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Literatura no mapa

ana baião

Com uma aplicação que pode ser usada em smartphones, o “Atlas de Paisagens Literárias de Portugal Continental” associa excertos de livros aos lugares em que decorrem. Para os investigadores, já é um útil instrumento de trabalho

No ecrã do computador pairam pins azuis sobre o mapa de Lisboa. Cliquemos em alguns deles, ao acaso. No Terreiro do Paço, uma personagem de Camilo Castelo Branco vai direita ao Cais das Colunas, onde o espera “uma lancha”, provavelmente a poucos metros do lugar onde, décadas mais tarde, o protagonista de “Uma Noite em Lisboa”, de Erich Maria Remarque, contempla um navio fundeado no Tejo: “A alguma distância do cais, iluminava-o um clarão vivíssimo.” No Rossio, deambulam figuras de Aquilino Ribeiro (arrancadas às páginas de “Lápides Partidas”); junto à Basílica da Estrela, fazem-se ouvir os sinos na escrita de Fialho de Almeida; pelas ruas de Campo de Ourique ecoam histórias de José Cardoso Pires, Germano Almeida, Antonio Tabucchi, Augusto Abelaira ou Filomena Marona Beja; enquanto mais adiante, na janela de texto que se abre sobre a Tapada da Ajuda, as referências à “Crónica dos Bons Malandros”, de Mário Zambujal, coexistem com um parágrafo de Ramalho Ortigão sobre o observatório, “pequeno edifício redondo” de onde se avista, ao longe, “como sentinelas da cidade morta, os ciprestes imóveis dos Prazeres”.

Se fizermos zoom out, apercebemo-nos de que os pins azuis não pairam só sobre Lisboa, mas sobre o país quase todo. Na aplicação do “Atlas de Paisagens Literárias de Portugal Continental” há cerca de sete mil excertos, retirados de mais de 350 obras, de 170 autores (portugueses e estrangeiros), facilmente consultáveis na plataforma digital do projeto LITESCAPE.PT, resultado de uma parceria entre duas entidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (o Instituto de Estudos de Literatura e Tradição e o Instituto de História Contemporânea). A app pode ser instalada em smartphones com GPS, permitindo que os utilizadores busquem em cada momento, através da funcionalidade “perto de mim”, os lugares das imediações que têm registos literários introduzidos no sistema. Cada registo menciona o local correspondente ao excerto e as respetivas coordenadas de latitude e longitude (veja-se, a título de exemplo, os fragmentos que ilustram estas páginas).

Quando fala do ‘Atlas’, os olhos de Ana Isabel Queiroz, coordenadora do projeto desde a primeira hora, acendem-se. Bióloga de formação, nunca abdicou do seu interesse apaixonado pela literatura, e recua no tempo para explicar a génese deste repositório de informação que se foi agigantando com o passar dos anos. Após o nascimento do segundo filho, o mergulho no livro “O Romance da Raposa”, de Aquilino Ribeiro, fez-lhe ver a presença fortíssima da natureza na obra do escritor beirão. “Achei que os livros dele mereciam ser estudados com o olhar de um biólogo, e não de um literato.” O resultado foi uma tese de doutoramento em Arquitetura Paisagística, parte da qual acabou por ser editada pela Esfera do Caos, em 2009, com o título “A Paisagem de Terras do Demo”. Ou seja, um estudo da interação do homem com o meio ambiente num território — balizado pelas serras da Nave e da Lapa — que é simultaneamente geográfico e literário, porque emerge de um mundo ficcional.

Um dos objetivos de Ana Isabel, na sua tese, era comparar a representação das paisagens, no espaço e no tempo da obra de Aquilino, com o que elas são agora. Para isso, usou métodos quantitativos e sistemas de informação geográfica. Foi então que lhe ocorreu a ideia de alargar o mapeamento das paisagens literárias ao resto do país. “Achei que a valorização do território através da literatura tem um potencial tão grande que fazia todo o sentido expandir, ao máximo, a recolha de dados sobre o modo como os escritores representam a paisagem por palavras.” Surgiu assim a ideia de reunir um vasto “corpo literário”, cobrindo um arco temporal que vai do século XIX até aos dias de hoje. E porquê o século XIX? “Porque antes do Romantismo não encontramos muitas descrições do meio envolvente. É a partir dos escritores românticos que se começa a valorizar a paisagem.”

Coordenadora do ‘Atlas’, Ana Isabel Queiroz (à direita) mostra a Helena Simões, bolseira 
do projeto, alguns 
dos excertos literários a corrigir nos próximos meses

Coordenadora do ‘Atlas’, Ana Isabel Queiroz (à direita) mostra a Helena Simões, bolseira 
do projeto, alguns 
dos excertos literários a corrigir nos próximos meses

nuno botelho

Consciente da dimensão hercúlea de um trabalho desta natureza, Ana Isabel Queiroz soube desde logo que o projeto só avançaria se assentasse num esforço “coletivo e cooperativo”. Constituiu-se então, em 2010, uma equipa multidisciplinar, com pessoas de formações diversas, que foram alimentando a base de dados com excertos recolhidos em função dos seus interesses pessoais. “Uma pessoa introduzia no sistema citações relativas às paisagens alentejanas, outra escolhia paisagens de Trás-os-Montes, outra fragmentos de textos sobre vindimas, outra ainda os lugares essenciais da obra do autor que andava a estudar.” E assim se foi acumulando material, inicialmente numa base de voluntariado, depois aproveitando pequenos financiamentos que permitiram a contratação pontual de bolseiros.

A ideia, porém, é que o processo de crescimento do ‘Atlas’ seja aberto à comunidade. Quem tenha tempo e vontade, pode contactar por e-mail a coordenadora e oferecer os seus préstimos. Caso seja aceite, basta depois instalar um programa no computador do voluntário, com acesso direto à base de dados, onde introduzirá diretamente os seus contributos, sujeitos a validação dos responsáveis. Na fase inicial do projeto, estes contributos eram angariados essencialmente numa comunidade de leitores, que se reunia todos os meses na livraria Fabula Urbis, perto da Sé de Lisboa. Esses encontros terminaram em 2014, coincidindo com uma fase de abrandamento radical do ‘Atlas’. “Tal como os outros investigadores, eu faço este trabalho em paralelo com a minha carreira académica. Acontece que, nessa altura, obtive financiamento para um estudo sobre a história das pragas agrícolas no sul da Europa e passei a dedicar muito menos tempo ao ‘Atlas’.” Foi também em 2014 que aconteceram os últimos uploads, relativos a textos sobre fado, na sequência de um trabalho encomendado pela EGEAC, a empresa de gestão e animação cultural da Câmara Municipal de Lisboa.

Após três anos de relativo pousio, o projeto está a ganhar novo ímpeto, garante Ana Isabel Queiroz. Um financiamento recente da FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) permitiu contratar uma bolseira, que vai ficar pelo menos seis meses a trabalhar exclusivamente para o ‘Atlas’. “De início, o foco estará na correção de erros, na atualização ortográfica, e no enriquecimento de registos que já existem, mas estão incompletos. Depois, aos poucos, recomeçaremos a introduzir mais excertos.” Se entretanto houver voluntários que se queiram juntar à equipa, serão muito bem-vindos. “Temos consciência da dimensão quase infinita deste trabalho. Porque todos os meses são publicados novos livros de ficção que vêm aumentar o número das paisagens literárias portuguesas. Ou seja, este projeto teve um início, mas nunca terá um fim.”

Responsável pela base de dados, Daniel Alves acredita que o sistema informático que sustenta o ‘Atlas’ tem margem de progressão, no sentido de tornar mais eficiente a interação com os “leitores” e a possibilidade de incluir outros materiais, como fotografias, vídeos ou ficheiros de som. Enquanto investigador do Instituto de História Contemporânea, este projeto interessou-lhe porque a literatura sempre foi vista como uma fonte histórica problemática. “Geralmente, o historiador procura que as fontes lhe deem uma aproximação ao real verificável. Mas, ao trabalhar com textos literários, encontrei uma riqueza extraordinária, com descrições vivíssimas dos sentimentos da época, das conversas às incidências do quotidiano, que muitas vezes escapam às fontes mais circunspectas e burocráticas, normalmente aquelas a que recorrem os historiadores.”

A partir dos dados reunidos no ‘Atlas’, Daniel Alves publicou, com Ana Isabel Queiroz, um artigo na revista “Social Science History” sobre a evolução das representações literárias do espaço urbano de Lisboa, de 1852 a 2009, concluindo que existe um desfasamento de algumas décadas entre as mudanças na paisagem da cidade e as referências a essas mudanças nos romances. “As novas áreas demoram a aparecer porque não têm logo vivências sociais e culturais suficientemente fortes para que os escritores as incorporem nas suas histórias.” A coautora do artigo sublinha a importância do ‘Atlas’ enquanto instrumento de investigação: “Já foram publicados vários papers, com temas que vão da presença do lobo na literatura portuguesa a uma leitura espacial do 25 de Abril, através dos relatos romanescos do movimento revolucionário. E muitos mais se poderão fazer à medida que o projeto se for ampliando.”

O primeiro dos 7000 excertos a ser registado, lembra a coordenadora, foi uma cena do livro “A Capital!”, de Eça de Queirós, em que Artur Corvelo, “um rapaz magro, de olhos grandes e melancólicos”, apanha o comboio na estação de Ovar. Muitas páginas depois, aparecerá junto ao Cais das Colunas, com ideias suicidas, goradas pelo facto de a água lhe dar pelos joelhos. Essa passagem é uma das que serão entregues, em envelope fechado, no dia 24 de novembro, Dia Nacional da Cultura Científica, a estudantes da Escola António Arroio, desafiados a criar imagens para algumas das paisagens literárias do Terreiro do Paço incluídas no ‘Atlas’ (entre elas, talvez, as já citadas de Camilo e Remarque). “É o nosso regresso às ações de divulgação”, diz Ana Isabel Queiroz. “Mais um sinal de que o projeto está, felizmente, vivo e outra vez em marcha.”

Excertos literários

Lisboa

NUNO FOX

Latitude: 38.716674
Longitude: -9.148352
Local: Praça do Príncipe Real

“Deixou de chover, o céu aclarou, pode Ricardo Reis, sem risco de molha incómoda, dar um passeio antes do almoço. Para baixo não vai, que a cheia ainda não se retirou completamente do Cais do Sodré, as pedras estão cobertas de lodo fétido, o que a corrente do rio levantou da vasa funda e viscosa, se o tempo se conservar assim virão os homens da limpeza com as agulhetas, a água sujou, a água levará, bendita seja a água.”

José Saramago, “O Ano da Morte 
de Ricardo Reis”

LAGOS

josé caria

Latitude: 37.102788
Longitude: -8.673027

“Lagos, o deslumbramento da baía, e sigo logo de carrinha pela estrada branca, entre amendoeiras e figueiras derreadas. Andam mulheres com grandes chapeletas na cabeça, a apanhar a amêndoa varejada. Às figueiras chega-se com a mão. Há algumas que deitam braços, mergulham-nos na terra, criam novas raízes e tornam a puxar outra figueira. Há-as aninhadas, com um metro de altura e uma roda enorme. Há-as muito velhas, retorcidas, com os ramos em novelo.”

Raul Brandão, “Os Pescadores”

ÉVORA

antónio pedro ferreira

Latitude: 38.571075
Longitude: -7.909362
Local: Praça do Giraldo

“Ao crepúsculo a cidade é maravilhosa de dramático, porque as linhas banais dos prédios perdem-se, as dimensões redobram, as perspetivas cavam-se, e é o momento em que os bairros, purgados pela sombra, do modernismo pífio que os emplastra, readquirem o burel medieval para as frontarias, agigantam o lobrego das suas escadinholas, passagens e gargantas, e enfim resumem num agregado de trágicas arestas, o que devera ser há quatro séculos uma grande povoação peninsular.”

Fialho de Almeida, “Estâncias de Arte 
e de Saudade”


VILA NOVA DE GAIA

rui duarte silva

Latitude: 41.123849
Longitude: -8.611736

“Nem a baía de Guanabara, nem Nova Iorque vista de avião ao anoitecer, nenhum Paris, nenhuma Roma, a Amazónia, as Pirâmides, o deserto, nada disso que viria depois e é grandioso, me deixou uma impressão tão viva e duradoura como a da paisagem que se avistava das janelas da casa em que nasci.”

J. Rentes de Carvalho, “Ernestina”