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Ela despediu-se agradecendo à vida

Nasceu há cem anos Violeta Parra, a mulher que traduziu em música a alma do Chile e que continua “cada vez” mais atual. Assim o afirmam a filha e a neta, Isabel e Tita Parra, também elas cantautoras e que vão dar um concerto esta terça-feira às 21h no CCB, em Lisboa. Ambas falaram ao Expresso

A guitarra foi o primeiro e único instrumento de Violeta Parra, ensinado pela mãe

A guitarra foi o primeiro e único instrumento de Violeta Parra, ensinado pela mãe

D. R.

Nasceu no campo chileno, filha de Clarisa e Nicanor, camponesa e professor de música, pais de outros quatro filhos. Todos, sem exceção, seguiram o rumo da música, mas foi Violeta, Violeta Parra, a que mais se destacou. E ela não se limitou a cantar: passou anos a investigar e gravar a música tradicional do seu país de um modo como ninguém antes o tinha feito, desenterrando uma herança até então desconhecida. Hoje, as suas canções são indissociáveis desse Chile interior, dessas notas que sempre estiveram lá, à espera de que alguém as recolhesse. Há cem anos que viu o mundo pela primeira vez e há 50 que morreu tragicamente, cometendo suicídio. Justamente um ano depois de escrever a sua canção mais conhecida, o hino “Gracias a la vida”.

Era, muito provavelmente, uma canção de despedida. E é quase certo que venha a estar incluída no concerto que, esta terça-feira às 21h, a filha mais velha e a neta vêm fazer ao CCB — e que repetem em Loulé na quinta às 21h30. Isabel e Tita Parra não desvendam pormenores, apenas dizem que o que trazem é uma síntese da obra das três. Afinal, ambas seguiram o caminho de Violeta. Ao telefone com o Expresso desde Paris, preferiram concentrar-se nesse legado, abrindo a porta de algumas recordações.

“Quando se cresce num ambiente como aquele em eu cresci, dominado por uma figura como a de Violeta Parra, é impossível desligar-se dessa influência”, diz Isabel Parra. “A minha mãe era uma mãe normal, que se preocupava connosco, com o sustento da casa, e que por outro lado compunha a sua música, bordava as suas tapeçarias e pintava os seus quadros. Era a mesma pessoa, que fazia sozinha todo o trabalho doméstico e ao mesmo tempo tinha todos aqueles projetos artísticos. Era a mesma cabeça, as mesmas mãos, o mesmo coração”, continua. Nem sabe como é que a mãe fez para, “contra ventos e marés, andar para a frente e concretizar as suas ideias num país pouco desenvolvido e onde a situação da mulher era pior do que hoje”. “Sem ajuda, sem apoio, sozinha sempre.”

Uma vida feita de música

FIlha e neta coincidem em que Violeta Parra era “genial” — uma força da natureza. Teve quatro filhos, viu morrer um. E dois casamentos, o primeiro dos quais acabou por ela não corresponder com o perfil de mulher ‘submissa’ da época. Teve, perto do fim, um grande amor que a desiludiu. Compilou três mil canções populares, revitalizou o folclore chileno, que difundiu na Europa e no resto da América Latina, e que fixou em livro, para que nunca mais estivesse oculto. Nos anos 1950 viveu em Paris e foi a primeira artista latino-americana a expor individualmente no Museu de Artes Decorativas do Palácio do Louvre. Suicidou-se com um tiro de revólver na cabeça, às dez para as seis horas da tarde de 5 de fevereiro de 1967, pouco depois de editar um disco que fez questão de intitular “As última composições de Violeta Parra”, cuja subtileza premonitória ninguém percebeu.

“A obra da minha avó é um processo que pode ser dividido por etapas. A primeira foi de investigação do folclore e da poesia chilena, num gesto em que foi pioneira, e aí ela grava, escreve, difunde os resultados. Mas antes disso vem a infância, onde aprende muito com a mãe num ambiente semelhante ao que mais tarde investiga. Aos poucos, Violeta incorpora tudo o que estudou nas suas próprias composições. Ela foi a sua própria escola e renovou nos conteúdos: foi a primeira no Chile a escrever canções com um sentido social que antes não existia”, explica a neta, Tita Parra, colocando-a ao lado dos maiores da canção francesa ou de outra figura chave na música latino-americana, Atahualpa Yupanqui.

Tita viveu rodeada da energia criativa da avó até aos 11 anos e participou desde muito cedo nas digressões familiares. “Fui criada nesse contexto, por isso a educação e a influência que recebi foram naturais, como qualquer criança que vive num ambiente onde se canta, se toca, se faz música, se escrevem canções e se fazem ensaios e concertos. Violeta era quem levava a direção dos trabalhos e fui convidada a participar desde as minhas primeiras recordações”, refere. “Não era possível separar a música da vida quotidiana, porque a vida era feita de música.”

Um Chile que já não existe

Por sua vez, Isabel Parra conta como é ser cantautora e, em simultâneo, filha de Violeta Parra: “Em geral, os artistas não queres que os filhos façam o mesmo, por diferentes razões. A minha mãe era o contrário: estimulou-nos de modo permanente, para que aprendêssemos com ela e no meio disso encontrássemos a nossa própria voz. Por isso, desde muito pequenina que a minha filha Tita foi também integrada neste grupo familiar estranho que fazia digressões, que viajava, que gravava discos...sempre em família. Isso tem a ver com a forma como Violeta foi criada, sempre a cantar com os irmãos.”

Para que Chile escrevia Violeta? “Também me faço essa pergunta. Ela dizia que tudo o que fazia, fazia-o pelo Chile. E creio que no seu protesto existia a ilusão de que os problemas do país fossem resolvidos. O Chile profundo de Violeta é aquele onde nasceram os Parra e onde aprendeu as primeiras canções, puro, simples, pobre. E ela sempre lutou por reencontrar essa música. Mas esse Chile, que ela amava, já não é o de hoje”, reflete a filha. Quando Pinochet subiu ao poder, Isabel exilou-se em França, na Paris de onde agora nos conta estas histórias. Esteve lá durante 14 anos, e por isso sabe quão “aterradora” pode ser a experiência do exílio. Porém, voltar teve um travo amargo. “Primeiro foi muito bom, pois era o meu desejo, mas fui-me desencantando. Porque tinha imaginado um país como o que deixei — o Chile de Salvador Allende. E esse país já não existia. Hoje continuamos subdesenvolvidos, mas tornámo-nos consumistas. Não é uma contradição? É adverso e custa muito viver numa sociedade assim”, reconhece.

Porém, isso reforça ainda mais a vigência das canções de Violeta Parra. “Continuam a cantá-las, mas noutro contexto. Todos gostam de Violeta, os bons e os maus. Claro que há um setor fascista que não gosta dela nem dos Parra. A democracia não apaga essas mentes. Mas são uma minoria”, diz Isabel. “A atualidade de Violeta prende-se com a lucidez com que abordou os problemas do seu país — a desigualdade, a injustiça social —, que ainda continuam. A América Latina é um continente abandonado, à mercê de interesses alheios às pessoas. Não são ditaduras militares, mas de pensamento, de propaganda e de controlo. Hoje, mais do que nunca, precisamos de Violeta Parra”, acrescenta Tita.

As palavras de ambas surgem encadeadas num discurso só. Um bom preâmbulo para o que, na terça, poderá acontecer no palco do CCB.