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Festival de Veneza: a insuportável América dos anos 50

Julianne Moore e Matt Damon, em "Suburbicon"

DR

Brancos, protestantes e bons cidadãos? Um coio de malandros, nada menos, no novo filme de George Clooney

Jorge Leitão Ramos

Jorge Leitão Ramos

em Veneza

Jornalista

Era o tempo em que os filmes tinham cores muito vivas, as mulheres vestidos com saias de muita roda e, na América, se construíam aqueles empreendimentos urbanísticos com casas todas iguais, relva na frente, quintal nas traseiras, um espaço imprescindível para o carro - largo, baixo, grande, cheio de cromados - e a publicidade prometia a felicidade. Ninguém dizia que esses empreendimentos - como Suburbicon, no centro e no título do novo filme de George Clooney - eram só para brancos, porque isso, está bom de ver, era óbvio. No início de “Suburbicon” que ontem teve a sua estreia mundial no Festival de Veneza, é a descoberta de uma família negra a habitar uma dessas casas evidentemente só para brancos que põe a comunidade primeiro em alvoroço, depois em escândalo, lá mais para diante em motim racista. Mas isso é apenas pano de fundo: a vera história que está no cerne do filme passa-se na casa que está paredes meias com a que causa tanto tumulto. E aí, numa família de classe média que se diria modelar, há traições, conjuras, assassínios - toda a paleta malevolente que se queira pôr no prato.

O filme parte de um argumento antigo dos irmãos Coen e, por isso, como seria de esperar, tem aquela dose de cinismo, de sordidez, de sangue e de humor chocarreiro - negro, negro... - que conhecemos à légua, de tal modo que um crítico maledicente bem podia qualificar “Suburbicon” como um sub-“Fargo” e seguir em frente. Não o farei de ânimo leve porque o filme tem potencial de entretenimento com muita matéria de bom cinema, desde logo, o trabalho dos atores, com destaque para Julianne Moore, num duplo papel, para Matt Damon num chefe de família nada exemplar e, em particular, de Oscar Isaac num investigador de seguros que só tem duas cenas, mas são das que levamos para casa quando as luzes da sala se acendem. E há um miúdo (Noah Jupe) que viu o que não devia e acaba na mira de todos os que acham que é melhor garantir que fica em silêncio, uma das linhas de um argumento assaz ramificado que nos põe sempre à espera de ver se o realizador ousa o supremo horror, o assassinato premeditado de uma criança.

Clooney não é um cineasta de grandes arrojos, neste filme onde visa alto - há um asco visceral na representação de uma certa América profunda - mas onde a vertigem da história policiária dos Coen se sobrepõe. O resultado é que nem “Boa Noite, e Boa Sorte” nem “Fargo” - o que é uma pena, mas não é um desastre.