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Mil páginas para ler em dias sem ondas

joão carlos santos

Não é fácil escrever sobre surf, mas ler um bom livro de surf é quase tão bom como apanhar uma onda. “Barbarian Days”, que valeu o Pulitzer em 2016 ao americano William Finnegan, é o ponto de partida para um mergulho no mar de palavras de que se faz um desporto que está na moda

O livro de surf mais antigo do mundo tem 12 páginas, um excerto do poema “Childe Harold’s Pilgrimage”, de Lord Byron, quatro parágrafos de texto e oito fotografias. É provável que não sejam sempre as mesmas, tendo em conta que dos oito exemplares conhecidos de “The Surf Riders of Hawaii” há pelo menos duas versões. Além de tudo isto, o livro tem um autor improvável: um engenheiro nascido no Kansas, que se tornou galerista no Havai e, mais tarde, um excelente fotógrafo. Além de surfista, claro. Chamava-se Alfred Richard Gurrey, Jr (AR Gurrey Jr) e foi ele próprio que fez os livros, à mão, manuscritos e com as imagens coladas, ao que parece entre 1910 e 1914. É uma espécie de joia da coroa em qualquer biblioteca de surf — mas, como todas as preciosidades, não está ao alcance do comum dos mortais.

Ou quase. Os dois últimos exemplares que foram a leilão venderam-se por mais de 30 mil dólares. No entanto, ainda é possível encontrar cópias de alta qualidade, com as imagens originais restauradas e os dois textos na mesma fonte usada por Gurrey, tudo arrumado dentro de uma pasta feita à mão. Uma espécie de livros antigos e novos. Existem apenas 250 exemplares, todos numerados e assinados. Preço, incluindo portes de envio do Havai para Portugal: 150 euros. Se a opção for o “The Centennial Edition of the Surf Riders of Hawaii”, 150 exemplares produzidos, com um livro extra sobre Gurrey e mais uma série de fotografias, o preço sobe para pouco mais de 200 euros. “Seria uma honra enviar um livro para Portugal e, para ajudar, ainda consigo incluir uma fotografia que o Gurrey tirou ao Duke”, garante-me Timothy T. De La Veja, o tipo dos livros. Quem é que resiste a uma fotografia do Duke?

“The Surf Riders of Hawaii” está na lista dos livros de surf mais caros que quero comprar, um pouco à frente do “Surfing”, de Jim Heimann (150 euros), um monstro de 592 páginas (29cm x 39,5 cm) com quase mil fotografias e o peso de um garrafão de cinco litros de água. Não é preciso imaginar, porque já estive com um na mão e foi nesse dia, há cerca de quatro meses, que pensei pela primeira vez no conceito de biblioteca de surf. Umas semanas depois, em junho, foi publicado nesta revista um artigo sobre a vida de George Cunha, descendente de açorianos, companheiro de natação e de surf de Duke Kahanamoku, o pai do surf moderno, nas ondas de Waikiki (“A onda do passado”, revista E, 17/06/2017). O texto de João McDonald começava com versos do mesmo poema de Byron, retirados de um livro de surf de Drew Campion “The Book of Waves — Form and Beauty on the Ocean”.

“A Peregrinação de Childe Harold”, é o relato da viagem que Byron fez pelo Mediterrâneo, incluindo Portugal, entre 1808 e 1811, e conta a história de um jovem desiludido com a sociedade à procura pelo mundo inteiro de um sentido para a vida. Talvez William Finnegan — jornalista de “The New Yorker” que escreveu, entre outros assuntos, sobre o apartheid na África do Sul, a guerra em Moçambique, o tráfico de droga no México e de pessoas nos Balcãs — arriscasse chamar àqueles três anos da jornada de Byron os barbarian years. Há um ano, o seu livro de memórias “Barbarian Days — A Surfing Life” ganhou o Prémio Pulitzer de Biografia. É um texto sobre ondas, mas acima de tudo sobre a vida que ditam e os caminhos que cada um vai traçando à volta delas. E começa no final dos anos 60, num liceu não muito longe da praia de Gurrey, em Waikiki, onde os tipos mais temidos eram uns portugueses chamados Freitas e, de entre eles, um gigante chamado Tino.

Não é provável que “Barbarian Days” venha a ter edição portuguesa (de acordo com um responsável editorial, há muitas páginas para traduzir, 499, e pouco interesse do mercado), pelo que é a versão americana que está na estante, entalada entre “Lobo do Mar”, de Garrett McNamara e Karen Karbo, e “Tunnel Vision”, do australiano Sullivan McLeod. À volta, arrumados por entre centenas de revistas de surf de todos os cantos do mundo, estão três dezenas de livros, incluindo um ou dois assinados pelos autores — sim, Kelly Slater, o melhor surfista de sempre, assinou o meu exemplar de “For the Love”, livro que escreveu com Phil Jarratt. A isto gosto de chamar a minha biblioteca de surf. Ou melhor, gostava de chamar.

Em maio deste ano, ao preparar um artigo sobre os 40 anos do primeiro campeonato de surf em Portugal, na praia de Ribeira D’Ilhas, na Ericeira, encontrei-me com João Moraes Rocha num apartamento na zona do Estoril. Além de organizar a prova, tirar fotografias e de ganhar o campeonato, Moraes Rocha, que é juiz-desembargador no Tribunal da Relação de Lisboa, é também o autor de “História do Surf em Portugal, As Origens” (Quimera, 2008, absolutamente esgotado). Acima de tudo, tem uma verdadeira biblioteca de surf, na qual se inclui o ‘monstro’ de Jim Heimann. “Interessam-me particularmente os livros de história de surf”, confessa, enquanto mostra exemplar atrás de exemplar dos mais variados países. “Procuro também o lado iconográfico, as imagens, posters”, admite.

As estantes repletas — tão cheias como as mesas, as cadeiras e o chão do sótão — de Moraes Rocha parecem provar que há dois requisitos fundamentais para começar e manter uma biblioteca de surf: gostar de livros e gostar de surf. A coisa não funciona quando está presente apenas uma das paixões. Na coleção do magistrado, sempre em aberto, há toda a espécie de livros de surf. Cada um com uma história, uma pesquisa, uma aventura. “A maioria tem mesmo que ver com a história da modalidade, até porque, durante algum tempo, foi esse o objeto do meu trabalho e é engraçado perceber como há coisas semelhantes em diferentes países”, explica. A “História do Surf em Portugal” resulta da memória do autor, mas também de depoimentos e imagens recolhidos junto de alguns dos personagens mais importantes do surf português.

Protagonista. Tiago Pires, para muitos o melhor surfista português de sempre, é um dos personagens de “Barbarian Days”. William Finnegan surfou com ele na Madeira, mas Tiago, que ainda não leu o livro, não se lembra

Protagonista. Tiago Pires, para muitos o melhor surfista português de sempre, é um dos personagens de “Barbarian Days”. William Finnegan surfou com ele na Madeira, mas Tiago, que ainda não leu o livro, não se lembra

divulgação

Numa escala diferente, ainda que com o mesmo método, está “The History of Surfing”, de Matt Warshaw, um livro indispensável para quem quer saber tudo, mas mesmo tudo, sobre a origem e desenvolvimento do surf moderno. Warshaw, antigo surfista profissional e ex-editor da revista norte-americana “Surfer” (a bíblia do desporto), é hoje o rosto de um projeto online chamado “Encyclopedia of Surfing”, que reúne todo o conhecimento sobre surf. “Um livro de surf pode ser qualquer coisa, qualquer formato, qualquer género. Pode ser ficção, não-ficção e por aí fora. Não sei dizer quanto de surf tem de haver para que seja um livro de surf. Para mim não é preciso muito. Na maior parte das vezes, menos é mais”, explica, numa curta entrevista por e-mail.

Pedi-lhe uma lista com os seus dez livros de surf preferidos. À cabeça, sem grande surpresa por estar mesmo a caminho de se tornar um dos melhores livros de surf de sempre, está “Barbarian Days”, de Finnegan. “Não é fácil escrever sobre surf, porque não há princípio nem fim. Quem faz surf, fá-lo uma e outra vez, até desistir ou morrer”, defende. “O que o Finnegan conseguiu provar é que, na verdade, há muito para escrever, porque uma vida de surf tem os seus riscos. É realmente exigente. É algo muito egoísta de se fazer. O surf dá cabo das relações, do trabalho, dos estudos, do desenvolvimento das pessoas. Os efeitos de uma vida inteira absolutamente dedicada ao surf são de longo prazo, e o Finnegan compreende isto. Ele esteve encurralado durante muito tempo. Graças a Deus, sobreviveu para contar a história!”, escreve Warshaw, com aquele ponto de exclamação no fim.

O Pulitzer talvez seja a prova de que não é preciso ser surfista para gostar de “Barbarian Days”. Claro que quem faz surf encontrará pontos de interesse inacessíveis aos restantes. Ficará deliciado com os pormenores dos primeiros dias de surf em Cloudbreak, nas ilhas Fiji (hoje palco de uma das mais espetaculares etapas do mundial). As ilhas desertas, os barcos de australianos, os personagens coloridos que desbravaram uma onda perfeita que ninguém conhecia, embora muitos ouvissem rumores. Impressionante também é o capítulo dedicado a São Francisco, em particular à relação entre Finnegan e Mark Renneker, um médico obcecado por surf e capaz das maiores loucuras para apanhar as desafiantes e perfeitas ondas de Ocean Beach. Esta parte do livro nasceu de um perfil de Mark escrito por Finnegan para “The New Yorker”. Mark respirava surf (no escritório acumulava milhares de revistas e tinha um rádio sempre ligado para saber a altura da ondulação nas boias) e algumas das suas máximas são intemporais: “Há uma regra sobre tipos que se casam: a sua predisposição para surfar ondas grandes desce logo um nível. E desce mais um por cada filho. A maioria dos gajos com três filhos não entra se as ondas tiverem mais de quatro pés.”

Os portugueses encontrarão os capítulos mais interessantes na parte final, quando o autor chega à Madeira, em 1994. Por entre o espanto com uma ilha parada no tempo e as enormes ondas do Jardim do Mar, lá surge o nome do melhor surfista português de sempre e, até este ano, o único a ter estado entre os tops mundiais. Tiago Pires ainda não leu o livro, mas só por falta de oportunidade. Finnegan lembra o dia em que estava a surfar uma onda conhecida como ‘Pequena’ e vê chegar Pires e mais dois portugueses. “O Pires surfava tanto que era imprevisível, e acabámos os dois embrulhados e arrumados pela maior onda do dia. Tivemos ambos sorte em não nos aleijarmos. Ficámos muito tempo debaixo de água e levámos com a onda seguinte. Ele parecia pronto para outra, mas eu fiquei abalado”, escreve o americano. Tiago Pires admite que não se lembra. “Não diz em que ano foi? Que pena. Já foram muitas surfadas na Madeira, é impossível lembrar-me de toda a gente”, conta ao Expresso. “Já me falaram muito bem do livro, mas ainda não o consegui arranjar. Há pouco tempo, um miúdo das Canárias disse-me que o estava a ler e que era muito bom. O meu irmão também já me tinha dito, vou ter mesmo de ver se o encontro.”

Entre os livros favoritos de Tiago Pires está “Bustin’ Down the Door”, do sul-africano Shaun Tomson, a história contada na primeira pessoa do inverno de 1975 — para muitos o ano que mudou para sempre o surf profissional. Tomson, com Wayne “Rabbit” Bartholomew e Mark Richards, que também são narradores, e outros três australianos chegaram ao Havai sem nada: apenas pranchas e uma vontade indomável de se afirmarem nas ondas mais perigosas do planeta. “O Rabbit é um excelente contador de histórias e há um episódio inesquecível em que ele anda a esconder-se dos havaianos. Eles eram muito difíceis. Ainda são, mas naqueles dias...”, diz Pires. As histórias na história são muitas, incluindo um incrível diálogo junto à mesa de snooker da Sunset Store. “O Owl Chapman dizia-nos, ‘Quando cheguei em 1969, encheram-me de porrada, e agora vocês, os seis, fazem isto. Não têm ideia do que vos vai acontecer. De qualquer modo, Rabbit, tu és muito magrinho.”

Por incríveis que sejam os textos, e são repletos de peripécias, é na fotografia que o livro agarra verdadeiramente. São postais do passado. Pranchas grandes, ondas enormes, os gestos inconfundíveis daqueles que, na altura, eram os melhores entre os melhores. Mark Richards a virar na base de uma onda em Off The Wall completamente esticado; Tomson dentro de um tubo, numa sequência fotografada por Dan Merkel, cada vez mais perto da câmara, do leitor; Rabbit a preparar um tubo em Pipeline, de costas para o monstro azul. “É um dos grandes livros, não é?”, pergunta Tiago Pires. Mas é talvez mais do que isso. É um exercício de memória.

Hoje, de acordo com a International Surfing Association, há mais de vinte milhões de praticantes de surf no mundo. Toda a gente faz surf. É gente a mais, diriam muitos deles referindo-se aos restantes. De qualquer modo, os números podem tornar mais fácil o diálogo ou, de outra forma, podem ajudar a que seja mais fácil compreender os surfistas. Nos anos 80 e 90, as revistas de surf, incluindo claro a “Surfer” de Matt Warshaw, estavam repletas de anúncios com slogans geniais. “Surfing is life, the rest is details”, garantia a Instinct. “Only a surfer knows the feeling”, jurava a Billabong, por cima de imagens de gente a surfar ondas perfeitas. No entanto, em quase todas as edições havia umas linhas a dizer que era impossível explicar a sensação de surfar uma onda a quem nunca o tinha feito.

João Valente, o editor da “Surf Portugal”, a “Surfer” do surf português, nunca acreditou. “Não acho que seja impossível descrever a sensação de fazer surf. Se foi possível descrever o amor, a tristeza e todos os sentimentos humanos através da literatura, da música, por que razão não o conseguiríamos fazer com o surf? Claro que não é fácil”, garante. Valente tem, provavelmente, a mais completa coleção de livros de surf no país. “Seria uma surpresa encontrar alguém que tenha mais livros do que eu”, arrisca. Menos surpreendente é encontrar “Barbarian Days” no seu top 10.

Ninguém sabe quantos livros de surf existem, ainda que possam ser arrumado em categorias, essas sim bem mais fáceis de identificar. Descontando os manuais técnicos para aprender surf, os guias de toda a espécie (de pranchas a fatos, a mapas com todas as ondas de um determinado país ou região), e passando a correr por meras (e espetaculares) coleções de fotografias, há biografias de surfistas, livros sobre a cultura do surf e, principalmente, muita historiografia.

A história do surf moderno começa no início do século XX (daí a importância do livro de AR Gurrey Jr, uma fonte original desses primeiros dias, em Waikiki). Há um segundo período, no pós-II Guerra Mundial, centrado nas praias da Califórnia, em particular na praia de Malibu. A década de 50 é considerada a da primeira massificação, com o surf a sair da praia e a entrar, nem sempre pelas melhores razões, no mainstream. É deste período o livro “Gidget”, de Frederick Kohner, uma obra de ficção inspirada na vida da filha, Kathy, e dos seus amigos de Malibu. Obra mais tarde adaptada ao cinema, “Gidget” é um dos melhores livros na lista de Matt Warshaw.

Paixão. João Moraes Rocha, o juiz-desembargador que foi o primeiro campeão nacional de surf, escreveu um livro sobre a história do surf em Portugal. E é um ávido colecionador de livros

Paixão. João Moraes Rocha, o juiz-desembargador que foi o primeiro campeão nacional de surf, escreveu um livro sobre a história do surf em Portugal. E é um ávido colecionador de livros

tiago miranda

O americano que criou a “Encyclopedia of Surf”, na sua “History of Surfing”, chama à década de 70 a idade dos “Caçadores da Fortuna”. Esta é talvez a época mais rica, a das maiores descobertas, a dos invernos marcantes no Havai, das aventuras em ilhas que nem apareciam nos mapas e do tráfico de droga —o haxixe era a fonte de financiamento para muitos dos aventureiros que viviam para surfar, à margem das regras da sociedade. Os bárbaros modernos. Finnegan cruzou-se com bastantes, mas nenhum escreve como Allan C. Weisbecker, o autor de “In Search of Captain Zero”. O livro tem o sabor de um prato já quase vazio. Weisbecker, aos 49 anos, decide deixar a sua casa, “na última estrada à esquerda em Long Island, Nova Iorque, nos Estados Unidos da América”. Parte para sul, à procura de um amigo que desaparecera anos antes: Christopher ou, como assinara num dos últimos postais, “Capitán Cero”.

Weisbecker atravessa o México, a Guatemala, El Salvador e vai seguindo pela estrada, numa caravana, com o cão e uma fotografia de Christopher. Pára para fazer surf e recordar os dias em Marrocos, as viagens a transportar droga para os EUA, em barcos quase desfeitos. Sempre ao lado de Christopher, homens obcecados com ondas e dispostos a tudo para as surfar para sempre. Há gente que morre, amigos que se perdem, vidas desfeitas, mas o mais importante é aquele momento em que a onda chega, a prancha desliza e o tempo parece parar. Tal como em “Barbarian Days”, há um sentimento de nostalgia ao longo das páginas. Não é preciso escrevê-lo: antes era melhor, mais ondas, menos gente, menos negócio. Numa palavra, tudo era puro.

João Moraes Rocha viveu algo parecido. Os dias de ondas sem ninguém na Ericeira, os caminhos perdidos que levavam a praias onde hoje se chega por autoestrada. Tardes de inverno, com o mar a subir tanto que o coração vinha à boca de quem remava para escapar. Sem testemunhas, nem revistas nem filmes. Manhãs de verão, conta o magistrado, em que os estrangeiros desapareciam nas carrinhas e voltavam carregados de haxixe de Marrocos. Americanos, australianos...“São tempos que parecem mentira. Mas era assim”, garante Moraes Rocha.

Tiago Pires, quase trinta anos mais novo, fala do mesmo. Pode não se lembrar da tal onda com Finnegan, na ‘Pequena’, na Madeira, mas não se esquece de outros dias. “Mesmo depois de tudo o que já passei, de ter surfado por todo o mundo, ainda me recordo como se fosse hoje de surfadas na Ericeira em 1994. E sei que esses dias já não voltam, nunca mais voltam. As coisas são como são. A nostalgia é uma parte do surf”, descreve Pires, antes de dizer uma frase que resume tudo. “A Madeira é um daqueles locais onde ainda é possível ter alguma tranquilidade, surfar sozinho, com um local, que te recebe bem.” A Madeira ainda é aquilo que foi.

O surf não é apenas nostalgia. É algo mais complicado. “Andamos sempre na linha de fronteira entre a memória de dias gloriosos e a esperança de que aconteçam outra vez”, clarifica João Valente, o homem da “Surf Portugal”. “Os surfistas vivem num mundo bipolar e, como grupo, é isso que os encanta. As histórias do tempo em que as praias onde milhares de pessoas fazem surf não passavam de desertos de gente, com ondas a rolarem lá fora.” As mesmas ondas que, na próxima semana, podem estar perfeitas. O que foi e o que será.

joão carlos santos

Há um livro chamado “You Should Have Been Here an Hour Ago”, de Phil Edwards (um dos grandes surfistas da década de 60) e Bob Ottum. Warshaw considera obrigatório tê-lo numa biblioteca de surf decente. Só que não é fácil encontrá-lo, na versão original, de 1967, por menos de 800 dólares (€680, mais portes de envio). Ora, por muito menos deita-se a mão a uma verdadeira bomba. “Welcome to Paradise, Now Go To Hell”, de Chas Smith, um dos mais controversos jornalistas de surf da atualidade (ainda que Smith seja, acima de tudo, um jornalista). O livro é o relato do inverno de 2009 no North Shore da ilha de Oahu, no Havai, a Meca da modalidade, e Smith tem o dom de não ter filtro. Com muito álcool e provocação pelo meio, há alguns pormenores imperdíveis.

A cena de pancadaria entre um dos mais temidos nativos do Havai e um executivo de topo de uma das principais marcas de surf é central no livro. Mas nada bate a história de Smith e do australiano Mick Fanning, três vezes campeão do mundo e que foi notícia há dois anos por ter sido atacado por um tubarão durante a final de uma prova na África do Sul. “É um chato, faz surf como um chato e veste-se como chato”, tinha escrito Smith. Fanning respondeu e entre outras coisas disse-lhe o seguinte: “You are a fucking jew” [“És um cabrão de um judeu”]. A expressão saltou para o título do artigo que Smith escreveu para a revista “Stab” e Fanning, debaixo de fogo das organizações judaicas, foi obrigado a desculpar-se publicamente na Austrália. No livro, Fanning e todos os outros surfistas alvos de Smith (os chatos, os loucos, os mal vestidos) estão com ele na mesma ilha, nas mesmas praias, nas mesmas festas...

Mick Fanning (que não é assim tão chato a surfar e há até quem diga que é precisamente o contrário) é o protagonista principal de outro livro, recente, escrito por Tim Baker. “Surf for Your Life” tem a história do tubarão, assim como a morte do irmão, a grave lesão que sofreu, a escoliose, os tubos de trinta segundos na Gold Coast e as ondas desertas espalhadas pelo mundo. Até o dia em que, vestido apenas com um fato de banho de mulher, entrou no bar onde estavam todos os amigos à sua espera. Só que já não estavam. É, acima de tudo, uma história de superação, de triunfo face às dificuldades. “Mal posso esperar para ler”, admite Tiago Pires, que privou de perto com Mick nos anos do World Tour.

A história de Mick é algo como a de Garrett McNamara, o miúdo de Stockbridge, no Massachusetts, que ganhou fama mundial nas ondas gigantes na Nazaré. Mas o caminho não foi fácil e quem lê “Lobo do Mar”, escrito por McNamara e Karen Karbo, não pode deixar de notar que foram tantas as vezes em que tudo podia ter acabado: marchas intermináveis pelo deserto com a seita religiosa a que a mãe aderira, comunidades hippies onde tudo era permitido, droga, sexo... e tudo antes dos 13 anos. McNamara já era conhecido antes da Nazaré, mas apenas pela sua fama de 'nativo' do Havai. O livro abre no dia em que Garrett, 22 anos, fuma um charro antes de se lançar para o mar em Waimea Bay, considerada na altura a maior onda do mundo. Acabou no hospital. “Lentamente, percebo que não posso voltar a surfar” é a última frase do prólogo.

“Cada vez teremos menos biografias de surfistas. Mesmo com o sucesso do Finnegan. Havia mais mercado para isto há dez ou vinte anos. As pessoas já não perdem tempo a ler livros, estamos todos colados aos telefones a ver vídeos de três minutos. “Barbarian Days” é a exceção que confirma a regra. E a regra é que os livros e as revistas estão a morrer. Guardámos o melhor para o fim”, sentencia Matt Warshaw. Poucas semanas depois, tentei comprar a edição de agosto da “Surfer”, que chega à banca em formato gigante. “Deixou de vir para Portugal. Não há encomendas”, explicou o funcionário de uma papelaria em Lisboa, daquelas que têm tudo, após consultar o computador. A solução foi recorrer a um contacto e mandar vir um exemplar dos EUA. Tiago Pires, habituado a estar na capa de tantas revistas, não se espanta. “Estamos a voltar aos tempos antes do princípio. Aos dias em que só quem assinava as revistas americanas é que as recebia. Encontrava-se uma aqui ou ali, mas era difícil. Hoje é pior. Pura e simplesmente não há.” Pode parecer nostalgia, mas não é da boa.