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Estas são as canções da impossibilidade

Estas não são playlists como antigamente, gravadas em cassetes saudosas, mas vêm com o mesmo amor e devoção dessas playlists de outrora

Uma playlist de Germano Oliveira

Podia ser uma playlist a abrir com o Nick Cave, mas ele agora é o homem mais triste do mundo e temos de deixar um homem em paz com a sua tristeza em vez de lhe andar a escolher canções e por isso abrimos com a Master of None dos Beach House, que deu nome a uma série do Netflix que o algoritmo vende como uma comédia mas que na verdade é sobre as coisas que queremos dizer aos outros mas que não dizemos por desleixo, cobardia ou orgulho e que só as dizemos quando os outros já não precisam de o ouvir e seguiram com a sua vidinha sem nós, portanto avisem o algoritmo que isto é uma tragédia e não uma comédia.

Podia ser uma playlist com o Nicolas Jaar, mas ele foi ao Primavera Sound do Porto e apareceu no palco com um MacBook em vez de acompanhado de gente e alguém que percebe destas coisas importantes da vida perguntou se ele ia mandar emails em vez de dar um concerto e nós chateámo-nos com o Jaar por ele ser tão bom em estúdio e tão esquisito ao vivo e ficámos depois com dúvidas se o esquisito era ele ou nós ali em pé à uma da manhã a ver um homem a mexer no computador em vez de estar a mexer connosco, e como ainda não fizemos as pazes com o Jaar trocámo-lo nesta playlist pela intranquilidade da Brackett WI, pela melhor canção dos Radiohead (não temos a certeza disto mas é no que acreditamos a 10 de agosto de 2017 depois de Cristo) e por mais sete temas desacelerados e entristecidos, porque a melancolia é patologia musical para ser estimada e preservada e proclamada.

Esta playlist podia ser outra coisa qualquer mas é isto e é a playlist possível mas que a vida não seja o possível. A sua e a minha. Porque estas são as músicas da impossibilidade. Da sua e da minha.