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Séries em série

Cena de “National Treasure”

D.R.

Reinaldo Serrano

Precavendo desde já o outono, aqui se sugere que o verão se despeça com muito do que bom se vai fazendo na velha Europa em matéria de ficção televisiva. Surpresas só mesmo para os que pensam que os Estados Unidos são os melhores exemplos de televisão. Três singelos exemplos provam justamente que não é assim

Numa altura em que os dias encurtam a luz e a noite conquista o espaço, lânguida na antecipação do outono, a permanência no remanso do lar volta a seduzir a passagem das horas; daí que, absorto em pensamentos de indesejável futilidade, deles rapidamente me afastei para rever e aumentar a minha lista pessoal de séries televisivas que entendo serem dignas de apreciação. Entendo, além do mais, que a partilha pode ser sinónimo de descoberta, de desafio e de risco naturalmente associado à subjetividade das sugestões.

E, no entanto, ei-las encabeçadas por “National Treasure”, uma minissérie dramática e multipremiada com a chancela do britânico Channel 4. Estreada em 2016, o conceito subjacente à história que atravessa os quatro episódios não é propriamente novo, mas a credibilidade da produção aliada ao soberbo desempenho do elenco tornam “National Treasure” um forte produto televisivo. É ele que nos narra a via dolorosa de um prestigiado comediante com uma longa e sólida carreira, profunda e inesperadamente abalada quando sobre ele emerge uma acusação de violação há muito tempo ocorrida. O homem nega em absoluto qualquer envolvimento com alguém cuja identidade nem sequer recorda. E entretanto novas acusações vão surgindo... Escusado será dizer que o seu universo familiar, profissional e pessoal se desboroa em latitudes e longitudes de uma erosão colada ao estigma que passa a experimentar.

O desempenho do grande Robbie Coltrane (ele próprio um conceituado comediante no Reino Unido e o “Hagrid” de Harry Potter), bem secundado por Julie Walters e um irresistível Tim McCinnerny fazem de “National Treasure” uma série que não deve passar em claro no apreço dos espectadores que apreciam um bom drama com a tradicional qualidade britânica.

Islandesa é a série que a seguir se sugere; chama-se “Trapped” e tem o melhor que o “noir” da Islândia tem para oferecer. Aceitamos de bom grado a oferta e com ela mergulhamos na atmosfera claustrofóbica de uma localidade que enfrenta um crime intrincado e pouco ortodoxo, ao mesmo tempo que sobre ela se vai abatendo o capricho da natureza. Sublinhe-se que esta foi a primeira série islandesa com honras de aquisição por parte da seletiva BBC, tendo-se rapidamente tornado num êxito de público e de crítica.

Para além do assombro das paisagens e da sensibilidade da realização em captá-las, para além de personagens credíveis e carismáticas, o sucesso de “Trapped” é acentuado pela extraordinária música do justamente celebrado Jóhann Jóhannsson (acho que é assim que se escreve), compositor islandês que assinou, entre outras, as partituras de “Arrival” e “A Teoria de Tudo”, com a qual recebeu o Globo de Ouro de Melhor Banda Sonora.

O argumento de “Trapped”, que se estende ao longo de 10 episódios, tem tudo para agradar aos amantes do policial nórdico, aos apreciadores da intriga ao estilo de Agatha Christie, aos que vibraram com “Fargo” e aos que procuram algum “descanso” das narrativas mais previsíveis de séries norte-americanas sem fulgor e com fórmulas programáticas que pouco ou nada evoluem. Ou seja, o oposto desta obra exportada da Islândia.

E porque não terminar na República Checa? Afinal de contas, um périplo é um périplo e o objetivo (ainda que modesto) é dar a conhecer paragens alternativas em matéria de ficção televisiva. E assim chegamos a uma pequena localidade checa, tão pequena que a vizinhança se conhece toda e onde nada acontece até ao dia em que uma rapariga desaparece misteriosamente. Sucede que a rapariga desaparecida é filha da presidente do pequeno município e eis que à intriga policial vem juntar-se a intriga política. A comunidade é pequena, dependente da exploração de uma mina de carvão, e às tensões laborais juntam-se os nervos à flor da pele do conflito de gerações e de costumes, a par dos ideais de cada um dos residentes, oscilantes entre a tradição e a modernidade.

Até aqui nada de muito novo, mas a narrativa, sólida e credível, o clima de tensão permanente e um desempenho surpreendentemente eficaz por parte do elenco (e não estou a ser paternalista, esclareça-se) erguem um objeto facilmente atrativo e convincente aos olhos dos espectadores pouco habituados a televisão oriunda dos países do leste da Europa.

Em boa verdade, “Pustina”, adquirida pela HBO europeia e que, por esse motivo, recebeu o nome mais internacional de “Wasteland”, é uma série surpreendente e mais que cumpridora no domínio da ficção de entretenimento, bem patente no visionamento dos seus oito episódios produzidos e exibidos no ano passado.

Passadas que ficam as três sugestões de outras tantas geografias, pena é que entre nelas não mereça – por enquanto - figurar uma obra lusitana. Certo é que Portugal tem dado passos suaves mas dignos no domínio da ficção televisiva, mas basta o visionamento dos exemplos apresentados para perceber que o país tem ainda muito caminho a percorrer para chegar a mais ilustres paragens. Uma pena mas a realidade é, às vezes... penosa.