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A extraordinária história de amor entre uma mulher e um deus anfíbio

E ao terceiro dia do festival de Veneza chegou um filme fantástico de Guillermo del Toro

Jorge Leitão Ramos

Jorge Leitão Ramos

em Veneza

Jornalista

Ela é um mulher muda, a começar a entrar na meia-idade, empregada de limpeza num estranho laboratório científico-militar onde, a partir do momento em que lá entramos, tudo nos parece fantástica e sinistramente possível.

Ela é Sally Hawkins, delicada, determinada e etérea. O tempo é o princípio dos anos 60, quando se começou a tornar óbvio que a ‘América Great’ - que, agora, Trump tanto diz querer fazer renascer - não existia. O fundo político é a Guerra Fria em toda a sua fúria surda.

Um dia, entre medidas de segurança extremas, chega ao laboratório um enorme tanque. Algo lá dentro se agita - e não é coisa pequena. É uma criatura anfíbia, capturada no Amazonas, os nativos diziam que era um deus. A sua forma é quase humana - como a de “O Monstro da Lagoa Negra” que Jack Arnold filmou, nos anos 50.

Os cientistas e os militares afadigam-se em o estudar, entre cautelas limite, porque a criatura é perigosa. Mesmo acorrentada, pode arrancar dedos inteiros da mão de um homem - e sabe-se lá que mais - como fez ao brutal encarregado da segurança, um tipo que acredita que a América é mesmo grande e que Michael Shannon faz com aquele seu rosto ameaçador por fora e sofrido por dentro.

Chamada a limpar o sangue do lajedo, a nossa heroína começa a interessar-se pelo que estará naquele tanque onde sente agitação de águas. Deixa, à beira, uma parte da sua merenda, um ovo - e fica à espera. E a criatura emerge. O que acontece depois, por mim não se saberá, porque, mais que tudo, é preciso ver “The Shape of Water”, um filme mágico que não é uma variação sobre a temática da Bela e do Monstro, porque ele não se vai tornar num príncipe loiro e humano lá no fim da história, muito pelo contrário. É uma fábula adulta, onde o mais improvável romantismo redime uma humanidade presa a regras, divisões e princípios glaucos - esses, sim, monstruosos.

É o melhor filme de sempre deste Guillermo del Toro que muito tem desiludido, mas que merece eterna memória por causa de “O Labirinto do Fauno” - e, agora, deste que foi, até à data, o que de mais belo Veneza viu. Nas salas portuguesas só daqui a alguns meses.