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O mundo mudou. Eles também não

A maior banda do mundo está na estrada outra vez. Em grande. Trinta anos depois de “The Joshua Tree”, os U2 mostraram em Barcelona que os sonhos, como o rock puro e duro, fazem mais sentido do que nunca

Ricardo Marques

Ricardo Marques

Texto *

Jornalista

Abdreu Dalmau / EPA

Aos 13 anos não pensamos muito, e por isso pensamos com absoluta certeza que vamos viver para sempre e que, mais tarde do que cedo, encontraremos aquilo que procuramos. Seja o sentido da vida ou o cenário ideal para ouvir um disco. O disco. Aquele bocado de vinil que nos traz enfeitiçados há semanas. Tentamos às três da tarde, com a luz acesa e mais um candeeiro... e nada. À mesma hora, em absoluta escuridão e de porta fechada... o mesmo nada. Uma e outra vez até ao dia, a altas horas da madrugada, casa inteira a dormir, em que percebemos que nada poderá alguma vez funcionar melhor do que a pequena televisão Grundig que estava na cozinha e que arrumámos a um canto, no chão, ligada mas sem imagem, apenas com a estática. Não é luz, é apenas um infinito a preto e branco. O círculo negro roda no gira-discos, pela milésima vez, abrimos a capa do LP de pé, a dois palmos da TV, e ficamos ali, putos escondidos de pernas cruzadas e cabeça longe, a olhar para aqueles quatro tipos que alguém fotografou no deserto — e que nos olham de volta. “I want to run”, canta ele, o da camisola branca de alças no início da viagem.

Uma das vantagens de entrar cedo nos concertos é que podemos ver toda a gente chegar depois (a desvantagem é que o preço da cerveja está pela hora da morte...). Ou, escrito de outra forma, podemos ver as camisolas que chegam depois. Há pouco mais de uma semana, sentado na bancada do Estádio Olímpico de Barcelona, à espera do concerto dos U2 que assinala os 30 anos do álbum “The Joshua Tree” (“TJT”), vi que havia camisolas para todos os gostos. Ou quase, porque não vi ninguém com uma camisola branca de alças igual à que Bono usa na fotografia do disco. Vi muitas t-shirts de digressões passadas que já tinham perdido a cor, embora mantivessem a dignidade. A outras faltava quase tudo, incluindo tecido, como sobreviventes de batalhas antigas travadas no relvado, perto do palco, cada vez mais perto do palco. Também se viam relíquias que, pelo imaculado estado de conservação, só devem sair do saco para ir ao estádio. Mas a melhor era mesmo a mais simples. Preta, com duas frases a branco e mais duas datas da cor da areia do deserto: “I want to run, 1987” (à frente); “I want to hide, 2017” (nas costas). Correr e esconder.

Trinta anos depois, confesso que não sabia bem o que esperar desta espécie de regresso à felicidade dos dias que já foram. Fiquei um pouco mais descansado quando ouvi o ex-Oasis Noel Gallagher, agora com os High Flying Birds, cantar o ‘Don’t Look Back in Anger’, e a malta toda a cantar com ele. Sim, talvez fosse essa a ideia: fazer as pazes com o passado num dia de sol. Depois o palco ficou vazio e o estádio encheu-se de som. Os Waterboys a cantar ‘The Whole of the Moon’. A coisa ia mais ou menos assim — “I spoke about wings/ You just flew/ I wondered, I guessed and I tried/ You just knew” — quando Larry Mullen Jr subiu para o palco e caminhou até à pequena ilha no meio do público com aquele ar de quem não quer saber de nada e podia muito bem estar noutro lugar qualquer. Sentou-se e foi o fim. The Edge, que veio a seguir, ainda deu uns passos ao ritmo da bateria e depois começou a puxar pela guitarra. Então veio Bono. “I can’t believe the news today”, cantou, e já se via Adam Clayton a caminhar com o baixo. ‘Sunday, Bloody Sunday’ para começar. A doer.

Uma das desvantagens de não ser o primeiro a escrever sobre um concerto é que fica sempre muito pouco por dizer — e neste caso a digressão já vai longa (e rentável, com mais de 100 milhões de euros de receitas, uma parte das quais será usada para financiar educação musical gratuita para os miúdos irlandeses)... A vantagem é que o preço da cerveja está pela hora da morte, pelo que não vale sequer a pena tentar afogar as mágoas. É escrever e andar. No “Público”, o jornalista que assistiu ao mesmo concerto garantiu, no dia seguinte, que “os U2 devolvem-nos a fé no rock e na humanidade em Barcelona”. Impossível não concordar. Ainda assim, talvez me incline mais para o artigo da “The New Yorker” (“U2 Plays ‘The Joshua Tree’: Outside Is America”), de 11 de julho, sobre o concerto em Nova Jérsia, em especial quando Sarah Larson escreve que o guião dos concertos da digressão “TJT” inclui “a música espetacular que veio antes do álbum e a música de que não gosto que veio depois”. Chamem-me ‘larsoniano’, mas a minha relação musical com os rapazes irlandeses, aquela fixação absoluta com tudo o que fazem e dizem, resistiu a “Rattle and Hum” e a “Achtung Baby”. Não mais. No more.

Bono, Edge, Adam e Larry tocaram mais três dessas músicas “espetaculares”, todas anteriores ao disco que dá nome à digressão, na tal ilhota — que tem a forma da árvore de Joshua, Yucca brevifolia, comum no deserto de Mojave. Veio ‘New Year’s Day’, depois ‘Bad’ (durante a qual Bono lembrou a amizade com David Bowie e revelou que tinha estado, nessa mesma tarde, na exposição dedicada ao cantor em Barcelona, antes de cantar parte de ‘Heroes’) e por fim ‘Pride (in the Name of Love)’. Músicas que falam do conflito na Irlanda do Norte, de Martin Luther King e do apartheid, na África do Sul, e de um lado menos bom de Dublin, como disse Bono em 1985 no Live Aid, o concerto organizado por Bob Geldof para auxiliar as vítimas da fome na Etiópia. É certo que há muitas histórias sobre a origem de ‘Bad’, mas só há uma conclusão: por muito que o mundo mude, o mundo é sempre igual.

Quatro tipos, quatro instrumentos. The Edge, Larry Mullen Jr, Bono e Adam Clayton no Estádio Olímpico de Barcelona. A música dos U2 devolvida à forma simples e bela dos tempos idos

Quatro tipos, quatro instrumentos. The Edge, Larry Mullen Jr, Bono e Adam Clayton no Estádio Olímpico de Barcelona. A música dos U2 devolvida à forma simples e bela dos tempos idos

ABDREU DALMAU / EPA

Aos 13 anos, Dublin significava inverno, chuva, bombas, IRA e luta armada. Hoje é a capital de um país que cresce mais do que qualquer outro na zona euro (4,8% previstos para este ano, apesar do ‘Brexit’ e da batalha diplomática em curso). Aos 13 anos, a Etiópia era cada um daqueles miúdos esqueléticos de ventre dilatado que apareciam no telejornal às oito e vinte da noite, depois da política e antes do desporto. Hoje, ainda que mal consigamos dar por isso, incapazes de sermos heróis, nem que seja por um dia, há mais de 16 milhões de pessoas em risco de fome em África. Tensões raciais, intolerância religiosa, guerra e mais guerra. Um alinhamento que, inevitavelmente, nos conduz a esse lugar especial onde as ruas não têm nome.

Há milhares de telemóveis virados para o enorme palco, todo pintado a laranja-fogo, com a árvore a negro, como se estivesse queimada. Cinquenta mil almas ganham balanço, embaladas pela guitarra, à espera daquele instante mágico em que tudo vai ficar branco e cheio de luz e Bono vai começar a cantar “I want to run/ I want to hide/ I wanna tear down the walls/ that hold me inside...” No ecrã gigante, tão grande como o palco (que a “Rolling Stone” garante ter uma resolução de 8 K — algo que um leigo classificaria como “imagem brutal”), já está a estrada que atravessa o deserto. O estádio inteiro cabe naquele carro que não se vê, e todos são o homem que caminha pela berma. O filme é de Anton Corbijn, o fotógrafo holandês que há anos habita os misteriosos caminhos das estrelas (não só os dos U2 mas também os dos Depeche Mode, além de um documentário sobre Ian Curtis, dos Joy Division). A viagem, a verdadeira viagem, começa naquele instante. Não há cores garridas, nem pinturas na cara, ou óculos escuros exagerados, nem fatos estranhos... Preto e branco. Ganga e cabedal, como era no princípio, agora e também em 1987. Quatro tipos, quatro instrumentos. Música.

Dias antes do concerto tinha visto uma conversa entre Bono e a filha mais velha, Jordan. Falavam de tudo um pouco, inclusive do dia do parto — Bono contou-lhe, mais uma vez, que foi a mulher que o apanhou a caminho do hospital. “Ainda não acredito nisso”, disse-lhe ela. A dado momento, depois de confessar que os verdadeiros heróis do mundo são os bombeiros e os médicos e enfermeiros, não as celebridades, o vocalista dos U2 explica à filha que o estrelato, a fama, permite chamar a atenção para algumas causas, permite dar voz aos que não têm voz. “Aquilo que tento fazer é lutar contra as causas da pobreza. A pobreza é estrutural, não é algo simples”, diz-lhe. “Aquilo que me ofende mais é o desperdício do potencial humano.” Bono tem sempre uma causa e tornou-se, aos poucos, um player da política internacional. Esta semana foi recebido por Emmanuel Macron, no Eliseu, e à saída confessou ter tido uma conversa “pouco habitual” com o Presidente francês e a mulher sobre refugiados, pobreza, educação das mulheres...

Pode parecer que vão longe os tempos de ‘Bullet the Blue Sky’, da ingerência americana em El Salvador, do homem a contar notas de dólar, cem, duzentos... e nós sentados, a décadas de distância, vemos outra vez os “fighter planes” e o céu rasgado de fogo. O Presidente era Ronald Reagan, viria depois George Bush, o pai, e anos mais tarde o filho. E as mulheres e as crianças a correr para sempre para os braços da América, até aos dias de hoje, embora a América diga agora que não os quer. Os U2 não esquecem, não descansam e não conseguem evitar. A meio do concerto, lá aparece um vídeo, bocados de um filme antigo, talvez um western. Um charlatão numa carroça tenta convencer os habitantes de uma cidade de que a única hipótese que têm é construir um muro. Só assim estarão a salvo. Chama-se Trump o vendedor de paz. ‘Exit’, a penúltima do álbum, é a música que se segue.

À minha volta, na bancada, ninguém quer sair. Ninguém sai, ninguém se senta, ninguém larga o telemóvel. E ninguém se cala quando os U2 entram na parte mais forte do concerto, com duas músicas acompanhadas letra a letra pelo estádio cheio, ‘I Still Haven’t Found What I’m Looking For’ e ‘With or Without You’. Ninguém pode viver assim, “contigo ou sentigo”, brincávamos aos 13 anos. Veio depois ‘Bullet the Blue Sky’ (que tem um verso assim: “In the locust wind/ Comes a rattle and hum”), e temos outra vez 14 anos. Deixámos o disco em casa e estamos, três ou quatro de mochila às costas, numa quarta-feira à tarde, sem aulas, a caminho do Tivoli para ver “Rattle and Hum”, o filme que nos serviu de banda visual para o disco “TJT”. O cinema está quase vazio. Saltamos da cadeira e ficamos ali, de braços abertos, a dançar como Bono dançava. Mas ele está no ecrã, com a guitarra pendurada ao ombro, a cantar ‘In God’s Country’: “Desert sky/ Dream beneath a desert sky/ The rivers run but soon run dry/ We need new dreams tonight.” E sonhamos e dançamos e não nos importamos, porque vamos viver para sempre.

Ninguém levará a mal se admitir que “The Joshua Tree” é o meu álbum preferido dos U2 e que “Rattle and Hum” é o meu álbum preferido dos U2 a seguir a “The Joshua Tree”. E que “Rattle and Hum” é o meu filme preferido dos U2. Em Barcelona, no Estádio Olímpico (que na verdade se chama Estadi Olímpic Lluís Companys), os irlandeses tocaram 22 canções, mas à nona eu já estava satisfeito. A décima foi ‘Red Hill Mining Town’, que a jornalista da “The New Yorker” adora, principalmente pelo verso “love slowly slips away” — e como não adorar? Ouvir “loooove slowly slips away” numa cidade que, dentro de dois meses, quer votar para deslizar de Espanha para fora é uma experiência enriquecedora.

Mas a minha música de eleição chegou antes. ‘Running to Stand Still’ tem provavelmente as três linhas mais geniais de sempre, a seguir à do título:

“You got to cry without weeping
Talk without speaking
Scream without raising your voice”

Bono, o frontman, o homem das causas, a voz 
que há 30 anos corre o mundo para cantar com milhares de fãs

Bono, o frontman, o homem das causas, a voz 
que há 30 anos corre o mundo para cantar com milhares de fãs

ABDREU DALMAU / EPA

É tudo e nada ao mesmo tempo. São os dias do Casal Ventoso há 30 anos, da heroína que mandava nas ruas e das tendas e das vidas perdidas, e são os dias da América de hoje, incapaz de lidar com uma crise de dependência sem precedentes. Há dois meses, a Bloomberg chamava-lhe a “epidemia da heroína” e garantia que o negócio dos cartéis cresce a um ritmo imparável, à custa de milhões de americanos viciados em analgésicos e que, de um momento para o outro, ficaram sem meios de adquirir medicamentos. Milhões que passam os dias a correr apenas para ficarem parados. E nem foi preciso Bono fazer aquele gesto com o braço, aquela mão aberta a preparar o caminho para a agulha. “Suffer the needle chill.” E o arrepio chegou à bancada.

Voltou com ‘Miss Sarajevo’, a primeira do encore, música escrita em 1995, em pleno conflito nos Balcãs — quem se lembra dos cercos?, e dos snippers? Há tantas guerras novas. As imagens no ecrã são de Omaima, uma refugiada síria de 15 anos que vive num campo na Jordânia rodeada de “tristeza”. Mas são também planos de cidades destruídas, de miúdos a caminhar por entre escombros, postais animados de barracas, que são tudo o que têm os que já não têm nada. E depois vem Bono e canta: “Is there a time for keeping a distance/ A time to turn your eyes away/ is there a time for keeping your head down/ for getting on with your day.”

Por uma vez, talvez a única, há muita gente calada, a olhar para aquilo tudo, incapaz de virar a cara. E a miúda síria de 15 anos olha-nos de volta, numa enorme faixa de pano com a sua cara que percorre a bancada nas mãos do público. “Levantem-na, levantem-na”, pede Bono, enquanto Pavarotti canta em fundo. “Barcelona, tens os olhos bem abertos”, diz o vocalista dos U2. Omaima está no ecrã e tem os olhos fechados.

Tudo muda logo a seguir, como que a provar que basta um pequeno gesto para fazer do mundo um lugar melhor, mais bonito. ‘Beautiful Day’ mete o público aos saltos, ‘Elevation’ alimenta os gritos que chegam de todos os lados, e com ‘Vertigo’ é a loucura generalizada: “uno, dos, tres... cuatro”, em vez de “catorce”. Os espanhóis ao meu lado parecem possuídos. “Hello, hello.../ I’m at a place called Vertigo”, grita a mulher à minha frente — no início do concerto estava carinhosamente numa videochamada com o filho de 5 ou 6 anos, que, arrisco, tinha ficado com a avó. Bono volta a Bowie para uns versos de ‘Rebel Rebel’, como fizera pelo meio de ‘Beautiful Day’, onde entraram umas linhas de ‘Starman’. A coisa acalmou um pouco antes de ‘Ultra Violet (Light My Way)’, com Bono a dedicar algumas palavras às mulheres da banda — à sua, às dos outros três, às que trabalharam para tudo aquilo ser possível, a todas e mais algumas cujos rostos e nomes foram aparecendo no ecrã.

Quando soaram os primeiros acordes de ‘One’ sentimos que o fim estava próximo. Meia dúzia de segundos para pensar um pouco, para fixar uma ideia a ser amadurecida mais tarde. Regressar ao hotel, voltar a casa e olhar de novo para a letra. “Well, it’s too late tonight to drag the past out into the light./ We’re one, but we’re not the same./ We get to carry each other, carry each other... one.” Talvez seja isso que fica. É demasiado tarde para trazer o passado de volta, ainda que ele pareça mais presente do que nunca. Somos, passaram 30 anos e ainda somos. Mas já não somos os mesmos. Ou talvez sejamos. O concerto acaba com ‘The Little Things That Give You Away’, música do próximo álbum, que, diz Bono, “o Edge garante que vai estar pronto no fim do ano”. O Edge encolhe os ombros.

O fim, contudo, devia ter sido outro, algo que aconteceu a meio, um detalhe que nos denuncia a todos. Não me lembro ao certo em que música foi — falha minha, imperdoável —, mas há um momento em que Bono está no palco, com o resto da banda alinhada ali ao lado, e diz algo como: “Obrigado por nos terem dado uma vida tão boa.” Vou resistir ao cinismo da rapariga que escreveu no Twitter: “Vou lembrar-me disso quando tiver 70 anos e for uma sem-abrigo com uma data de discos autografados.” Vou tentar fingir que não sei que ele diz isso em todos os concertos, o que não faz dele menos sincero — apenas nos torna não tão especiais. Prefiro pensar que, naquele instante, o homem estava a falar a sério e a agradecer-nos genuinamente pela vida que teve. Prefiro pensar que, ao dirigir-se àquelas 50 mil pessoas, ele estava a ver pontos brancos e pretos. Como se fossem estática na televisão, um infinito igual e sempre diferente. E gosto de pensar que na noite de 18 de julho de 2017, no Estádio Olímpico de Barcelona, aqueles quatro tipos olharam para nós como se fôssemos os U2 dos U2.

* Em Barcelona