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Festival de Veneza: O Leão de Ouro é americano

ALESSANDRO BIANCHI / REUTERS

Um triunfo que, por uma vez, põe toda a gente de acordo: Guillermo del Toro com “The Shape of Water”.

No ano em que as 'majors' voltaram a Veneza, arriscando mesmo filmes na competição, o festival respondeu-lhes da melhor maneira, laureando o que havia de melhor, sem olhar a preconceitos.

De facto, os dois filmes que a crítica e o público mais destacaram em todo o festival (“The Shape of Water” e “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”) acabaram por ter prémios importantes, o primeiro arrecadando o Leão de Ouro, o segundo o prémio para o melhor argumento, a âncora-base com que o dramaturgo Martin McDonagh firmou o filme que também realizou.

A quase experimentação formal do israelita Samuel Maoz acaba por justificar o Grande Prémio do Júri para “Foxtrot”.

Mais surpreendente é a dupla premiação de “Jusqu'à la Garde” de Xavier Legrand, um dos últimos filmes a ser apresentados no festival, história dramática onde um caso de violência familiar é filmado com imenso pudor e engenho, por vezes nos limites do subentendido. Terá sido esse engenho, uma caligrafia fílmica de quem acredita que o cinema é, sobretudo, ‘motion pictures’, imagens em movimento, que justifica o prémio de realização, já que o Leão do Futuro, dedicado a sublinhar primeiras obras, é merecidíssimo e quase óbvio.

Duas palavras sobre os prémios de interpretação. Foi bonito ver uma diva sem nada para provar em matéria de cinema (Charlotte Rampling) a ser premiada por um filme menor (“Hannah”), mas em que é sublime a sua interpretação de uma mulher que vai perdendo tudo e ficando medonhamente só - sublime, até pela coragem com que, aos 71 anos, expõe os efeitos da idade no rosto e no corpo, mostrando a fragilidade física e a deterioração de uma personagem.

E foi importante que o palestiniano Kamel El Basha - que interpreta um calmo e irredutível personagem que não tolera o racismo do seu opositor em “L’Insulte”, filme libanês - tivesse o prémio do melhor ator. O seu trabalho, num papel de uma serenidade onde a raiva não está ausente, é tanto mais notável quanto todo feito em contenção, em pequeno gestos, como quem está preso por dentro.

Eis o palmarés oficial da 74. Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica:

Leão de Ouro: “The Shape of Water” de Guillermo Del Toro (EUA)

Leão de Prata - Grande Prémio do Júri: “Foxtrot” de Samuel Maoz (Israel/Alemanha/França/Suiça)

Leão de Prata para a melhor realização: “Jusqu'à la Garde” de Xavier Legrand (França)

Taça Volpi para a melhor interpretação feminina: Charlotte Rampling em “Hannah” (Itália/Bélgica/França)

Taça Volpi para a melhor interpretação masculina: Kamel El Basha em “L’Insulte” (Líbano/França)

Melhor argumento: Martin McDonagh por “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri” (EUA/Reino Unido)

Prémio Especial do Júri: “Sweet Country” de Warwick Thornton (Austrália)

Prémio Marcello Mastroianni para um jovem ator ou atriz emergente: Charlie Plummer emLean on Pete” de Andrew Haigh (Reino Unido)

Leão do Futuro - Venezia opera prima Luigi De Laurentiis: “Jusqu'à la Garde” de Xavier Legrand (França)