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O mundo também é feito de coisas que existem mas não se veem

Por aqui, voltamos a ter canções. Não são playlists como antigamente, gravadas em cassetes saudosas, mas vêm com o mesmo amor e devoção dessas playlists de outrora

Uma playlist de Flávia Tomé

Há coisas que só aprendemos nas histórias e há coisas que só se explicam nas canções que ouvimos.

Devia ter uns oito anos quando ouvi pela primeira vez a palavra gambozino e foi também nesse momento que fiquei a saber que já de noite, bem cerrada, teria de os caçar. E que era suposto ter medo porque também era desta forma que começavam todas as histórias assustadoras que os mais velhos nos contavam, ao redor da fogueira, quando o lume ficava rasteiro e a madeira que faltava arder começava a crepitar lentamente no chão.

Nenhum de nós - éramos seis - sabia o que esperar quando fomos colocados cada um na sua árvore. Chamámos por eles com voz baixinha, porque os gambozinos são tímidos e diz-se que só aparecem no silêncio e na calma. Os troncos chocavam numa dança medonha, o vento fazia ‘vmmmmmm’ e eu, embalada, sentia-me uma exploradora a sério, como aquelas dos livros de aventura e que só existem no universo dos pequeninos porque só eles sabem como acreditar a sério nas coisas que querem da vida.

Anos mais tarde, numa daquelas conversas que preferimos não ter porque é bom e dá alento acreditar que o mundo também é feito de coisas que existem mas não se veem, contam-me que afinal eles vivem, sim, mas na cabeça de cada um de nós e que podem ser muitas coisas diferentes. E eu, que na altura já tinha gasto muitos minutos a descortinar o tamanho da cabeça redonda e meio verde de uma espécie de gafanhoto pequeno e fosforescente, e das asas rápidas - porque eles tinham de voar -, e do barulho que faziam quando se chegavam bem pertinho, fiquei triste.

Quando crescemos, ocupamos a cabeça com coisas complicadas que nem nós, que as pensamos, conseguimos entender, e que em vez de acalmarem dúvidas mexem com as coisas difíceis que moram dentro do coração. Não por esta ordem, mas a música dá luz e dá conselhos e dá caminho para voltarmos aos sítios onde fomos felizes. Por agora, estes são os acordes que me levam até àquela floresta e a todos os momentos que me deixaram de alma leve e vazia e a acreditar que podemos viver para sempre.