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O festival que arde (com amor) em São Miguel

Vista panorâmica da Praia de Porto Formoso, em São Miguel, nos Açores, local onde decorreu o festival Azores Burning Summer

Foto Contratempo

Há duas semanas a praia de Porto Formoso, em São Miguel, foi palco da 3ª edição do ecofestival Azores Burning Summer que juntou Bonga, Capitão Fausto, Branko, Coldcut e vários outros artistas e bandas daqui e além-mar que importa ouvir. Passaram duas semanas, mas há muito para contar e recordar depois disto. “Play it and burn”

Comecemos por um pormenor. Como se sabe, o diabo está nos pormenores. E os festivais bons como o diabo também. A meio da primeira noite, numa pausa das atuações do palco, quando as pessoas aproveitavam para atestar o copo, conversar, ou comer uma bucha num dos quiosques do recinto (de notar que havia comida vegan), rebentou um irresistível som oriental do interior da tenda dançante que remeteu todos os presentes para um musical de Bollywood, algures na Índia. E os festivaleiros responderam com danças exóticas, alegres e criativas tal como a batida exigia. Que nível. Que momento. Que DJ set surpreendente com escolhas nada óbvias. Tratava-se da dupla Mesquita & Laura. Pai e filha. Pedro Mesquita, de 54 anos, e Laura Mesquita, de 14. Duas gerações distintas, aos comandos dos pratos e vinis que ali se encontravam na curva dos gostos musicais de ambos. Acabavam de colocar um tema de bhangra, género musical de Punjab, uma região da Índia junto ao Paquistão.

Depois seguiu-se um som mais africano, mais tribal, mais roots, com a banda sul-africana Bra Sello. Mais tarde, tocou 'Stereotypes', dos Blur, e uma versão afro de 'Venham mais Cinco', de Zeca Afonso, pela voz de Ildo Lobo, nos veteranos cabo-verdianos Tubarões.

foto contratempo

A obrigarem o pessoal a esticar os telemóveis, ligados à app Shazam, para levarem algumas daquelas melodias para casa.

Chamemos-lhes garimpeiros musicais dos vinis de todos os tempos. O que pode o amor pela música de um pai e de uma filha? Fazer arder de boa energia todo um festival. Mas a essa hora, pelas 23h, já a chama musical ia bem alta junto à praia de Porto Formoso, na ilha de São Miguel, onde decorreu a 3ª edição do ecofestival Azores Burning Summer, nos passados dias 1 e 2 de setembro. Um festival “que representa a queima dos últimos cartuchos do verão e das férias”.

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Os Açores são cada vez mais um destino incontornável de festivais e eventos culturais de qualidade — oportunidade para referir o festival de arte urbana Walk & Talk (decorreu este ano entre 14 a 29 de julho) e o festival de música independente Tremor (entre 4 e 8 de abril). Mas, o Azores Burning Summer está a conquistar um espaço próprio no mapa dos festivais de verão, diferenciando-se por ter uma preocupação ecológica e um ambiente familiar, intimista e eclético, que não está pensado para acolher grandes multidões. Aqui a ideia é as pessoas sentirem a música como se estivessem no relvado de um amigo, a poucos passos de uma praia belíssima que nem todos conhecem. Ou não fosse este festival o resultado da amizade entre dois melómanos, o documentarista e músico micaelense, Filipe Tavares (diretor do evento), e o produtor musical inglês, Adrian Sherwood (diretor musical), fundador de uma das mais importantes editoras britânicas (a On-U Sound Records), que tem um afecto especial por São Miguel. “Quisemos arranjar um pretexto para nos encontrarmos todos os anos e celebrarmos o final das férias, com boa música”, conta Filipe.

foto bernardo mendonça

Antes da música houve ecotalks no bar da praia, durante toda a tarde, ou seja, debates sobre ecologia e o estado ambiental dos Açores, do país e do planeta. Falou-se do mar e sua sustentabilidade, de turismo, de energia, de resíduos ou do futuro da agricultura. A ideia que ganhou chama é que há muito para fazer nestas matérias ambientais. E os festivais também podem servir para refletir e provocar a mudança. No ano passado, um dos painéis fez com que um projeto de uma incineradora que estava para ser construída na ilha não avançasse e motivasse um movimento civil "para salvar a ilha.". Mas isso são outras cantigas.

Nesta edição o palco principal começou por ser aquecido com o ritmo tropical do grupo luso-brasileiro Samba Sem Fronteiras (um quinteto de brasileiros residentes no Porto) e seguiu para o trio da Terceira The Big Muffin Orchestra que foi beber às raízes musicais norte-americanas, do country, ao delta blues e ao bluegrass, com versões que convocam à festa. Verdade seja dita, na primeira noite, como houve um adiantamento imprevisto no horário, os primeiros grupos tocaram para pouca gente. Poder-se-á dizer que tocaram para o boneco. Ou melhor, para o gigante “Eko”, um monumental boneco de madeira sentado no recinto, da autoria do arquiteto paisagista Diogo Jácome Correia.

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Os Lavoisier, que têm como lema "na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma", já contaram com uma plateia mais composta, sentada na relva, e bem o mereceram. Patrícia Relvas e Roberto Afonso são um simpático casal, ela nascida na Guarda, ele de Lisboa, que se inspiraram nas recolhas de Giacometti e no cancioneiro popular português, com versões de uma beleza e contemporaneidade incríveis. Se não os conhecem, procurem-nos (acabam de lançar o primeiro disco de originais, “É Teu”).

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Nessa noite, esta dupla tinha aceitado o desafio do diretor do festival para se apresentar com uma tradutora de linguagem gestual, que lhes traduzisse as letras e a musicalidade das suas canções aos surdos presentes. Uma população que raramente tem oportunidade de tirar partido de festivais desta natureza. E foi bonito e emocionante ver alguns grupos embalados com aquelas canções e nos gestos melódicos das tradutoras Teresa e Andreia. Um arranque com o poema 'Viajar', de Fernando Pessoa, e uma despedida com o tradicional tema 'Sra. do Almortão'.

Entre concertos, os festivaleiros cirandavam no Burning Market, uma feira de artesanato e produtos de ecodesign, e atestavam o copo.

Seguiu-se o momento alto da primeira noite, os Capitão Fausto incendiaram o local com as canções do último álbum, "Capitão Fausto Têm os Dias Contados". Tocaram temas como 'Amanhã 'Tou Melhor', 'Corazón' ou 'Semana a Semana' e outros de discos anteriores como 'Febre' e 'Raposa'. Canções pop saborosas, bem escritas, bem cantadas e bem musicadas. Nos bastidores eles estavam preocupados com o atraso de um voo que poderia fazê-los falhar o ensaio de som do concerto que fariam no dia seguinte, no Porto, mas no palco deste festival deram tudo, com energia, mas sem os tiques e maneirismos da moda.

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Com Tomás Wallenstein a cantar letras que se colam ao ouvido: "Se me tiras o ar/ A ti, tiro-te a vida/ Uma malha não me vai bastar/ Tenho muita garganta/ Pouca guita pra tinta/ Só descrevo o que quiser cantar/ Podes ver-me falhar/ Até te mostro uma lista/ A vaidade não me vai largar/ Amanhã tou melhor/ Tenho outras coisas em vista/ E a vergonha atrás vou deixar." O público esteve à altura e trauteou com eles. Estes putos já não são uns novatos com jeito para as cantigas, embora ainda nos vintes e tal, a sua coerência musical, maturidade e equilíbrio nas composições torna-os atualmente uma das bandas mais interessantes da pop portuguesa. No local houve quem comentasse que soavam a Doors. Na verdade, eles soam cada vez mais a eles próprios. E o tempo tem-lhes feito bem.

O que também veio por bem foram as batidas do mestre Adrian Sherwood, um dos engenheiros do dub, apaixonado pela cultura reggae, mas também pelo hip hop e R&B. Destaque ainda para o DJ set de Branko, um dos cabeças de cartaz do festival, que depois do fim dos Buraka Som Sistema tem dado cartas como produtor e DJ, através da sua editora Enchufada. Um som eletrónico e étnico inspirado numa Lisboa urbana, africana, cosmopolita, misturada e remisturada.

A tarde seguinte começou novamente na praia com o DJ set de Sargento Zundapp e uma homenagem a Prince e a David Bowie com a voz de Sara Cruz. Músicas de todos nós que nunca são demais lembrar e cantar.

A segunda noite arrancou com os açorianos Anona, com uma linguagem assente na improvisação e em momentos inesperados. Com eles não é estranho ver os músicos trocarem de instrumentos, uma vez que são todos multi-instrumentistas.

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Uma atenção especial para Débora Umbelino, aka Surma (nome que a artista adotou de uma tribo indígena da Etiópia), a 'one woman band' que se seguiu, uma jovem criadora de uma música etérea, que convida a corpos oscilantes, as batidas eletrónicas bem casadas com um canto limpo, de anjo, que nos fizeram flutuar por aquelas paragens paradisíacas. Ouçam os temas 'Maasai' e 'Hemma' e percebam porque não dá para ignorar este novo talento que vai dar muito que falar (e ouvir).

Depois cantaram os açorianos Medeiros/Lucas, outro projeto muito interessante. A voz grave e cavernosa de Carlos Medeiros e a música envolvente de Pedro Lucas, duas gerações de músicos, que juntos criam temas singulares, com memória e modernidade.

E porque este festival é para vários públicos, seguiu-se o angolano Bonga. O eterno Bonga que, no ano passado, lançou o disco “Recados de Fora” surgiu acompanhado por uma bailarina, que trouxe mais exotismo e beleza ao palco.

José Adelino, mais conhecido por Bonga, é um senhor artista ainda cheio de energia que proporcionou um dos momentos musicais mais animados da segunda noite. “Ainda agora comecei e vocês já estão no ponto. E as senhoras quando começam a mexer os atributos é um problema. É mesmo um problema...” Uma longa atuação de duas horas que contou com temas como 'Kambuá', 'Água Rara' e o clássico 'Mariquinha'.

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Tocaram mais tarde os Sensible Soccers, um trio de eletrónica instrumental, com espírito rock, que começou a fazer música numa casa abandonada em Fornelo, Vila do Conde, e que evoca nas suas criações impressões ou memórias de infância.

Os cavalheiros seguintes dispensam apresentações ou impressões. Foram os britânicos Coldcut, fundadores da mítica editora Ninja Tune, conhecidos pela irreverência e inovação que colocam nas suas composições eletrónicas.

E, antes do nascer do sol, os mais resistentes (não foram assim tão poucos) desceram até à praia de Porto Formoso, também conhecida como Praia dos Moinhos, para assistirem ao momento mais esperado do festival, a fogueira “Burning Summer”.

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Cícero Mateus foi o músico a lançar canções para a fogueira, com temas suaves, tropicais e intimistas, enquanto ardia a escultura "Quatro Graus" (demorou a pegar fogo, mas acabou em cinzas), uma obra de Rui Sabino (uma das criações da LAPA – Land Art Project Azores). E que boniteza foi anunciar o novo dia e a nova época do ano com 'Queremos Saber', de Gilberto Gil, ou 'Imunização Racional', de Tim Maia: "Uh! uh! uh! Que Beleza!/ Uh! uh! uh! Que Beleza!/ Que beleza é sentir a natureza/ Ter certeza pr'onde vai/ E de onde vem/ Que beleza é vir da pureza/ E sem medo distinguir/ O mal e o bem.../ Uh! uh! uh! Que Beleza!/ Uh! uh! uh! Que Beleza!"

O Expresso viajou a convite do Azores Burning Summer

Espreite aqui alguns dos melhores momentos vividos neste ecofestival em São Miguel