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Os amantes evasivos

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Um thriller indie canadiano que promete bastante mais do que oferece

Nos últimos anos, surgiu um novo subtipo de filme indie americano. Trata-se do thriller-à-moda-de-Sundance, espécie de template caracterizado por uma série de marcas (décors agrestes, figuras marginais…) que vão sendo revisitadas de forma quase indistinta a cada nova variação. Por este modelo se guia o artigo indie canadiano que esta semana relevamos: “Mean Dreams”, a segunda longa de Nathan Morlando, que se destaca pelo cuidado formal e narrativo que deposita na execução do seu exercício.

Ele começa com uma sequência de travellings, que vão vagueando pelos campos de trigo de uma pobre comunidade rural do Ontário. Além de um espaço, esta abertura define ainda o mood que perpassará o filme, veiculado então pelo contraste entre o tom espectral da música e o tom melancólico da foto, que banha os planos numa luz coalhada e em cores outonais. É contra este fundo que se recorta o protagonista: um miúdo de quinze anos que trabalha no rancho da família, e que, logo no início, realiza um gesto bíblico, libertando uma serpente que aprisionara num cobertor. Em breve encontraremos, neste simulacro do Jardim do Éden pintado a dourado, a Eva de serviço. Quem é ela? Uma miúda da mesma idade, que acabou de se instalar na zona com o pai, um polícia viúvo cujas falinhas mansas parecem trazer água no bico (lunaticamente interpretado pelo entretanto falecido Bill Paxton). Entre os adolescentes, florescerá um namoro casto, que Morlando descreve num registo idílico, perturbado apenas pela gravitas do décor e pela inquietação da rapariga quando em presença do pai. Perceberemos o que a motiva, na cena em que o rapaz confronta fisicamente o patriarca, para impedir que — em estado de embriaguez — ele bata na filha (levará o miúdo por tabela, partindo com um aviso para nunca mais aparecer por ali).

Passamos assim do sonho ao pesadelo, e, para traduzir essa mudança, o filme dirá adeus aos tons outonais, mergulhando de cabeça na noite. À luz da noite se fará, aliás, o regresso ao local do crime do protagonista, que, ao dar de caras com o seu agressor, se refugiará à pressa na caixa da sua carrinha pick up.

Segue-se uma viagem clandestina ao inferno, que terminará com uma revelação: a de que, mais do que um homem violento, o patriarca é um homicida — ouvi-lo-emos a executar, fora de campo, os membros de um gang a quem prometera vender droga, para ficar com a mercadoria e o dinheiro. Petrificado pelo gesto, o rapaz terá ainda discernimento suficiente para se evadir da carrinha, levando consigo uma mala cheia de dólares, com a qual aliciará a namorada a fugir com ele.

O thriller que daqui nasce está longe de cumprir as promessas do filme, recriando de modo esteticamente neutro e narrativamente derivativo uma história mil vezes contada: a da fuga sem destino de dois jovens amantes. Não esperávamos, é claro, que “Mean Dreams” chegasse à altura dos “Filhos da Noite”, de Nicholas Ray, mas, dito isto, espanta-nos a sua incapacidade de aprofundar as personagens. De facto, na segunda parte do filme, os miúdos nunca serão mais do que meros suportes físicos dos atos de sobrevivência que vão realizando (assaltar uma farmácia para obter remédios…), ficando nós assim perante duas figuras estranhamente isentas de interioridade. É pena