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Stéphane Brizé: “Faço filmes que olham a ficção de uma forma documental”

Pode-se filmar ficção sem que a câmara esteja no melhor dos lugares mas no lugar possível? É isto que sustenta Stéphane Brizé, que esta semana estreia o belíssimo “A Vida de uma Mulher”

Jorge Leitão Ramos

Jorge Leitão Ramos

em Veneza

Jornalista

Michael Buckner/Getty Images

Um ano depois do sucesso de “A Lei do Mercado”, Stéphane Brizé volta com um novo filme, que foi buscar a um conhecido romance de Guy de Maupassant que também fala de vida e de dinheiro mas num contexto bem diferente. “A Lei do Mercado” era sobre um homem desempregado e sobre as contingências do capitalismo contemporâneo em França. “A Vida de uma Mulher” é uma história novecentista de uma rica herdeira que nunca se entendeu bem com a realidade, o que a leva à catástrofe. Encontrei-me com Brizé durante o último Festival de Veneza, onde o filme teve estreia mundial e onde viria a ganhar o prémio da FIPRESCI.

O que me impressiona mais em “A Vida de uma Mulher” é o modo sistemático, quase obsessivo, como define o ‘quadro’ em cada cena, sem mostrar realmente o que acontece, mas mostrando os rostos — e sempre de perfil. Nunca vemos os olhos...
...da protagonista, é verdade. Faço isto porque acredito de uma maneira quase obsessiva no imaginário de cada espectador. Para provocar o imaginário de cada espectador não é preciso mostrar-lhe tudo. Uma mulher que não está completamente nua é muitas vezes mais excitante do que se estivesse completamente nua. O que imaginamos do objeto do desejo é fantasmático...

Excita a imaginação...
Exato. O que para mim é mais importante na narração é o espaço que deixamos ao espectador para que ele projete a sua própria história. O meu trabalho não é deixá-lo num lugar de espectador, o meu trabalho é conduzi-lo a uma experiência íntima — é nisso que penso. Não quero explicar a psicologia de cada personagem, apesar de a conhecer. E, quando uma emoção acontece, não quero que aconteça só pelo que se passa no ecrã, quero que nasça da experiência do espectador. O mesmo se passa no modo de filmar os personagens. Não quero mostrar tudo, não quero ser demasiado explicativo. Mostro apenas o que é necessário para que o espectador se agarre a algo de tangível. E há ainda um outro aspeto, um princípio que, provavelmente, vai parecer-lhe espantoso, porque estamos a falar de um plateau de cinema: não quero estar num lugar que me dê jeito, não quero que a minha câmara esteja num lugar que me sirva. Quero que ela se coloque num sítio onde possa estar em função da maneira como as coisas se passam. É uma atitude de documentarista. Há a ficção e o discurso da ficção, claro, mas a forma de a apreender é documental. Defino onde a vida vai acontecer e só depois o lugar em que a minha câmara consegue estar. É só isto que me interessa. De facto, eu faço enquadramentos um pouco diferentes dos outros filmes, mas é um processo coerente.

Depois de “A Lei do Mercado”, o que o levou a virar-se agora para algo tão diferente, para o século XIX, para um filme de época?
Volto a frisar a minha ideia de fazer filmes que olham a ficção de uma forma documental. Em geral, as pessoas falam em estilo documental quando há uma câmara ao ombro, como nas reportagens da televisão. É isso que está gravado no imaginário coletivo. Em “A Lei do Mercado”, a dimensão documental não vinha disso, estava inscrita na dramaturgia. Era um filme que funcionava por empilhamento. Ao seguir o personagem, ele torna-se a intriga, torna-se a história. Eu empilho coisas, como num documentário quando seguimos alguém. “A Vida de uma Mulher” processa-se exatamente da mesma forma. Tinha, é claro, os constrangimentos da história de Maupassant. Mas conto-a da forma que me interessa, respeitando os acontecimentos dramatúrgicos do romance — e não sigo o ponto de vista do livro, sigo, completa e totalmente, o ponto de vista de Jeanne. Em termos de mise en scène, estranhamente, os filmes não estão tão longe um do outro como pode parecer. Digo-lhe mesmo que, sem algumas respostas que “A Lei do Mercado” me deu, eu não teria podido resolver as questões que “A Vida de uma Mulher” me colocou. Algumas das chaves da mise en scène deste filme foram-me deixadas pelo filme anterior.

O que é que o atraiu nesta personagem? Jeanne parece-me alguém que nunca cresce, que nunca se torna adulta deveras, que mantém um certo carácter infantil...
Foi isso que me atraiu. Quando li o livro, há 20 anos, não me dei logo conta disso, mas com as releituras que fui fazendo nestes 20 anos verifiquei que o que nela me tocava profundamente era ser um lugar onde podia projetar algo da minha própria vida, essa entrada na idade adulta com um olhar muito imaturo, como acabou de dizer. E esse olhar imaturo ela não sabe, ou não consegue, ou não quer fazê-lo evoluir e fica agarrada a isso, desesperadamente, toda a vida. O que é extraordinário, emocional e filosoficamente, é que ao permanecer pura, ao manter um olhar límpido e belo, cria a sua própria tragédia. Acho fascinante e comovente este paradoxo absoluto do desastre e da beleza. A ideia do paraíso perdido é algo que todos temos dentro de nós, a ideia — errada, evidentemente — que houve um momento em que tudo era simples e belo. Fazer o luto dessa ideia é algo necessário e melancólico para nos tornarmos adultos. E dá para filmes e livros interessantes.

“A Lei do Mercado” e “A Vida de uma Mulher” estão separados por quase dois séculos, mas uma coisa os une — a importância decisiva do dinheiro. Gostava de saber qual é a sua relação com o dinheiro.
Adoro dinheiro [risos]. Essa ligação existe, claro, mas não foi consciente — e o facto de existir é algo sobre que tenho de me questionar. Não tinha pensado nisso, é ao falar com outras pessoas que descubro coisas sobre mim e me interrogo. O dinheiro, em geral, é um objeto de transição. A primeira vez que o dinheiro é referido no filme é quando os pais falam de Julien e dizem “ele quer casar contigo, mas ele é mais pobre do que tu”. No livro, Julien é apresentado como um puro oportunista, mas o meu olhar sobre ele é bastante menos duro, porque é alguém que tem necessidade de uma reparação social. Socialmente ferido porque o pai perdeu toda a fortuna ao jogo, quando encontra aquela jovenzinha rica, a sua relação com o mundo pode mudar. Ele não tem consciência disso, é natural que o seu coração se ponha a bater. Acha que é amor, mas ‘amor’ é uma palavra um bocado vaga onde podemos pôr tantas coisas — e muitas delas nem sempre louváveis. Depois de casar com Jeanne, como o dinheiro aparece, ele desinteressa-se e vai procurar noutros lugares, na época considerava-se, de alguma maneira, que havia o direito de abusar das serviçais. O dinheiro serviu para algo de bom — a reparação social de Julien — e para algo de mau. Depois há toda a fase da ruína de Jeanne, levada a cabo pelo filho, e aí o dinheiro volta. Em França, quando alguém nos faz mal, há a expressão “hás de pagá-las”...

Em Portugal também...
Bom, eu acho que é o que o filho faz. Jeanne fez-lhe imenso mal, sobreprotegeu-o, isolou-o do mundo, não queria que fosse à escola, aos 12 anos quase não conseguia ler, e ela dizia que ele sabia o nome das flores e das árvores. Jeanne estava numa total negação da realidade — e, num gesto de sobrevivência, o filho foge daquele mundo e fá-la pagar. Ela tem uma relação com o dinheiro totalmente desmaterializada — na cena no notário percebemos que está completamente inconsciente da sua situação —, nunca tem uma relação realista com o mundo. É essa a sua beleza e o seu drama.