vamos combater o Daesh se não o entendermos?”, termina.

Talvez essa sede de compreensão se tenha estendido para lá da narrativa e é também através da tradução de vocábulos — durante os episódios há termos árabes que surgem traduzidos — que se entende parte do que está em causa. Num lugar em que cada um é como um akhī (irmão), há que respeitar o amīr (líder da casa) e seguir os preceitos da dīn (religião) em todos os momentos. Ali, lembram-se os Hadīth (ensinamentos do profeta) e cumpre-se com a fard (obrigação religiosa) sem olhar para trás. No jannah (céu), há Hūr al-’ayn (virgens do paraíso) à espera, mas primeiro é preciso combater os infiéis, nem que seja um kafir (descrente) de cada vez. Não vale a pena desistir, porque não há perdão para murtaddīn (desertores).

“O Estado”, composto por quatro episódios, estreia-se este sábado, pelas 22h30, no National Geographic (com a exibição dos primeiros dois capítulos da minissérie), à qual se seguirão os dois últimos capítulos, a apresentar no próximo sábado.