Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Segurança reforçada e homens (muito) pequeninos: festival de Veneza, 2017

d.r.

Com segurança reforçada e “palco” renovado, começa mais um Festival de Veneza, o 74º. A abertura, esta quarta-feira à noite, está a cargo do realizador norte-americano Alexander Payne, com o filme “Downsizing”

Jorge Leitão Ramos

Jorge Leitão Ramos

em Veneza

Jornalista

Ontem ainda havia trabalhos a serem ultimados, cabos de eletricidade e de telecomunicações a serem passados sob as lajes da praça fronteira ao edifício onde funcionou o velho casino, coberturas removidas, mobiliário urbano a ser instalado. E, claro, as necessárias - e muito visíveis - medidas de segurança, agravadas de ano para ano.

Para além de uma presença de polícia assaz notória - nas ruas, na laguna e até no Adriático, onde agentes em motos de água patrulham sistematicamente a costa - todos os acessos à zona onde o festival acontece estão bloqueados por imponentes barreiras de cimento, disfarçadas com as cores do evento, impedindo que qualquer veículo automóvel possa entrar desgovernadamente. Tudo para que a face do espaço onde decorre a 74ª Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica tenha o ar renovado que se deseja e seja tão segura quanto possível.

De facto, a nova praça, o arranjo definitivo da sala que o ano passado foi inaugurada - um grande cubo vermelho em meio aos jardins - e obras pontuais de reabilitação do tradicional Palácio que alberga a Sala Grande onde decorrem as pompas oficiais, tudo está acertado para que, numa sábia conjugação entre a memória e o futuro, o Festival de Veneza tenha um ambiente novo. Esta quarta-feira de manhã as azáfamas já eram outras, as primeiras chegadas de vedetas ao Excelsior, os acertos com as entidades oficiais, as projeções inaugurais para a imprensa que, para fazer bem o seu trabalho, vê os filmes antes de todos os outros.

É por isso que me é possível dizer que o novo filme de Alexander Payne - “Downsizing” - é uma boa aberturas para esta septuagésima quarta edição do festival. Tudo acontece num mundo - o nosso, agora - onde cientistas noruegueses conseguiram miniaturizar pessoas, com isso abrindo a porta para resolver os problemas de sustentabilidade de um planeta superpovoado. Começam, assim, a criar-se comunidades de gente miniaturizada, em ambientes protegidos e enorme qualidade de vida.

Mas, claro, nada é perfeito, como o protagonista do filme, um tipo crédulo, um bom homem, interpretado por Matt Damon, virá a descobrir, já que os humanos não melhoram nem pioram só porque mudam de tamanho... “Downsizing” é uma comédia, uma parábola que satiriza brandamente as grandes ideias para a salvação do mundo - e só não é uma festa, porque, nela, o apocalipse parece não ser evitável.