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A estreia mundial do filme mais idiota do ano

d.r.

Festival de Veneza, dia 7: “Mãe!”, de Darren Aronofsky, prova de que nem só de bom cinema se faz um festival

Jorge Leitão Ramos

Jorge Leitão Ramos

em Veneza

Jornalista

De manhã, na projeção para a imprensa, teve a maior vaia de Veneza/2017 até ao momento - e é difícil que seja superada. Na Sala Grande, na sessão que marca a estreia mundial de “Mãe!” e que começou sensivelmente pelas 18h desta terça-feira, não sei como será recebido. O certo é que o muito aguardado filme de Aronofsky, até pela profusão de grandes atores que traz dentro (Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer) - razão que terá ajudado à sua presença no festival - e por se tratar do primeiro projeto pessoal do realizador depois do estrondoso fracasso de “Noé”, em 2014, deu um monumento de histeria.

No princípio há uma casa no meio de um vasto espaço pastoral - nem estrada para lá se vislumbra - que, devastada por um incêndio, foi reconstruída pelas mãos de uma mulher. A casa é o lar antigo do marido, um poeta com bloqueio de escrita, ali vivem os dois numa solidão que, desde o início do filme, nunca é de paz, é de angústia. E há qualquer coisa que ela sente a pulsar nas paredes, há um medo vago.

Eis que, uma noite, bate à porta um homem que se diz médico e que o marido, estranhamente, acolhe. Depois chega a mulher, logo dois filhos - e a forma como aquela gente se instala e vai tomando posse do lugar, vai criando na protagonista (e em nós, com ela) uma inquietude que cedo se transforma em irritação.

Ficções de medo, com estranhos em casa e até em casas que escorriam sangue fazem parte da memória do cinema e da nossa. Não faltam as parábolas onde se delira o processo de criação artística, embora, neste particular, não lembre nenhuma estimável. Ficções em que as perturbações comportamentais de uma gravidez exacerbam fantasmas são conhecidas e, em alguns casos, excelente cinema - veja-se “A Semente do Diabo”, de Polanski, para não irmos mais longe.

O que irrita, desde muito cedo, no trabalho de Aronofsky é que todos os truques, todos os meios, todas as referências, todos os golpes baixos, todas as pistas, todas as piscadelas de olho, todas as cambalhotas, todos os coelhos tirados da cartola se vão sucedendo. E há sons estridentes e volte-faces de argumento, fendas que sangram e fetos na sanita - e, sobretudo, a ideia peregrina de que é na acumulação de efeitos e no excesso desenfreado de eventos que se mostra a inteligência das metáforas.

Neste filme há multidões de sequazes do poeta em delírio, há uma guerra feroz, há um bebé que se devora, há um coração que se arranca do peito, há saque e destruição, há polícias a bater em pessoas, há execuções sumárias, há gente contaminada que é posta entre grades, há tudo o que quiserem - e tudo dentro daquela casa a que não há estrada que chegue. Só não há senso, a prosápia artística é tão inflada que o que o ecrã nos devolve é a imagem grotesca de um homem completamente cheio de si próprio: Darren Aronofsky.

O filme estreia nas salas portuguesas já no dia 21