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Esta quarta-feira há peixinhos da horta. Ou será tempura?

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A maior conferência de sempre de Estudos sobre o Japão começa esta quarta-feira em Lisboa, e bate todos os recordes de participação das 14 edições anteriores. Vêm cerca de 500 participantes do império do sol nascente, que vão finalmente provar os nossos peixinhos da horta – o prato que deu origem à tempura japonesa

Quase cinco séculos depois de os portugueses serem os primeiros ocidentais a pisar solo japonês, o site da BBC publicou um artigo intitulado “A verdade sobre a tempura japonesa”, que fez sucesso nas redes sociais. O texto foi publicado a 10 de agosto, vinte dias antes de Lisboa acolher a maior conferência de sempre sobre Estudos Japoneses, que termina no próximo sábado. Do Japão vêm quase 500 dos 1225 académicos inscritos. Mas o número de pessoas que está na capital portuguesa é maior, já que muitos académicos viajam acompanhados.

Um prato de tempura japonesa, inspirada nos peixinhos da horta dos portugueses

Um prato de tempura japonesa, inspirada nos peixinhos da horta dos portugueses

Na conferência deste ano, há a destacar a participação feminina: “Há um grande número de mulheres inscritas para apresentar comunicações”, diz ao Expresso a investigadora Alexandra Curvelo, do CHAM − Centro de Humanidades: “E essas mulheres trazem filhos pequenos porque quando se inscreveram pediram serviços de baby-sitting”, acrescenta esta docente da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que teve a ideia de apresentar a candidatura de Lisboa para palco da 15ª Conferência de Estudos Japoneses da mais importante associação académica sobre este tema.

A candidatura foi apresentada por Ana Fernandes Pinto em 2014, na anterior conferência da Associação Europeia sobre Estudos Japoneses, que se realizou em Lubljana [capital da Eslovénia]. De então para cá Alexandra e Ana começaram a preparar o congresso trianual da associação a que pertencem, sem nunca esperarem que Lisboa batesse o recorde de participação das 14 conferências anteriores.

As relações históricas entre Portugal e o Japão devem ter contribuído mais para este aumento de académicos participantes do que o facto de Lisboa ser um destino turístico na moda, que até fez a BBC vir entrevistar uns ‘chefs” portugueses, e descobrir que a tempura japonesa não é mais do que uma sequela dos peixinhos da horta nacionais.

E lá deixámos as palavras botan e pan

No longínquo ano de 1543, altura em que os primeiros aventureiros lusos desembarcaram no Japão a bordo de navios asiáticos, o Japão vivia uma guerra civil; neste contexto, é útil recordar que foram os portugueses quem apresentou a espingarda e a pólvora aos japoneses.

O aspeto mais importante desse legado é que “os meninos japoneses que frequentam as escolas primárias, aprendem que foram os portugueses que abriram o Japão ao mundo”, diz o professor João Paulo Oliveira e Costa, do CHAM. O impacto foi tão profundo que o publicista japonês Ken Takeuchi afirmou que a chegada dos portugueses ao Japão “foi o maior acontecimento desde que a cultura chinesa foi introduzida no Japão, no século VI” [Takeuchi é citado pelo embaixador Martins Janeira no livro “O Impacto Português Sobre a Civilização Japonesa”].

Para compreender a real dimensão desse encontro temos de tentar perceber como era – no século XVI – o dia a dia de um país/arquipélago que vivia uma interminável guerra civil. A chegada dos portugueses abriu-lhes uma janela para o mundo novo e apresentou-lhes "uma cultura que tinha pouco ou nada de comum com a civilização japonesa ou chinesa, em suma uma humanidade diferente, capaz de feitos daquela varonil coragem que os nipónicos sempre admiraram e com um sentimento da honra que se assemelhava em muitos aspetos ao sentimento japonês da honra", relata Martins Janeira –um dos portugueses que mais tempo viveu no Japão, no seu livro.

Membros da primeira embaixada japonesa à Europa. Os jovens emissários saíram de Nagasaki em fevereiro de 1582 e visitaram Portugal em agosto de 1584

Membros da primeira embaixada japonesa à Europa. Os jovens emissários saíram de Nagasaki em fevereiro de 1582 e visitaram Portugal em agosto de 1584

d.r.

A relação entre estes dois povos foi essencialmente comercial, mas houve uma troca de hábitos e costumes. Este cruzamento de culturas materializou-se na arte namban – que tem um dos seus expoentes nos biombos e na história em imagens que nos transmitem –, e no vestuário, já queos japoneses adotaram o gibão e os chapéus de abas largas portugueses, enquanto os ocidentais passaram a vestir ‘bombachas’ – calças largas que funcionavam como proteção antimosquito (como se vê nas representaçoes namban).

O papel dos jesuítas

Sendo este o ano em que estreou na Europa e no Japão o filme “Silêncio”, do realizador Martin Scorsese, que conta a história da missão cristã no Japão – e da apostasia do jesuíta português Cristóvão Ferreira – há que recordar o papel dos missionários jesuítas, que chegaram ao Japão em 1549 e, no final do século XVI, já tinham construído cerca de 200 igrejas, seminários e colégios, tendo também sido responsáveis pela introdução da medicina ocidental e das ciências da navegação.

Os rituais do catolocismo também deixariam a sua marca na culinária japonesa: “A palavra [e o prato] tempura vem do termo têmporas, que mais não eram do que os dias de jejum religioso, que interditavam os católicos de comer carne”, diz Alexandra Curvelo. Nos dias de jejum, os portugueses – comerciantes ou missionários – tinham de cozinhar vegetais e peixe para se alimentarem. A fritura desses vegetais e de algum peixe depois de embebido em polme (técnica que passa os alimentos por ovo batido e depois por farinha) acabaria por ser adotada pelos japoneses, dando origem a um dos mais famosos pratos do país.

As relações luso-nipónicas duraram até 1639, altura em que os portugueses foram expulsos e decretada a proibição da entrada dos nossos barcos no país. O Japão voltou a ficar (quase) fechado ao mundo por mais 200 anos, restabelecendo relações em 1853 com os americanos. Em 1860, o País do Sol Nascente assinou um Tratado de Paz com Portugal.

Coimbra, na rota dos amantes do Japão

Bernardo de Kagoshima, o primeiro japonês sobre quem há registos de “ter visitado a Europa, morreu em Coimbra em 1557 e ainda hoje há japoneses que vão procurar a sepultura dele na Sé Nova e nos edifícios circundantes, mas ninguém sabe onde é que terá sido enterrado”, diz Alexandra Curvelo.

A primeira embaixada chegaria três décadas depois, em agosto de 1584, quatro anos após Portugal ter um regime de monarquia dual. O então vice-rei de Portugal, Cardeal Arquiduque Alberto de Áustria − que era sobrinho de Filipe II de Espanha (I de Portugal) − recebeu quatro nobres japoneses no Paço Real de Sintra, numa visita integrada na Missão “Tenshō” da Terra do Sol Nascente para a Europa.

Estes representantes da primeira embaixada japonesa que os senhores daimyōs de Kyūshū e o supervisor da ação missionária jesuíta no Império português, Alessandro Valignano [sucessor de Francisco Xavier], enviaram à Europa incluía quatro jovens japoneses oriundos de famílias nobres de Kyushu e alunos do seminário jesuíta de Arima: Mancio Ito, Miguel Chijiwa, Martinho Hara e Julião Nakaura.

Todos eles tinham, na altura, entre treze e catorze anos, e a missão de apresentar o Japão às cortes europeias e ao Papa.

Quatrocentos anos depois, no final do século XX, o investigador da AESE Business School [de Lisboa] José Miguel Pinto dos Santos rumou ao Japão: “Encontrei um país onde é fácil viver, tudo está muito organizado” e funciona, diz ao Expresso. “A sociedade japonesa é extremamente hierárquica, e há uma pertença grupal dos indivíduos: uma pessoa é conhecida por ser o estudante da escola X, o residente do bairro Y, e o trabalhador da empresa Z. Os níveis de linguagem são diferentes consoante o interlocutor. Por exemplo, a palavra utilizada para designar a ação de comer é diferente consoante se diga ‘o Imperador está a comer’, ou ‘eu estou a comer’ ”. Mesmo que o prato a comer seja tempura...