Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Pêpê Rapazote: “O meu universo continua a ser o mesmo”

JOSÉ CARLOS CARVALHO

O ator português integra o núcleo central da terceira temporada de “Narcos”, disponível desde sexta-feira no Netflix

Como é que se chega a uma produção como “Narcos”?
Foi como em tudo o que consegui até agora, através de um casting. O meu agente americano pediu-me uma self-tape, eu enviei-lha e depois pediram-me uma segunda gravação, para uma personagem diferente. Acabei por ser escolhido para interpretar o Chepe Santacruz de “Narcos”. Isto tudo sem estar nos Estados Unidos, porque em 2013 fiz uma experiência lá e foi uma chatice. Estive em Los Angeles durante a pilot season e ao fim de três meses de marasmo total fiquei completamente deprimido. Ainda por cima Los Angeles é uma cidade com muito poucos pontos de interesse. É tudo igual a cada quarteirão.

Foi difícil preparar-se para este papel?
Além de ganhar peso — e ganhei oito ou nove quando tinha pensado em apenas cinco —, li bastante, mesmo que na internet não haja grande coisa. Só livros escritos por gente que estava ligada ao narcotráfico e que hoje faz dinheiro com depoimentos e entrevistas. Por exemplo, o Jorge Salcedo, que era o chefe de segurança do quartel de Cali e que escreveu o livro no qual a série se baseou. Depois houve muita intuição, havia a ideia de que o Chepe Santacruz seria bigger than life, maior do que a vida.

E era mesmo?
Era ele que controlava os negócios do cartel em Nova Iorque e chegou a ter mais de duas dezenas de laboratórios na cidade. Isto aconteceu depois de a importação de éter, que é um ingrediente fundamental para a refinação da coca, ter sido banida na Colômbia. Ele encontrou aí uma oportunidade e passou a importar só a pasta, tratando do resto do processo nos EUA. Conseguiu apurar o corte da coca como ninguém. E isto nos anos 90, não estamos a falar dos anos 60 ou 70.

Sempre quis construir uma carreira internacional?
Sempre quis coisas que me desafiassem. Não é a carreira internacional por ser uma carreira internacional, mas não tinha desafios tão grandes cá como os que posso ter lá fora. Então, e como falo cinco línguas, decidi começar a trabalhar nisso. Em 2010 comecei a queimar a pestana até às quatro da manhã, mas não conhecia ninguém. Quem é que me respondia? Ninguém. Vou lá bater às portas? Ninguém me recebe. Foi um processo de ano e meio, em que tive de começar a fazer showreel, a recolher filmes daqui, filmes dali. A editá-los eu próprio. Isto é qualquer coisa que eu, extremamente impulsivo e ansioso, nunca pensei ser capaz de fazer. Ainda hoje olho para trás e digo: caramba, foi mesmo uma fé brutal. Por muito bem que corra a minha carreira lá fora, e espero que sim, hei de sempre lembrar aquilo que me levou lá. O processo demorou meses, mas acabei por encontrar este agente.

O Guy Kochlani…
Sim, e ele é o gajo que mais fé tem em mim. Não interessa ter uma agência gigante para ser o sétimo na linha de preferências. Aqui sou o primeiro. Prefiro ser o rei da mercearia do que o caixa do Continente. Tenho um agente fantástico, assertivo, agressivo, e que está sempre atento. É preciso uma inteligência prática nestas coisas, um know-how. Como é um universo muito mais complexo que o nosso — os contratos são uma coisa muito mais complicada — há toda uma série de pormenores, de pequenas coisas a ter em conta.

Ouviu muitas respostas negativas até chegar aqui?
Não houve assim tantas self-tapes. Houve algumas que foram caminhando e que depois não se proporcionaram. Como eles dizem, “They went another way”. Há muita gente a ganhar dinheiro com estes ensinamentos básicos, mas é preciso aprender a viver com o não, a não desesperar e ter autoconfiança. E no meu caso há uma coisa, é que eu tiro muito gozo das audições. Tenho uma adrenalina do caraças, estou feliz. Saio de lá e digo para mim que fiz o melhor que podia ter feito, grande casting, mas não é por isso que digo ‘este é meu’. Nunca digo, porque se calhar não gostam das minhas orelhas, das minhas narinas, das coisas mais estúpidas. E digo isto porque já o vi acontecer.

O nome ainda conta muito?
Há muito o estatuto de estrela. Depois o quantos bilhetes já se vendeu, quais as audiências dos programas em que se participou, quantos streamings foram feitos. É difícil entrar, mas depois de entrar talvez já seja mais fácil ficar. Independentemente da qualidade que tenhas, pode ser que te mantenham porque fazes bons números. Isto é tudo um bocadinho relativo, um pouco injusto, mas é o mundo real. A televisão e o cinema são indústrias e quanto maior forem mais isto conta.

Quais são as principais diferenças entre trabalhar nesta indústria em Portugal e numa produção com esta?
A principal diferença é o tempo, um tipo poder estar cinco dias a preparar duas cenas. A respirá-las, a mastigá-las, a ir para a cama a pensar nelas e acordar no dia seguinte e ir para a rua e ensaiar a fisicalidade da personagem. Experimentar é tempo ganho. É quase como ler Constantin Stanislavski, fazer a construção de uma personagem by the book, com método. Ir construindo devagarinho e experimentando, em situações reais e depois tentar transpor para um Chepe Santacruz. Como é que eu faria isto, como é que o Chepe o faria? A diferença é fazer-se uma série de televisão ou um filme com a digestão que se faz muitas vezes a ensaiar teatro. Devagarinho. E essa é a grande diferença. E o que é que isto é? É escala, é tempo e é dinheiro.

Não dá para fazer isso cá?
Não dá mesmo, mas eu gosto do exercício de cá, da televisão, que é o depressa e bem. Acaba por se fazer, até porque havemos de estar daqui a 100 anos a esmifrar ainda mais, mas claro que se vai perdendo muita coisa pelo caminho. É um bocado como a imagem de uma nave espacial a entrar na estratosfera e a começar a perder a fuselagem com a fricção no oxigénio. Chega cá um osso, só a cápsula com um paraquedas. Vamos perdendo a fuselagem, tudo. Desde que no fim chegue um ovo com uma pessoa lá dentro, tudo bem.

Depois deste papel internacional, acha que vão começar a aparecer mais propostas interessantes em Portugal?
Não faço ideia, mas não penso nisso sequer. E quando digo isto, é porque não penso mesmo. O que me levou a concentrar-me e dedicar-me na procura de um agente nos Estados Unidos é aquilo que me mantém completamente fora de foco nas oportunidades cá, a não ser todas as que eu já tinha e que continuo a ter. Claro que há pessoas que gostam de mim e nas quais posso depositar alguma esperança de que possa voltar a trabalhar. Tudo o resto, pode ou não acontecer. O meu universo continua a ser o mesmo, aquele que eu desbravo, não aquele que alguém que virá desbravar à minha procura. Não espero nada disso. E será uma boa surpresa se acontecer.

E lá fora, a participação em “Narcos” pode abrir portas a novos projetos?
Espero que sim, espero que abra portas. As pessoas podem intuir determinada coisa, mas hoje há uma forma fantástica de ler as reações do público. Atualmente, as redes sociais têm esse papel, são o melhor meio, e o mais automático. Pode ser que a partir daí se diga ‘realmente, esta personagem tem muita recetividade’.