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Eu vi o cinema do futuro

A realidade virtual tem porta grande aberta em Veneza

Jorge Leitão Ramos

Jorge Leitão Ramos

em Veneza

Jornalista

No ano passado, o Festival de Veneza fez-nos entrar no admirável mundo novo da realidade virtual. Numa sala de um dos pisos superiores do edifício do velho casino do Lido, fomos muitos os que pusemos as máscaras e os auscultadores para experimentar imagens e sons num espaço esférico. O espectador olha para onde calha, roda fisicamente o corpo como lhe aprouver - como na realidade real, perdoem-me o pleonasmo.

No ano passado foi uma curiosidade, como um gadget de feira num evento onde as coisas sérias tinham outra substância. Em 2017, a 74ª Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica dá um passo significativo. Cria uma secção nova no festival - Venice Virtual Reality -, num espaço específico - os velhos edifícios que sobram do Lazzareto Vecchio, na ilha vizinha ao Lido, reabilitados q.b. para albergar o acontecimento - e cria mesmo uma competição, dando, assim, à realidade virtual um estatuto de primeira linha na estratégia da Biennale.

No ano passado, o que vi da realidade virtual deixou-me imensas questões, formais por assim dizer. Como criar um ponto de vista, se o espectador pode olhar para onde quer? O que é feito da noção de plano? Como conduzir a atenção do espectador para que uma narrativa seja possível? E tanto mais...

Este ano, o que vi no Lazzareto Vecchio evoluiu anos-luz. Talvez porque, entrementes, alguns veros cineastas se tenham começado a interessar e a tentar responder aos constrangimentos e aos desafios da nova engenhoca tecnológica. Claro que os óculos-máscara e os auscultadores ainda são algo incómodos, claro que a definição da imagem ainda não atinge o que é necessário, mas começa a perceber-se que é possível uma linguagem parente próxima da linguagem cinematográfica.

d.r.

Um trabalho como os 56 minutos de “The Deserted”, de Tsai Ming-liang, é a prova cabal de um caminho para o cinema do futuro. Não é uma narrativa, tem dentro, nas palavras do realizador “doença, desolação, sonhos. Sem história, só personagens e ambientes”. Mas desinquieta tanto o imaginário do espectador que parece que são mundos o que Tsai Ming-liang lá deixou.

Talvez o título desta crónica seja um exagero, concedamos. Talvez eu não tenha visto o cinema do futuro, em Veneza, apenas o princípio de uma via de parte do cinema do futuro. Porque, ou muito me engano ou o cinema do futuro não será um cinema, mas uma constelação de imagens e sons em movimento.

Mas estou disposto a apostar singelo contra dobrado que a realidade virtual será uma das estrelas. Com uma mágoa: um filme de realidade virtual é uma experiência solitária, cada um no seu casulo. O cinema, tal como o conhecemos, na sala escura, é algo que se experimenta em coletivo - há na vibração de uma massa de gente, em uníssono, algo de insubstituível.